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IPEA ameaçado
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André Urani
Passado já quase meio-século da transferência da capital para Brasília, ainda é no Rio que se pensa melhor no Brasil. Uma prova disto é o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o IPEA, onde tive o privilégio de trabalhar entre 1992 e 1996. O IPEA foi criado no final dos anos 60, já em pleno regime militar, por iniciativa do ex-Ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Vellozo. Desde o início, ficou meio em Brasília, meio aqui no Rio. O IPEA de Brasília sempre funcionou como reservatório de talentos para os mais diferentes ministérios. Tinha a capacidade de recrutar pessoas altamente qualificadas, que acabavam sendo aproveitadas, na prática, como quadros técnicos ou dirigentes dos diferentes governos de plantão. Já o IPEA-Rio sempre foi um lugar diferente que, mesmo nos anos mais duros da ditadura manteve uma independência que sempre incomodou o governo. Mas ninguém, nem mesmo nos tempos da ditadura, teve a coragem de meter seu bedelho em sua forma de funcionar. Foi lá, por exemplo, que, em meados dos anos 70, Pedro Malan e Regis Bonelli criticaram duramente o aprofundamento do processo de substituição de importações via endividamento externo, comandando, na prática, o pensamento intelectual contra a política econômica do regime autoritário. Assim como foi lá, também, que durante as duas últimas décadas, Ricardo Paes de Barros e uma constelação de pessoas que lhe giraram em torno desenvolveram tecnologias pioneiras para decifrar o quebra-cabeças da desigualdade e da pobreza em nosso país, gerando um lastro de conhecimento sobre o qual se baseiam as atuais políticas sociais, que têm conduzido a uma melhora generalizada dos indicadores de qualidade de vida. É lá que se tem a coragem de formular previsões sobre o crescimento do PIB ou sobre a evolução de nosso sistema previdenciário menos otimistas que as que são anunciadas pelo executivo federal. Esta independência está hoje sendo ameaçada pela decisão de subordinar o IPEA a um novo ministério, o trigésimo sexto do Governo, que terá como sugestiva sigla SEALOPRA (Secretaria das Ações de Longo Prazo), cujo titular se distingue mais por sua fome de poder que por suas contribuições ao debate acadêmico em nosso país. Resistir é importante para o Brasil.
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