Educação

Entrevista com Danilo Streck: Reinventando Paulo Freire

Márcia Junges e Patricia Fachin

Paulo Freire dizia que não queria ser imitado, mas que precisava ser reinventado”, disse o educador Danilo Streck na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Outro aspecto abordado é que Freire “entende a humanização como um processo, no sentido de que vivemos cotidianamente a tensão entre humanização e desumanização. Ser humano é de fato um permanente tornar-se humano”. Ao analisar a vinculação entre autonomia e liberdade, Streck sinaliza que, para Freire, elas não ficam restritas ao indivíduo, mas são construídas “nas relações entre sujeitos, em contextos históricos concretos. Nesse sentido, é um desafio para a toda a prática educativa criar espaços e condições para que essa conquista da liberdade e da autonomia se realize”.

Streck é mestre em Educação Teológica, pelo Princeton Theological Seminary, e doutor em Fundamentos Filosóficos da Educação, pela Universidade do Estado de Nova Jersey, Estados Unidos, com a tese John Deweys and Paulo Freire view of the educational function of education, with special emphasis on the problem of method (A visão de John Dewey e Paulo Freire da função educacional da educação, com ênfase especial no problema do método). No momento, está desenvolvendo o projeto de pesquisa Processos participativos emancipatórios na América Latina como mediação pedagógica para a constituição do público e é professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisinos.

De sua extensa produção intelectual, destacamos as seguintes obras: Rousseau e educação (Belo Horizonte: Autêntica, 2004), Correntes pedagógicas: uma abordagem interdisciplinar (Petrópolis: Vozes, 2005) e Erziehung für einen neuen Gesellschaftsvertrag (Siegen: Athena, 2006). É um dos organizadores de Pesquisa participante: a partilha do saber (Aparecida: Idéias & Letras, 2006).

IHU On-Line – Quais as principais contribuições de Paulo Freire para a Pedagogia? De que maneira sua crítica pedagógica propõe uma renovação no ensino?

Danilo Streck - Paulo Freire é uma referência para a Pedagogia porque conseguiu sintetizar, como poucos, o pensamento pedagógico de sua época, que em boa medida é ainda a nossa época. Pode-se ver nele diversas vertentes do pensamento pedagógico, pode-se concordar ou discordar de suas idéias, mas as grandes questões da educação estão postas em sua obra. Vejo que uma de suas contribuição é este “registro” espalhado numa vasta obra que ensina sobretudo que a Pedagogia, enquanto reflexão crítica da prática educativa, precisa acompanhar o movimento de homens e mulheres na busca de sua humanização. Em nenhum livro, isso fica tão evidente como na Pedagogia do oprimido, com certeza o seu grande livro clássico. É a pedagogia daqueles que, reconhecendo-se oprimidos, buscam caminhos para a sua emancipação. Essa visão não representa apenas uma “renovação” no ensino, mas uma “revolução” na maneira de se conceber o ensino e o próprio sentido da educação. 

IHU On-Line - Como o senhor relaciona o pensamento de Paulo Freire e o ensino do humanismo na universidade?

Danilo Streck - Paulo Freire entende a humanização como um processo, no sentido de que vivemos cotidianamente a tensão entre humanização e desumanização. Ser humano é de fato um permanente tornar-se humano. O ser mais de que ele fala é esta possibilidade que existe em cada um de nós como ser inconcluso, sem medidas preestabelecidas para o que pode vir a ser. Essa visão de Freire tem uma forte influência de sua formação humanista-cristã, como ele mesmo reconhece em vários depoimentos e escritos. A existência de atividades curriculares destinadas a esta formação está em consonância com esta preocupação de Paulo Freire. Ao mesmo tempo, é importante que se faça uma ressalva: o fato de ser “matéria” de ensino ainda diz muito pouco sobre o que efetivamente será aprendido. O efeito até pode ser o contrário do intencionado, se não estiver acompanhado de uma prática docente coerente e se não estiver inserida num ethos humanizador.

IHU On-Line – Em que medida a antropologia das aprendizagens elaborada por Paulo Freire é útil para a construção da educação?

Danilo Streck - A pedagogia de Paulo Freire se funde com uma antropologia no sentido de que está baseada numa visão de ser humano inconcluso que vive em uma cultura e em história que também não estão determinadas. A relevância desse pensamento para a educação consiste em reconhecer a diversidade de formas de conhecer. Não existe um vazio de cultura nem de conhecimento. A escola, como instituição universal, tende a não valorizar esta diversidade e muitas vezes reforça ou legitima a exclusão de grupos e indivíduos que não se encaixam na lógica hegemônica , entendida como única.

IHU On-Line – Em que sentido Paulo Freire simboliza a possibilidade de pensar os “inéditos viáveis”?  O senhor percebe essa busca nos educadores brasileiros?

Danilo Streck - Percebo, sim. Não se trata de idealizar a atuação dos educadores brasileiros, mas ao longo dos anos tenho percorrido muitos lugares e visto incrível criatividade e, sobretudo, uma preocupação em “mudar” a educação. Há também as acomodações, mas prefiro olhar o outro lado. Por exemplo, participo pela segunda vez da comissão que avalia os trabalhos de professores que concorrem ao “Prêmio Paulo Freire Mestre Educador”, instituído pela Câmara Municipal de São Leopoldo. Há, desde a educação infantil, até o ensino médio, muitas experiências que confirmam esta busca pelo inédito viável, seja através de uma vinculação criativa dos conteúdos curriculares com a comunidade, a valorização da cultura das crianças e dos jovens ou o uso inovador de novas tecnologias. Dá para ver ali o dedo e o espírito de Paulo Freire.

IHU On-Line – Como avalia o curso de Pedagogia ao longo desses 50 anos? Quais as transformações mais significativas?

Danilo Streck - Acompanho o curso de Pedagogia há apenas um pouco mais de 10 anos e não poderia falar de toda a sua longa trajetória. Vejo que se trata de um curso dinâmico, atento às mudanças da legislação e às demandas da sociedade. Destacaria, nestes últimos anos, a forte preocupação por qualificar a formação. Em muitos lugares, a área da educação – sobretudo a Pedagogia – é vista como academicamente menor. O curso da Unisinos tem insistido com as estudantes (a maioria são mulheres) que para ser uma boa professora não basta gostar de crianças. A amorosidade de que falava Paulo Freire não tem nada a ver com a um romantismo vazio de conteúdo. Pelo contrário, significa um comprometimento que por sua vez exige conhecimentos técnicos e científicos.

IHU On-Line – Como a obra de Freire suscita através educação indivíduos autônomos e livres?

Danilo Streck - Paulo Freire dizia que não queria ser imitado, mas que precisava ser reinventado. Em recente Fórum realizado pelo Instituto Paulo Freire em comemoração aos 40 anos da Pedagogia do Oprimido (de 1968), o poeta Thiago de Mello, que escreveu o belo poema “Uma canção para os fonemas da alegria”, disse que reinventar Paulo Freire era continuar o seu caminho, os seus passos. Não significa, como se diz às vezes, andar nas suas pegadas pisando o mesmo chão que ele trilhou, mas a partir de seus passos criar novos caminhos num mundo que (ainda) é mesmo e que também (já) é outro. Em relação a essa questão, talvez deva acrescentar que, para Freire, a autonomia e a liberdade não se restringem ao indivíduo, como espécie de atributos naturais, mas são construídos nas relações entre sujeitos, em contextos históricos concretos. Nesse sentido, é um desafio para a toda a prática educativa criar espaços e condições para que essa conquista da liberdade e da autonomia se realize.

Fonte: http://www.unisinos.br/ihuonline

 


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