Coluna: Frei Betto




Frei Cláudio, o pároco

Frei Betto  

Pessoas não são  descartáveis. Muito menos quando se trata de um frade da venerável Ordem dos  Carmelitas que abandona o conforto de sua terra, a Holanda, para servir a  comunidade cristã numa paróquia de Belo  Horizonte.

Falo de frei  Cláudio Van Balen, ordenado sacerdote há 50 anos e brasileiro de coração há  44. Ruivo, espigado, gestos decididos e orador de frases curtas e  contundentes, o bom humor faz de frei Cláudio um dos melhores contadores de  piadas que conheço. Talvez esse seja o segredo de sua perene jovialidade.  Desde que o conheci, na década de 1970, tem a mesma alegria de  viver.

Escritor  profícuo, autor de inúmeras obras de espiritualidade e liturgia, paróco da  igreja Nossa Senhora do Carmo, frei Cláudio jamais foi um mero burocrata da  fé, como certos padres que se restringem a cumprir horários de missas  dominicais e a agenda paroquial de batizados e casamentos. Quase nunca têm  tempo para visitar seu rebanho, em especial a parcela mais pobre. 

Há párocos do  “venhais vós ao nosso reino”. Jamais se preocupam de, espontaneamente, ir ao  encontro de seus paroquianos. Frei Cláudio é um pastor dedicado às suas  ovelhas. Visita com frequência as famílias da paróquia nos bairros Carmo e  Sion. Em especial, aquelas que se encontram em dificuldades. 

Quando estive  preso, sob a ditadura militar, ao longo de quatro anos, frei Cláudio me  animava com suas generosas cartas, publicadas em Cartas da Prisão  (Agir), e visitava meus pais, seus paroquianos, quase toda semana. 

Corre a notícia  de que, por discordar da ação pastoral de frei Cláudio , a arquidiocese de  Belo Horizonte teria dado a ele o prazo de abandonar a paróquia do Carmo até  31 de maio. Será que há diálogo entre o colégio episcopal e o conselho  paroquial do Carmo?
Frei Cláudio teve oportunidade de se defender das  suspeitas que pesam sobre ele (é acusado de ser demasiadamente heterodoxo em  suas pregações e nos boletins dominicais) e apresentar as razões de sua  inovadora ação pastoral?

A paróquia do  Carmo é um dinâmico centro de evangelização e serviços prestados à população  carente. Ali trabalham 82 funcionários e 316 voluntários! Entre os vários  serviços destacam-se: Pastoral da Saúde, que beneficia crianças de 0 a 6 anos  (e já fez quase 30 mil atendimentos); Centro de Atendimento Terapêutico  (psicoterapia, orientação profissional e fonoaudiologia); Pastoral da Promoção  Humana (alfabetização de adultos); Projeto Conviver (crianças e adolescentes  em situação de risco); Bazar da Vovó (idosas); Clube de Mães; biblioteca;   Centro de Atendimento Jurídico (às famílias pobres de vilas e favelas);  Escola Profissional (informática, digitação, eletricidade, mecânica de  automotores, massagem para a terceira idade etc.); ambulatório; Bazar da  Família (venda de produtos a preços simbólicos); Equipe de Costura; Creche do  Morro do Papagaio (65 crianças); Creche Terra Nova (100 crianças); e Instituto  Zilah Spósito (334 crianças e adolescentes em situação de  risco).

De janeiro a  novembro de 2009, a paróquia do Carmo arrecadou – através de dízimos,  alugueis, doações e eventos – R$ 1.468.026,00 e gastou, com projetos sociais e  despesas administrativas R$ 1.507.745,00 Tudo ali é transparente, como os  serviços e a contabilidade. 

No sínodo dos  bispos em 1971, em Roma, um arcebispo africano apresentou a seus pares, por  documentário, a liturgia em sua diocese. O filme mostrava um tronco de árvore,  cortado quase rente à raiz, como altar. Em volta, negros de tanga tocando  tambores e negras, com os seios à mostra, dançando na missa. Um cardeal romano  protestou indignado: “Isto é uma blasfêmia. Não é a liturgia da Igreja.”   O africano reagiu calmamente: “Pode não ser a de Roma, mas da Igreja é.  Porque se nós africanos tivéssemos evangelizado a Europa, a esta hora todos os  senhores estariam dançando desnudos em volta do  altar.”

Esta a questão:  a atividade pastoral de frei Cláudio Van Balen contradiz a Igreja Católica?  Nem o próprio Jesus quis uniformidade em sua Igreja. Não são quatro os  evangelhos? Vejam as brigas entre Pedro e Paulo na Carta aos Gálatas. A  pluralidade de métodos de evangelização é uma riqueza. A tolerância, uma  virtude. O diálogo, a via mais fácil para as pessoas se  entenderem.

Frei Betto é  escritor, autor de “Um homem chamado Jesus”  (Rocco), entre outros  livros. http://www.freibetto.org

Copyright 2010 – FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)


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