Coluna: Luiz Paulo Horta




Cyro dos Anjos (1906-1994)

Romancista mineiro, autor de "O Amanuense Belmiro", deixou também um livro de memórias - "Explorações no Tempo" - de onde foi extraído o texto seguinte.O autor está falando do pai, severo, em quem discernia uma eventual melancolia. Tentando a interpretação desse fato, ele desliza na direção de um terreno visitado por Platão e por diversos poetas . O tema é a sensação meio dolorida que às vezes nos acomete quando contemplamos uma beleza perfeita.
"Com o tempo, e por experiência própria, aprendi que essa melancolia incausada, que nos rói de mansinho, não vem das coisas de fora, nem mesmo das de dentro. Brota simplesmente do existir, e quem sabe será pura nostalgia do mundo de essências a que a alma foi arebatada para informar o frágil barro humano. Assim se explicaria o estranho fato de as coisas belas nos provocarem suspiros, e não alegres impulsos: refletem uma face do Absoluto e dele nos fazem nostálgicos.

A melancolia do sorriso de meu pai não podia ter outra significação: esse encontro que, correndo os anos, temos amiúde com o ser profundo, sempre que algo nos arranca à torrente do cotidiano".


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