Cardeal D. Eusébio Oscar Scheid. Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Abrindo a última semana do tempo natalino, celebramos o Domingo da Epifania, quando recordamos as figuras dos Sábios do Oriente, que partiram de terras distantes, empreenderam uma longa e dura jornada, para alcançarem seu objetivo maior: o encontro com Jesus. A nossa caminhada de fé também se orienta na mesma direção. Hoje, depois de tantos séculos da Encarnação, Ressurreição e Ascensão gloriosa de Jesus aos céus, permanece a mesma pergunta, cuja resposta cada um de nós deve descobrir: Onde e como encontrá-Lo? Nesta procura, partimos de uma certeza, fundamentada na palavra do próprio Senhor: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Em primeiro lugar, podemos encontrar Jesus nos relatos da sua própria história, ou seja, através do que os Evangelhos nos contam. Estes textos sagrados não são uma biografia de Jesus, pois seu escopo é o anúncio da Boa-Nova do Reino de Deus. No entanto, não poderiam deixar de traçar um perfil de nosso Senhor, como que uma dinâmica apresentação do que Ele falou e fez entre nós. Assim, os Evangelhos, às vezes se repetem, outras vezes, se complementam, moldando a configuração dessa maravilhosa Presença de Deus em face humana entre nós. Veio ao mundo para nos ensinar tudo sobre Deus, sobre o próprio homem e sobre a História. Isso tudo dentro de uma dinâmica de relacionamento com Deus e dos homens entre si. São Paulo – o maior evangelizador depois de Cristo - escreveu diversas de suas Cartas antes que surgissem os textos dos Evangelhos que, por sua vez, se basearam, em grande parte, no que Paulo expôs. Os evangelistas se beneficiaram de algo que São Paulo não teve: uma experiência diária com Jesus, dia e noite, durante 3 anos. O Apóstolo, porém, vivenciou a aparição de Cristo, no caminho de Damasco. Depois, certamente, o Senhor Jesus lhe comunicou seus ensinamentos, ao longo do tempo que Paulo passou na Pérsia, durante a dolorosa experiência na prisão, até o momento final de sua vida, antes da decapitação em Roma. Portanto, Paulo também é uma fonte autorizada sobre Jesus Cristo, tendo-nos transmitido, senão todos, praticamente todos os seus ensinamentos, como afirma o próprio Apóstolo aos Gálatas: “Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11-12). Outro modo concreto de encontrarmos Cristo é através dos 7 Sacramentos, gestos que Ele instituiu, e mandou que a Igreja repetisse, para nos santificar, em cada fase ou situação de nossa vida. Pela infusão do Espírito Santo, no Batismo, tornamo-nos participantes de sua própria vida divina e suas testemunhas pelo Sacramento da Crisma. Cristo faz-se nosso alimento espiritual pela Eucaristia, na qual Ele está totalmente presente – corpo, sangue, alma e divindade - sob a pequenina forma de um aparente pedaço de pão e um bocado de vinho. Doa-se a nós nesse supremo gesto de amor. Quando estamos moralmente doentes, o Senhor nos garante sua misericórdia e seu perdão, através do Sacramento da Reconciliação. Também nos dá o auxílio para recuperação da saúde, pelo Sacramento da Unção dos Enfermos. Somos ungidos para recobrar a saúde, porém, quando isso não acontece, o Sacramento nos prepara para comparecermos diante de Deus, com toda a pureza e com toda a santidade que Ele merece e nos propicia alcançar. Cristo também santificou o amor humano, sobrenaturalizando-o pelo Sacramento do Matrimônio, no qual os cônjuges, unindo o masculino e o feminino “numa só carne”, compõem a plena imagem e semelhança de Deus, que desabrocha na geração dos filhos. Enfim, o Cristo-Sacerdote se faz presente e atuante, na sua Igreja, por meio do Sacramento da Ordem, ao qual chama os seus escolhidos, para consagrarem a vida ao louvor da glória de Deus e ao serviço salvífico dos irmãos e irmãs. Não esqueçamos o momento privilegiado de encontro com Cristo na oração pessoal, quando dialogamos diretamente com Ele. Este encontro também pode ser enriquecido pela leitura e meditação de bons livros. E temos tantos! As biografias e obras dos Santos, por exemplo, nos testemunham encontros pessoais com Cristo, que determinaram sua atuação na vida de cada um deles. Encontramos Cristo, ainda mais fortemente, no serviço aos irmãos, sobretudo aos menores, aos mais pobres, doentes ou pecadores: “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40). Em nosso tempo, Cristo também se deixa encontrar através da mídia. Quando um meio de comunicação é empregado para transmitir a verdade, fomentar a justiça e divulgar a autêntica beleza, ele está revelando Cristo ao mundo, pois Ele é tudo isso... e muito mais. Finalmente, encontramos Cristo no sofrimento e na cruz de cada dia: nos afazeres da mãe de família, no trabalho do pai para proporcionar o sustento da esposa e dos filhos, nos estudos das crianças e jovens, na honrada prática profissional de intelectuais e artistas, no desempenho do ministério sacerdotal, a cruz sempre se nos apresenta, de uma ou de outra forma. Quando colocamos nossas cruzes pessoais na Cruz do próprio Cristo, não mais esmagado, porém glorioso, Ele as assume e nos auxilia, dando-nos a força redentora e santificadora de seu próprio sangue. Cristo veio a nós, exatamente, para que o pudéssemos encontrar. Por isso, jamais nos haveremos de furtar ao seu chamado. Seremos guiados pelo apelo que lança a cada um de nós. Pode ser luminoso como uma estrela ou discreto como uma tarefa cotidiana: o importante é que a nossa resposta determinará o rumo de nossas vidas, um rumo novo, um caminho diferente...
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