Coluna: D. Eusébio Scheid




São Sebastião

Esta semana, celebramos a Festa de nosso Padroeiro, São Sebastião, o grande mártir, que dá o seu nome à nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Daí a grande Procissão, que fazemos em 20 de janeiro de cada ano, sempre muito frequentada, apesar do calor ou, às vezes, da intempérie... Nada disso afasta o povo da homenagem ao seu querido Santo, Protetor e Modelo de santidade.

Partindo da Igreja de São Sebastião, Paróquia dirigida pelos Padres Capuchinhos, o cortejo segue até à Catedral Metropolitana. No meio do trajeto, fazemos uma parada à porta do Hospital do Câncer, para rezar pelos que ali se encontram, imagens do Cristo sofredor, assim como também foi o glorioso mártir. Finalmente, em frente à Catedral, concentra-se a grande multidão dos fiéis, para participar da Santa Missa Solene de encerramento.

São Sebastião nasceu em Narbonne, na França mas, ainda pequeno, mudou-se com a família para a cidade de Milão. Séculos depois, um dos Bispos daquela Diocese, o grande Santo Ambrósio, nos deixou a mais completa biografia do Santo. Ele nos diz que a família de Sebastião já era convertida ao Cristianismo, quando chegou a Milão. Naquela cidade, o jovenzinho passou a se interessar pelo serviço das armas. Fazia parte da tradição romana distinguir-se na carreira militar. Provavelmente, porém, Milão lhe parecia muito calma, e ele procurava algo mais desafiador. 

Assim foi que Sebastião, já tendo se decidido pela própria vocação, partiu para Roma. Graças ao seu profissionalismo e retidão, o Santo foi subindo na hierarquia militar, chegando a comandante de uma Legião do Exército Romano. Naquele tempo, o Império era governado por Diocleciano, um dos mais covardes e cruéis imperadores. Sebastião era cristão e, justamente por isso, demonstrava ser um soldado competente, corajoso e fiel ao seu comandante.

Entretanto, não poderia compactuar com a perseguição e o extermínio de seus irmãos na fé. Pelo contrário, procurava ajudar os que estavam na cadeia e os que eram destinados ao suplício, jogados às feras, dentro da grande arena do Coliseu. Ele mesmo teve que refugiar-se nas catacumbas, várias vezes.

A situação tornou-se perigosa para Sebastião, sobretudo, quando ele foi acusado, por um de seus próprios colegas, de professar a fé cristã. Naturalmente, isso foi um choque para o imperador, pelo que lhe parecia ser uma contradição entre o desempenho correto e fiel do soldado, e a fama de traição, atribuída aos cristãos. Sebastião foi condenado ao suplício das flechas. Os arqueiros atiravam-nas bem devagar, diz a tradição, para que a morte fosse lenta, pela perda gradativa de sangue, o que deve ter se prolongado por horas a fio.

Uma cristã chamada Irene, hoje venerada como Santa, encontrou o corpo do amigo, preso numa árvore, e considerou-o morto. Com o auxílio de outros cristãos, retirou-o e levou-o para a sua casa, a fim de enterrá-lo condignamente. Ao perceber, entretanto, um sinal de respiração, passou a tratar-lhe as feridas, até que Sebastião recuperou totalmente a saúde.

Já curado, tomou a iniciativa de se apresentar ao seu chefe, o terrível perseguidor Diocleciano. Este ficou tremendamente assustado, acreditando estar diante do fantasma do comandante morto. Ao contrário, pela força do amor e pelo desejo de evangelizar, Sebastião se refizera. Enfrentou o imperador, arguiu-o sobre o suplício que lhe tinha infligido, sendo ele inocente de qualquer traição, e procurou mostrar-lhe o caminho da verdade. Evidentemente, o imperador queria ouvir tudo, menos isso. E mandou flagelá-lo, duramente. Com o corpo transformado numa chaga viva, Sebastião, desta vez, não resistiu aos ferimentos e morreu mártir, testemunho vivo de seu amor à Verdade.

A história do Rio de Janeiro está permeada pelo heroísmo da figura de São Sebastião. Em 1565, a Cidade foi fundada, também, para empreender a expulsão dos franceses, que haviam invadido a Baía de Guanabara. Algum tempo depois, ocorreu a “Batalha das Canoas”, num local próximo à Enseada de Botafogo, na qual guerrearam os portugueses e seus aliados, os indígenas tupis, contra os franceses, que contavam com o auxílio de um grande contingente de indígenas tamoios. A inferioridade de homens e canoas, em relação aos inimigos, tornou a vitória dos portugueses memorável. Conta-se que um soldado valente fora visto, pulando de canoa em canoa, e incitando os combatentes à vitória. Esse personagem transcendente foi considerado o próprio São Sebastião, que participara da batalha para defender a sua Cidade.  
É essa uma das razões da grande devoção ao nosso Padroeiro, invocado como protetor de nosso povo e defensor da paz, hoje tão ameaçada entre nós. São Sebastião também é modelo de fé, devotamento ao trabalho e dignidade de princípios. Contando com sua constante intercessão e empenhando-nos em seguir seu exemplo, obteremos a instauração da ordem e o desenvolvimento do progresso, conforme prega a Bandeira Nacional. Sobretudo, encontraremos a via da paz e da concórdia, pela integração entre as diversas camadas sociais, de que se compõe a nossa população.

Ousamos sonhar, ainda mais, com a fraternidade. É fato que somos todos irmãos, pois Cristo assim nos constituiu. Mas, para assumir esta realidade, temos que viver como irmãos. Aqui, novamente, vale-nos o exemplo do querido Mártir Sebastião, que arriscou a vida, protegendo os irmãos, até derramar o sangue pela fé, como tantos deles.

Aprendamos com ele a ser testemunhas vivas e presenças do Cristo em nossa Cidade. Empenhemos tudo o que somos e o que temos na legítima defesa da vida e dos ideais, ensinados e vividos por Nosso Senhor. Ele nos deu a graça de sermos católicos e, portanto, contarmos com todo o auxílio sobrenatural que nos oferece, através da sua Igreja. Há que usufruir desta riqueza para fecundar o nosso esforço de transformação da nossa Cidade, principalmente, pela formação das novas gerações, dentro dos autênticos valores.

Nossa cidade merece o título de “Maravilhosa”, não somente pela extraordinária beleza natural, mas pela afabilidade dos seus cidadãos. Trabalhemos para que a justiça se instaure, a verdade triunfe e o bem prevaleça. Assim, permaneceremos fiéis àquilo que temos de melhor. É isto o que desejamos para a nossa querida Cidade, hoje e sempre.


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