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Experiência humana e fé cristã: as duas fontes da teologia

"Para Schillebeeckx, experiência humana e fé cristã são as duas fontes da teologia: devem ser pensadas em correlação. Sem a pergunta de sentido que brota da experiência humana, as respostas do teólogo cairiam no vazio."

Essa é a opinião de Marcel Neusch, padre assuncionista, professor de teologia e antigo diretor do Instituto de Ciência e de Teologia das Religiões do Instituto Católico de Paris, em artigo para o jornal La Croix, 28-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Com Edward Schillebeeckx, nascido em Anversa (Bélgica) em 1914, desaparece um dos últimos grandes da teologia do século XX. O teólogo de origem belga morreu no dia 23 de dezembro em Nijmegen (Holanda), aos 95 anos de idade. Entrou na ordem dominicana em 1934, foi ordenado padre em 1941 e fez seus estudos na Universidade de Louvain, no centro dominicano Le Saulchoir e na Sourbonne.

A sua vida foi consagrada ao ensino da teologia. Desde 1943, iniciou o ensino em Louvain e, em 1958, foi nomeado à Universidade de Nijmegen. Teólogo no Concílio, participou especialmente na elaboração da constituição "Dei Verbum" sobre a revelação. Um mesmo fio condutor atravessa a sua obra desde o início até o fim: a relação entre a experiência cristã e a experiência humana.

Nos seus trabalhos, distinguem-se em geral dois períodos. O primeiro, entre 1946 e 1967,  se inscreve na linha de um tomismo aberto, sensível à dimensão histórica. O seu centro de interesse é o encontro entre Deus e a humanidade em Cristo. A obra mais significativa desse período é "Cristo, sacramento do encontro com Deus" (Bréscia, 1960), um livro de sucesso. O segundo período, mais criativo, corresponde à mudança do Vaticano II. Atinge o seu ponto culminante com os três volumes de "Jesus, a história de um vivente" (Bréscia, 1976).

Para Schillebeeckx, experiência humana e fé cristã são as duas fontes da teologia: devem ser pensadas em correlação. Sem a pergunta de sentido que brota da experiência humana, as respostas do teólogo cairiam no vazio. Agora, se a resposta cristã oferece uma "superabundância de sentido", esse sentido deve se inserir em uma experiência humana em que o homem já está em busca de sentido.

"A resposta hesitante do homem à sua própria pergunta é identificada, valorizada na fé cristã. À luz da revelação, manifesta-se a superabundância de sentido, contida no sentido que o homem mesmo descobriu no mundo".

Esse método encontra na cristologia o seu campo de aplicação por excelência. Se quisermos ser confiáveis na proposta de fé cristã hoje, é preciso partir não dos dogmas, mas do Jesus histórico, dos seus encontros com os seus contemporâneos e das perguntas destes últimos. O campo da história é também o lugar de encontro com as perguntas dos nossos contemporâneos. O teólogo flamengo pratica resolutamente uma cristologia narrativa, mostrando como o método histórico permite adquirir um certo número de conhecimentos sobre a pessoa de Jesus e sobre o modo em que a comunidade cristã elaborou a cristologia. O método histórico é hoje uma passagem obrigatória, único caminho de acesso confiável à identidade de Jesus.

Sem o sustento da história, o grande perigo para a fé seria deixar que o anúncio pascal se torne uma fórmula abstrata. Não se trata de provar a fé cristã por meio da história, mas de "buscar na imagem de Jesus elaborada por meio do método histórico, os sinais e os indícios que poderiam nos sugerir a mensagem cristã como uma resposta plausível à busca humana relativa à salvação – orientando-se essa resposta para o modo particular em que Deus teria proposto a salvação na pessoa de Jesus". Uma tal abordagem à busca de indícios históricos de Jesus é entendido ao mesmo tempo como crítica e confessante.

Em definitiva, esse Jesus ainda é Deus? Para o padre Schillebeeckx, Jesus é efetivamente a revelação definitiva de Deus e nos mostra também "quem e o que nós homens podemos e devemos ser. No homem Jesus, a revelação do divino e a abertura de um ser humano verdadeiro, bom e realmente feliz coincidem totalmente na própria pessoa humana".

Essa profissão de fé não bastou para proteger o grande teólogo dominicano da suspeita. Posto sob acusação em Roma em 1977, foi absolvido. "Tentaram me fazer cair, mas sem sucesso", escreveu. "Não fui condenado". A um livro de entrevistas (Cerf, 1995), dará este título: "Je suis un théologien heureux" ("Sou um teólogo feliz").

Autor: Marcel Neusch. A tradução é de Moisés Sbardelotto
Fonte: La Croix e Unisinos
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