Foi assim que o baiano-carioca Dorival Caymmi cantou para a Senhora Dona das Águas:
Apesar de receber homenagem em diferentes épocas do ano, nas datas dedicadas às Iabás (Orixás Femininos) e na virada do ano (no dia 31 de dezembro), em praticamente todas as cidades costeiras do Brasil, independentemente da fé religiosa de cada participante, o dia 2 de fevereiro é louvado como o “dia de Iemanjá”. E essa louvação, como um “presente para Iemanjá”, surgiu na Bahia. É uma idéia que teria vindo de um pescador, para reviver a festa do Rio Vermelho, devido a problemas de “sincretismo” que a igreja católica não admitia(2) e (3). Os pescadores, então, decidiram dar um presente à Mãe d´Àgua, no dia 2 de fevereiro. Mas precisavam da ajuda de alguém que conhecesse bem o culto da Mãe d’Água. Os pescadores acorreram a Júlia Bogun, Mãe-de-Santo do candomblé. Ela explicou como deveria ser um presente para Iemanjá, de acordo com o preceito africano. Pediu que fossem comprados um balaio grande, uma talha de barro, flores e fitas nas cores do Orixá: branco e azul. O presente foi levado para a Casa do Peso e depois encaminhado ao mar. Foi assim que a partir da década de 1930 houve a ascensão do Presente da Mãe d’Água que só recebeu a denominação de Festa de Iemanjá na década de 1960 e se espraiou por todo o Brasil.
Iemanjá é uma dentre as divindades do panteão africano: Iyemanjá, Yemanjá, Yemaya, Iemoja, Iemanjá ou Yemoja. Seu nome deriva da expressão na língua Iorubá "Yèyé omo ejá" ("Mãe cujos filhos são peixes"). Em sua origem africana, Iemanjá é representada como mulher adulta, sendo filha de Olóòkun - Orixá do Mar. Yemoja é Orixá da nação Egbá, na Nigéria, onde existe um rio com o mesmo. É Orixá que representa a criação efetivada, sendo responsável pela fertilidade, fecundidade, abundância. Seu culto tem relevo nas religiões de matrizes africanas, na medida em que a iniciação dos/as adeptos/as (Bori) é dedicada a esse Orixá. É assim que ela é a Mãe de todos os Orixás. Conforme Pierre Verger, seu culto inicialmente era feito na região entre Ifé e Ibadan, "onde existe ainda o rio Yemoja. As guerras entre nações Yorubás levaram os Egbá a emigrar na direção oeste, para Abeokutá, no início do século XIX, onde passou a ser cultuada em outro rio... O principal templo de Iemanjá está localizado em Ibará, um bairro de Abeukutá. Os fiéis desta divindade vão todos os anos buscar a água sagrada para lavar os axés, numa fonte de um dos afluentes do rio Ògùn, o rio Lakaxa. Essa água é recolhida em jarras, transportada numa procissão seguida por pessoas que carregam esculturas de madeira (ère) e um conjunto de tambores. O cortejo na volta, vai saudar as pessoas importantes do bairro, começando por Olúbàrà, o rei de Ibará."(5)
Quando comparamos as histórias contadas oralmente, pode-se constatar que os métodos utilizados foram praticamente os mesmos em lugares muitas vezes muito distantes entre si. O sincretismo foi um dos modos que o povo negro encontrou para se proteger e poder cultuar seus Orixás.
Na “Santeria” cubana ou “La Regla Lucumí”, que funde crenças católicas com a religião tradicional africana, essa ligação de Orixás e Santos chega a se confundir, a ponto de os fiéis dizerem se tratar do mesmo Santo, tanto para a Santeria, como para a igreja católica. Nesse caso, Yemaya vem a ser a representação da "Virgem de la Regla" padroeira dos cubanos ou a Black Madonna, a Nossa Senhora negra homenageada em vários países.(7) No Brasil, Iemanjá é cultuada de Norte a Sul, de formas diferentes. É importante o exemplo do Nordeste onde a religião dos Egbá, também chamada Nagô-Egbá, Xangô do Recife ou Xangô do Nordeste, tem como Orixá principal Iemanjá, por ser a mãe de Xangô, como patrono da nação. Assim teve origem o Maracatu, onde a dança, executada com as Calungas tem caráter religioso e é obrigatória na porta das igrejas, representando um "agrado" a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Quando o Maracatu visita um terreiro homenageia os Orixás. A associação que se faz de Iemanjá com Dona Janaína (branca), sereia de tantas lendas e histórias, tem origem nas mesmas referências da Bahia que deram origem às homenagens no dia 2 de fevereiro. Deve-se observar que o Orixá Iemanjá não tem qualquer referência com a volúpia das sereias das lendas européias ou mesmo com Iara (ou Mãe-D'água), figura mitológica difundida entre os indígenas. Sereias têm a origem nos mitos e lendas ocidentais cuja aparência nada tem a ver com Iemanjá cultuada em qualquer um dos países da Diáspora Africana. Nos vários estados brasileiros, o dia 2 de fevereiro homenageia Nossa Senhora dos Navegantes (RS); Nossa Senhora da Candelária (madroeira de Indaiatuba – SP); Nossa Senhora das Candeias; Nossa Senhora da Luz; Nossa Senhora da Purificação;(8) Nossa Senhora d’Ajuda (Itaporanga – SE); Santa Maria Madalena (madroeira União dos Palmares – AL); Nossa Senhora do Bom Conselho (madroeira de Arapiraca - AL) e, possivelmente, ainda mais... São conhecidas e concorridas as procissões e entregas de presentes a Iemanjá, em Salvador – BA, no bairro do Rio Vermelho(9); no Rio de Janeiro: o presente a Iemanjá da Casa de Cultura Estrela d´Oyá; o presente e a procissão organizada pela IRMAFRO (Irmandade de Cultura e Religiões Afro-Brasileira do Rio de Janeiro) em Sepetiba, bairro do Rio de Janeiro – RJ, desde 1994. A procissão de Sepetiba, iniciada por Paulo de Oxossi, é, atualmente, coordenada por Pai Renato de Obaluayê. Mesmo antes de falecer, em 2003, Paulo de Oxossi havia passado a condução da IRMAFRO a Pai Renato de Obaluayê, que deu continuidade ao Presente e à Procissão em louvor a Iemanjá, com a colaboração de Babalorixás e Yalorixás (do Rio de Janeiro e de outras cidades), com reconhecido destaque para Mãe Miriam d´Oyá. Ainda no Rio de Janeiro são conhecidas: a carreata até a Praia de Copacabana, por iniciativa do Mercadão de Madureira e a celebração do Barco de Iemanjá, por iniciativa da Congregação Espírita Umbandista do Brasil – CEUB.
