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São José, pai de Jesus

Gilda Carvalho
gilda@puc-rio.br

Certa vez, assistindo um filme sobre a vida de Jesus, deparei-me com uma cena inédita para mim.  Nela, Jesus chorava pela morte de seu pai terreno e pedia a Deus  que ressuscitasse José.  Uma cena absolutamente normal  (qual filho que vive uma verdadeira relação de amor com seu pai e que, ao perdê-lo, não choraria e não teria a tentação de pedir a Deus o milagre da reconstituição da vida daquele ser amado?), não fosse a relação especial entre Jesus e José.

Sabe-se que José era noivo de Maria quando ela concebeu Jesus em seu ventre por obra do Espírito de Deus.  Justo, não repudiou a noiva e acolheu a ela e ao filho que criou como se fora seu.  Sabe-se, também, que tal como Maria, recebeu a visita de um anjo que lhe avisou sobre a gravidez da Virgem e dos perigos que cercavam o Menino quando Herodes soube de seu nascimento. E, por fim, que se espantou e ralhou com Jesus, já adolescente, que falava aos doutores no Templo de Jerusalém. Isso é o que nos apresentam os Evangelhos. A eles, a tradição da Igreja acrescenta que era um homem já entrado em anos e cuidador da família de Nazaré.  De resto, o silêncio sobre o modo de vida daquela mesma família e os detalhes sobre a morte do patriarca e do que teria ocorrido após a mesma.

Voltemos, porém, ao filme.  O pedido desesperado do filho que perde o seu pai não é apresentado à toa. Naquela história, pai e filho aparecem em longas conversas sobre a concepção e a sua origem divina.  São mostrados como companheiros na vida e no trabalho, partilhando com Maria o mistério que aquela família trazia consigo. Portanto, a ficção quebra o silêncio que cerca os dias da vida de Jesus em Nazaré e mostra José atuante no processo de discernimento vivido pelo homem Jesus para o encontro de sua Missão definitiva.

Jesus recebeu de José a educação hebraica, a tradição da religião de seu povo e conhecia bastante bem suas tradições.  Portanto, o “pai terreno” do Messias cumpriu com diligência a sua própria missão.  Mas, creio que tenha ido além: cativou o coração do Menino de tal forma, que, já em sua vida pública, quando precisava explicar o amor de Deus pela humanidade, Jesus não se furtava de compará-lo ao amor de um pai por seus filhos.  Ora, se Jesus assim o sabia, era porque ele mesmo tinha a experiência de ter sido imensamente amado por seu pai.  Em Jesus, Javé deixava de ser o Senhor dos Exércitos para ser apenas Pai – tal como um dia chamara José.

A última menção a José nos evangelhos  ocorre no episódio do encontro de Jesus no Templo, onde falava aos doutores, ainda com seus treze anos.  O texto termina com uma menção ao desenvolvimento do ainda bem jovem Jesus: ele crescia em estatura, sabedoria e graça.  Esta última, certamente dada por sua condição divina.  As outras duas, contudo, fruto do trabalho contínuo de seus pais que lhe protegiam, cuidavam e ensinavam. De José, o filho de Deus aprendeu a profissão, os valores, as leis civis e a tradição religiosa.  Dele também recebeu o alimento e o abrigo físico.  Ora, se a graça do Pai do céu permitiu a manifestação de sua divindade, a figura do pai terreno constituiu a sua humanidade.

Não tenho dúvidas que José não era tão silencioso como a história o fez.  Era o chefe da família de Nazaré, o cuidador de dois seres especiais, que com ele partilhavam do mistério da presença de Deus no seu dia-a-dia.  Portanto, o santo pai terreno de Jesus é muito maior e tem muito mais a nos dizer que a imagem envelhecida e coadjuvante que estamos acostumados a ver.  José nos fala sobre a atenção ao outro, sobre a confiança para com os amados, sobre a fidelidade aos sonhos e a Deus, sobre a vivência de um amor infinito à família que constituiu e ao seu Senhor. Ensinamentos de pai, que filho nenhum pode esquecer.


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