Coluna: D. Eusébio Scheid

A cruz no mistério Pascal de Cristo

Nos primórdios do Cristianismo, a cruz era um objeto de suplício que, além de terrivelmente doloroso, representava um achincalhamento da pessoa condenada. Por isso, as primeiras comunidades assumiam como símbolo de Cristo o Peixe, por causa da palavra grega ictus, que significa “peixe”, e cujas letras podem ser interpretadas como as iniciais da expressão “Jesus Cristo, filho de Deus Salvador”. Outro símbolo era o Cordeiro imolado, em referência ao cordeiro pascal judaico.

A Cruz permaneceu pouco lembrada até o século IV, quando o Imperador romano Constantino, convertido ao Cristianismo, teria sonhado com uma cruz, na qual estava escrita em latim a expressão: In hoc signo vinces (Neste sinal vencerás). Na manhã seguinte, mandou que a cruz fosse pintada nos escudos de seus soldados, antes da batalha contra o Imperador Maxêncio, na qual ambos disputariam o controle da metade ocidental do Império Romano. Constantino atribuiu ao poder da cruz sua esmagadora vitória sobre o inimigo.

Daí em diante, ela tornou-se o sinal característico dos cristãos, símbolo de Cristo vencedor do pecado e da morte, pelo seu Mistério Pascal. Entretanto, não se pode fazer dessa vitória um mero triunfalismo, pois ela custou até à última gota do sangue inocente de Nosso Senhor.

A Páscoa de Cristo é revivida pela celebração dos Sacramentos, sobretudo o Batismo e a Eucaristia, e pela vivência do Mistério da Cruz, dentro da vida ascética e da experiência de união mística com Deus. Pelo Batismo, fomos con+formados, isto é, tornados conformes, parecidos com o Cristo. Ele está hoje glorioso à direita do Pai, mas guarda, também, as marcas da crucifixão, nas chagas de seus membros e do lado, através do qual o Coração foi transpassado pela lança e pelo sofrimento.

O Batismo nos torna filhos de Deus, portanto, destinados à perfeição ou, pelo menos, tendentes a ela. Através deste Sacramento, a vida nova em Cristo nos é concedida, como que em estado latente, que nos compete colocar em ato, com o auxílio da graça divina. Esta tensão à perfeição orienta-nos para a plenitude, à qual se chega pela caridade mais sofrida, a caridade da Cruz. “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com Ele na sua morte pelo Batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova” (Rm 6,3-4).

Assim é. Somos marcados pela Cruz, assinalados, impregnados por ela, como se a Cruz estivesse cunhada dentro da nossa pessoa, ontologicamente, isto é, no fundo do nosso ser. E quanto mais a externamos na dinâmica do nosso agir, colocando um amor como que extraordinário no que fazemos, como sacrifício espelhado na Cruz, mais nos tornamos, autenticamente, cristãos católicos.

Entretanto, ainda hoje, muitos sentem aversão pela Cruz, devido ao sofrimento que ela nos recorda. Os próprios Apóstolos, a começar por Pedro, sucumbiram à tendência de rejeitar a perspectiva da crucifixão e morte de Cristo: “Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não te acontecerá!” (Mt 16,22). Seria um escândalo para eles aceitar a humilhação d’Aquele que tinham reconhecido como o Messias.

Cristo, então, recrimina Pedro e exorta os Apóstolos a uma mudança de mentalidade. Mais do que isto, a compreensão do Mistério da Cruz vai exigir deles uma profunda conversão: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24), ensina o Senhor, como que a dizer: Eu a carrego e vocês me seguem.

Formam-se, assim, as gerações de cristãos. Caminham atrás de seu único Mestre, que carrega o peso daquela Cruz ignominiosa, na qual estão pregados os pecados da humanidade. Ele segue na frente, abrindo caminho para que ninguém desfaleça nas subidas e descidas da estrada da vida.

Os Apóstolos tomaram as próprias cruzes e morreram mártires. Sabemos pelos primeiros historiadores, como Eusébio de Cesaréia, que Pedro teria pedido para ser crucificado de cabeça para baixo, porque se sentia indigno de estar na mesma posição em que tinha morrido o seu Mestre. Quanta transformação naquele homem que, iludido pela presunção da própria força, acabara negando conhecer Jesus, quando chegou a hora difícil e contraditória da Paixão!

Saulo de Tarso, convertido e batizado Paulo, foi educado por Jesus, pessoalmente, em um encontro místico, seguido de 3 anos de contato com o Senhor, através da oração, da ascese e da meditação. O próprio Apóstolo diz: “Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11-12). E completa: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos - força de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,23-24).

Depois da maldição de ter bebido o sangue de Abel, e de tantos profetas, mortos por causa da pregação da verdade, a terra foi abençoada pelo sangue de Cristo. A afirmação blasfema dos judeus, incitando Pilatos à condenação de Jesus  - “Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!” (Mt 27,25) - transformou-se em bênção.

Rezo, muitas vezes, pedindo que o seu sangue caia sobre mim e sobre meus filhos. Os “filhos” não são apenas aqueles que a natureza pode gerar, mas as pessoas que nos são confiadas, as obras que realizamos pelo bem público e, até mesmo, as falhas às quais a fragilidade humana nos expõe. Que seu sangue caia sobre tudo isto. Contemplando o Cristo pendente da Cruz, gotejando seu sangue sobre a terra, pedimos: “Lavai-me, totalmente, de minha falta, e purificai-me de meu pecado” (Sl 50[51],4).

Quando vou ao Vaticano e me hospedo na Casa Santa Marta, onde costumam ficar os Cardeais, palmilho aquele chão em silêncio, e medito: “Tira as sandálias, porque este chão é sagrado” (Ex 3,5). Ele está regado pelo sangue dos mártires, que eram vitimados pelos algozes romanos, naquele mesmo local.

Assim, todo lugar onde se encontra a Cruz de Cristo é sacralizado, não pela relíquia em si, mas pelo próprio Crucificado, cuja Morte e Ressurreição ela representa. Deixemos que o sangue de Cristo abençoe nossos lugares públicos e purifique as ações que lá se realizam, para que estejam sempre voltadas para a glória de Deus e o bem comum.


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