__________ * Jurema Oliveira - também conhecida como Egbomi Jurema D'Oxum, por sua iniciação ao culto de religião de matriz africana – é da cidade de São Paulo (SP), onde nasceu, em 1948. Atuou na Umbanda por dez anos, após o que fez sua iniciação no Candomblé (1978). Na linha da ancestralidade, é filha do Babalorixá Adel de Logun Edé, neta de João da Oxum e bisneta de Vavá de Bessem. O falecimento de seu Babalorixá (1981) fez com que Jurema D´Oxum fizesse obrigação com a Iyalorixá Mãe Nitinha da Oxum, no Rio de Janeiro (1982) e OduIjê (1986). Desde 1989 os Orixás foram “morar” com Egbomi Jurema, em sua casa, em São Paulo. Como iniciada e formada, Egbomi Jurema faz todas as obrigações internamente e atende as pessoas com consultas de Jogo de Búzios. Desde 1996, vem se dedicando à pesquisa das religiões afro-brasileiras e da diáspora africana e atuando na divulgação desses conhecimentos através da Internet http://orixas.sites.uol.com.br/index1.html, http://pt.wikipedia.org/wiki/Candomble, dentre outros. ** Ana Maria Felippe – carioca; pós-graduada em Filosofia da Ciência (UFRJ), Coordenadora de Memorial Lélia Gonzalez e responsável pela seção “Afrodescendentes”, em “Cultura e Religião” de Amai-vos. Contato: anafelippe@leliagonzalez.org.br __________ (1) Música “Dois de Fevereiro”, de Dorival Caymmi (2) Antonietta de Aguiar Nunes. Historiógrafa do Arquivo Público do Estado e Professora Assistente de História da Educação na FACED/UFBa. Disponível em <http://www.faced.ufba.br/~dept02/calendario/yemanja.html> Acesso em: 31 jan. 2010. (3) COUTO, Edilece S. (Universidade Federal da Bahia). Festejar os Santos em Salvador: Regras Eclesiásticas e Desobediências Leigas (1850-1930). Disponível em <http://www.uesb.br/anpuhba/artigos/anpuh_II/edilece_souza_couto.pdf> Acesso em: 31 jna. 2010. (4) PESSOA DE BARROS, J. F. . O Banquete do Rei - Olubajé. Uma introdução à música sacra afro-brasileira. 1. ed. Rio de Janeiro: UERJ, INTERCON, 1999. 184 p.; p. 116 (5) VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás. Bahia: Corrupio, 2002. 295 p. Disponível em <http://www.scribd.com/doc/6898406/Pierre-Verger-Os-Orixas-pdf#> Acesso em: 31 jan. 2010. Para muito mais sobre Pierre Verger: http://www.pierreverger.org / (6) idem, ibidem. (7) Disponível em <http://en.wikipedia.org/wiki/Black_Madonna> Acesso em: 31 jan. 2010 (8) Para saber mais, vale visitar o conteúdo disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Nossa_Senhora_da_Luz> Acesso em: 31 jan. 2010 (9) Ao contrário do sincretismo, a festa do dia 2 de fevereiro dedicado à N. Sra. das Candeias, na liturgia católica, é a única grande festa religiosa baiana que não tem origem no catolicismo e sim no candomblé. __________ Mais Referências: Mãe Beata de Yemonjá, em <http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/maebeata/dados.pdf> Acesso em 31 jan. 2010 GONZALEZ, Lélia. Festas Populares no Brasil. Rio de Janeiro: Index. 1987. LIMA, Marta Valéria de e MENEZES, Nilza. Pintando o Santo. (Professora do Departamento de História da UFRO e Centro de Documentação Histórica do TJ/RO). Disponível em <http://www.primeiraversao.unir.br/artigo110.html> Acesso em 31 jan. 2010 PINHEIRO, Giovanna Soalheiro. As Heranças Africanas na Narrativa de Mãe Beata de Yemonjá - Mitologia, autoria, oralidade. Disponível em <http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/maebeata/maebeatacritica01.pdf> Acesso em 31 jan. 2010 Foto de Fábio Caffé. Procissão em Sepetiba, Rio de Janeiro, 2009. Disponível em <http://www.flickr.com/photos/fabiocaffe/3812916175/> Acesso em 31 jan. 2010 |
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Autor: Jurema Oliveira - Egbomi Jurema D'Oxum * e Ana Maria Felippe** |
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