O ano de 2010 termina e começa o ano-novo. Para alguns foi um ano de felicidade e realizações: o nascimento de um filho, o alcance de um sonho há muito perseguido, um trabalho coroado de êxito. Para outros foi de perda e negatividade: perda do emprego, de gente querida, de recursos, enfim de muita coisa que trazia sabor à vida. Em qualquer das duas situações, importa no novo ano deixar para trás o que passou e procurar renovar o olhar, a atitude, o pensamento, o agir. Trata-se de mais do que simplesmente uma lista de resoluções sobre perder peso e fazer ginástica. Trata-se de uma renovação profunda e totalizante. Para que o ano seja novo, há que estar disposto a renovar aquilo que há de mais profundo em nós e que nos faz mais humanos. Por exemplo, parar de continuar a nos autocompreender a partir de nós mesmos e defendendo desordenadamente, com unhas e dentes, um espaço "próprio". É preciso que nosso “lugar” de autocompreensão não seja nós mesmos, mas o outro ou a outra. Um dos baluartes da autocompreensão do ser humano é sua capacidade de êxodo de si mesmo, de êxtase, de saída da mesmice do olhar para si próprio e olhar para a alteridade e a diferença daquele ou daquela que tem frente a si. E assim fazendo, seu destino não é perder "seu" lugar para andar errante pela terra, sem ter para onde ir. É descobrir para si nova situação, novo lugar, outra terra, outra pátria, outra paisagem. Para que o ano seja novo, é necessário permitirmos que a solicitude, o amor e a generosidade nos arranquem de nós mesmos para situar-nos no outro, em seu lugar, suas preocupações, seus amores, suas dores, suas penas e glórias e fazer assim possível a descoberta e a vivência de uma nova comunhão. Na antropologia se reproduzirá então o êxodo do Verbo, o qual, sendo de condição divina, não se aferrou à prerrogativa de ser igual a Deus, mas se fez homem, humilde, servo, obediente, até a morte de cruz (Fil 2,5-11). Reproduz-se, também, o êxodo do próprio Espírito, enviado constantemente pelo Pai e pelo Filho, "outro" Paráclito que tem a missão de "recordar" e "rememorar" as palavras ditas por Jesus de Nazaré e conduzir seus ouvintes a toda a verdade (cf. Jo 16,13; 14,26; 15,26). Assim, à semelhança do êxodo e da "saída" constante e contínua do próprio Deus de si mesmo, contemplando e experimentando o próprio Filho e o Espírito que saem da inefabilidade da comunhão intra-trinitária em direção ao mundo e à humanidade, o ser humano passará a ser e autocompreender-se como um peregrino, não possuindo aqui lugar onde repousar a cabeça, se encontrando em si mesmo, mas apenas fora de si mesmo, no outro, nos outros. Essa experiência implicará para nós neste ano que queremos novo viver no espaço do outro e admitir que o outro viva em nosso próprio espaço. Esse fato tem várias e sérias implicações e consequências em todos os níveis. Essa alteração permanente do espaço significa, por um lado, caminhar sempre rumo ao desconhecido e abrir-se para ser por sua vez invadido pelo desconhecido. O outro é um mistério nunca de todo revelado. Dispor-se a viver em seu espaço é expor-se a ser talvez rejeitado, ultrajado e mesmo extinto. É ter que permanecer no espaço alheio, anônima e obscuramente, como o grão de trigo que morre para dar fruto. É ter que assumir as características do outro, sua cultura, suas categorias, para a partir daí anunciar-lhe a Boa Nova e não impor-lhe categorias estranhas, que não permitirão o acesso à comunicação e à verdadeira comunhão. A pergunta divina a Caim, depois da queda original, "Onde estás"? (Gen 3,9), não significa somente o lugar entendido como espaço físico e geográfico, mas toda a situação existencial do ser humano. É esta que desejamos nova no novo ano que agora começa. E para que assim seja, é essencial aprender a responder a essa visceral pergunta não a partir de nós mesmos, mas do outro e dos outros. Eu me situo no outro. Sou, sim, responsável por meu irmão. Respondo por ele, falo em nome dele ou dela quando a palavra lhes seja cassada; ajo em nome dele ou dela quando estiverem de mãos atadas; corro em seu auxílio quando estiverem necessitados. Assim, Aquele que renova todas as coisas será novo também em nós, pois através de nós estará levando a termo o parto da Nova Criação, feita de justiça e de amor. FELIZ ANO NOVO! |
||
|
Autor: Maria Clara Bingemer |
||
|
|
||
|
Compartilhe
Envie por email
Imprimir
|