Jesus Cristo




O zelo por tua casa me consome

Ao chegar ao Templo e se deparar com a quantidade de vendedores que ali comercializavam mercadorias Jesus tomou um chicote e expulsou os comerciantes daquele local sagrado.  A atitude de Jesus, mais que seu impacto agressivo, demonstrava o zelo pela casa do Senhor – o texto evangélico fala menciona a narrativa profética das Escrituras acerca do Messias, dizendo “o zelo por tua casa me consumirá” (Jo 2, 17).

O Templo havia deixado de ser o local sagrado para se tornar um lugar de comércio e – pior – de exploração.  As práticas religiosas tinham perdido seu caráter místico para se tornarem fonte de jugo e humilhação. Com isso, ao seu redor surgiu um comércio espúrio e imoral que só as reforçavam. A atitude de Jesus vem, portanto, em resgate do verdadeiro sentido do espaço destinado à oração e ao encontro com Deus. 

A tradição cristã nos fala desse episódio como “a expulsão dos vendilhões do Templo”.  E nos fala com propriedade.  Segundo o dicionário Aurélio, em um sentido figurado a palavra vendilhão significa aquele que trafica coisas de ordem moral.  Essa era a prática dos vendedores que viviam do comércio do Templo.  Ainda que apresentassem para comercialização mercadorias que seriam utilizadas nos cultos, o sentido da apresentação dos sacrifícios ao Senhor havia sido totalmente deturpado com o passar dos anos e com a interpretação errônea e maldosa da Lei.  Assim, aquele comércio simbolizava o tráfico moral, a transmutação da ideia amorosa de um povo que se oferece ao Seu Deus e a Ele se apresenta com oblações para a ideia de exploração, onde as pessoas eram incitadas a comprar para que não fossem excluídas de seus pares.

São Paulo nos ensina que somos templos do Espírito. Porém, nem sempre nossos corações são terrenos férteis para a mensagem de Deus, mas nele habitam o orgulho, a inveja, a raiva e o rancor, os vendilhões do mal que impedem que sejamos inteiramente de Deus.  Neste período de Quaresma, possamos deixar que Jesus tome do chicote e expulse de vez esses sentimentos que não deixam o amor florescer.  Possamos não nos transformar em fontes exploradoras dos outros, excluindo-os de nosso convívio por não serem iguais a nós.  Possamos fazer de nossos corações o templo sagrado, o santuário, o local por excelência do encontro verdadeiro com o Deus vivo.

Possamos, enfim, zelar pelas casas do Senhor: uma que é está em nosso interior e que é o coração humano; outra, a comunitária, espaço de encontro com o outro e com o sagrado, para que seja templo vivo do Espírito, revelado na ação amorosa de convívio entre irmãos, filhos de um mesmo Pai.

Para reflexão: Jo 2, 13-22

Autor: Gilda Carvalho
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