Coluna: Mª Clara Bingemer




O Papa em Cuba: renovação e esperança


          O mundo acompanha com curiosidade e atenção a visita do Papa Bento XVI a Cuba.  Após a visita de seu antecessor, João Paulo II, que levou à rua verdadeiras multidões na ilha caribenha, a visita de Bento XVI igualmente levanta interesse e resposta  intensa da população cubana.

          Já mesmo antes da visita de Bento XVI à Ilha, a movimentação feita pela Igreja Católica em torno da celebração dos quatrocentos anos de devoção à  Virgen de la Caridad del Cobre (Cachita, como a chamam carinhosamente os cubanos) se fazia sentir.  Em cada cidade por onde passava a imagem da Virgem,  as ruas se enchiam de peregrinos que a seguiam com orações, cânticos e alegria. 

          Assim também acontece com a visita papal.  O povo cubano que havia mostrado sua alma religiosa com a visita do anterior Papa, faz o mesmo com este.  Sai às ruas e acompanha os discursos, missas e gestos do Pontífice com respeito e atenção carinhosa.

          E todos os que se puseram à escuta do homem de branco que se dirigiu ao santuário de Cachita, - a virgem mambisa -  em Santiago de Cuba, ouviu o que ele narrava de sua oração à padroeira da ilha: “Fazei saber, a quantos se encontram perto ou longe, que confiei à Mãe de Deus o futuro da sua Pátria pedindo-Lhe que avance por caminhos de renovação e de esperança para o maior bem de todos os cubanos.”

          Como de costume, Bento XVI aplica sua inteligência e percepção na visita pastoral que realiza, evitando provocações, conflitos e avançando com extrema prudência nas mensagens que deseja que finquem raízes no coração dos fiéis.  As palavras acima deixam claro que o Papa entende que a ilha vive neste momento um processo novo. 

          Não apenas tem um governante outro que aquele que a regeu por quase cinqüenta anos e que, apesar de seguir a mesma linha do irmão e predecessor, imprime um estilo diferente a muitos aspectos da vida da Ilha.  Mas também abre novos caminhos para a vida de seus habitantes.
         
        A Cuba de hoje é diferente em muitos pontos da que João Paulo II encontrou em 1998.  O governo estuda seriamente uma reforma econômica, da qual alguns efeitos já se fazem sentir, sobretudo na permissão de adquirir bens duráveis de consumo, como automóveis; ou de usar telefones celulares.  Igualmente a situação dos dissidentes e presos políticos tem conhecido alguns avanços, tendo sido postos em liberdade pessoas que se encontravam há bastante tempo no cárcere.
         
        A Igreja, longe de estar afastada do diálogo com o governo cubano, hoje é interlocutora privilegiada do mesmo.  O hábil Cardeal de Havana, Jaime Ortega, vive relação de estreita proximidade e mesmo amizade com o presidente Raul Castro.  Articulador de toda a visita papal, o cardeal tem atuado com extrema prudência e habilidade, empenhando-se em jamais romper o diálogo iniciado e mantendo uma atitude respeitosa e aberta diante do regime.

          Isto sem dúvida tem contribuído para abrir brechas para a atuação da Igreja que passa a ser olhada com abertura e mesmo simpatia pelos membros do governo, facilitando a atuação pastoral e a organização dos organismos eclesiais na Ilha.  Bento XVI sem dúvida está informado e consciente disso. E em sua visita adota este mesmo tom respeitoso e prudente, conclamando os fiéis que o escutam a uma atitude positiva, de esperança e colaboração para uma abertura que parece despontar no horizonte e pela qual todos anseiam. 

          Os cubanos são um povo digno e consciente de seu valor.  Ao mesmo tempo, cientes das conquistas positivas que sua revolução e seu sistema político alcançou, e das quais não desejam abrir mão.  O fato de estarem dispostos a realizar reformas demonstra uma atitude madura de quem sabe não haver ainda atingido o que seria ideal em muitos aspectos.  Mas ao mesmo tempo, não toleram que se lhes imponha coisas e atitudes desde fora e de forma arbitrária.

          Bento XVI, homem inteligente e perspicaz, percebe esse ambiente que é o pano de fundo de sua visita.  E discursa sobre a excelência da liberdade que todos respeitam, até mesmo o próprio Deus.  E em seu discurso de chegada deixa registrado que na Ilha, desde a visita de seu predecessor, inaugurou-se uma nova etapa nas relações entre a Igreja e o Estado cubano, em termos de maior colaboração e confiança.  Porém acrescenta que há ainda muitos aspectos nos quais é possível avançar, “especialmente no que diz respeito à contribuição imprescindível que a religião é chamada a prestar no âmbito público da sociedade. “

          Certamente a visita pontifícia será um passo importante e positivo neste avanço, é o que esperamos todos os que olhamos para a pérola do Caribe com confiança e esperança.

 


 

Autor: Maria Clara Bingemer
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