Jesus Cristo

O Anúncio do Anjo a Maria: As três primeiras palavras do anúncio do anjo Gabriel a Maria

O anjo entrou onde ela estava e lhe disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”

Alegra-te!

A primeira palavra pronunciada pelo anjo não é uma saudação convencional. É um convite à alegria, convite feito na forma imperativa. Ao anunciar a toda a humanidade, representada por Maria, a encarnação do Verbo para a nossa salvação, Deus nos faz um convite à alegria plena, ele deseja que acolhamos com essa alegria, que só ele nos pode dar, o dom da salvação que ele nos oferece.         

Lucas, "o evangelista da alegria", enfatiza ao longo de todo o seu evangelho a alegria de Deus (cf. 15,5.7.10; 23,24) e a alegria dos homens (cf. 10,17; 19,37; 24,41.52). A alegria messiânica é particularmente enfatizada nos dois primeiros capítulos (cf. 1,14.44.47.58 e 68; 2,10.20.28 e 38). Também no livro dos Atos, sobretudo nos primeiros capítulos, é sublinhado o clima de alegria em que vive a Igreja (cf. 2,46; 5,41; 8,8.39; 11,23; 13,48.52; 15,31).

A saudação "Alegra-te!" aparece aproximadamente 80 vezes na tradução grega do AT, num quarto das quais a alegria é causada por um ato, um anúncio ou uma promessa de salvação de Deus. Em quatro dessas passagens (Zc 9,9-10; Sf 3,14-17; Jl 2,21-22 e Lm 4,21), a tradução dos Setenta usa o mesmo verbo usado por Lucas para proclamar a alegria messiânica da presença de Deus que vem salvar seu povo. Na saudação "Alegra-te!" ecoa o júbilo pela chegada da salvação proclamada pelos profetas Sofonias: "Alegra-te e exulta de todo coração, filha de Jerusalém!" (3,14); Joel: "Não temas, terra, exulta e alegra-te, porque o Senhor vai fazer grandes coisas" (2,21); Zacarias: "Exulta muito, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti..." (9,9).

Convidada pessoalmente a alegrar-se, Maria pode ser vista também como a “Filha de Sião”, como representante e portadora de alegria de todo o Povo de Deus pela vinda da salvação anunciada pelos profetas. O que é dito a ela é válido para todo o Povo de Deus, como aquilo que fora dito ao sacerdote  Zacarias (1,14) e o que será dito aos pastores (2,10). À diferença da Filha de Sião, porém, Maria aparece não só como receptiva da ação de Deus, mas acolhe e realiza sua vocação-missão participando ativamente do desígnio salvífico de Deus.

Cheia de graça

Antes de explicitar o que Deus vai operar nela, o anjo anuncia a Maria, na segunda palavra da saudação, o que nela já operou: foi plenificada com a sua graça. O que Deus já fez nela e o que vai continuar a fazer é a razão primeira e última da verdadeira alegria para a qual Maria é convidada. Deus derramou sobre ela seu amor benevolente e totalmente gratuito, tomando-a assim "a favorecida", "a agraciada" de Deus. E Deus derramou sobre ela sua graça porque a amou primeiro, com um amor absolutamente gratuito. Essa graça é tão fundamental e tão significativa, que a expressão "cheia de graça" é usada no lugar do nome próprio. Maria é nomeada pelo modo como é vista por Deus. A forma em que é usado o verbo – o particípio perfeito passivo – quer significar que o efeito da ação operada por Deus em Maria continua. Ela é pessoalmente, de maneira singular, única e permanente, a "agraciada" de Deus.

É impossível traduzir toda a riqueza que têm no texto original as duas primeiras palavras da saudação do anjo: Khaire, kekharitomene. Elas estão ligadas entre si não só pelo significado, mas também pelo som, pois o evangelista recorre a uma aliteração, a um "jogo de palavras". O conteúdo das duas palavras poderia ser parafraseado assim: "Rejubila-te por seres a cheia-de-graça". Ou, numa paráfrase mais longa: "Que o júbilo te invada com o gozo da graça plena, perfeita, sem reserva alguma, com que foste cumulada".

Na Bíblia, graça, vocação e missão estão sempre relacionadas entre si. Maria foi totalmente agraciada por Deus para acolher e realizar a vocação-missão de ser a mãe do Messias. Nem ela própria, porém, conhecia toda a profundidade do seu mistério. De alguma maneira, ela "sentia" a presença do amor singular e único de Deus nela; e a experiência da presença desse amor a fazia sentir-se "diferente", ainda que externamente fosse uma adolescente como as outras. Nessa experiência de sua eleição e vocação para ser toda de Deus está a razão do que poderíamos chamar a solidão de Maria.

Detenhamo-nos na contemplação da graça com que foi agraciada a Virgem de Nazaré, contemplemos sua beleza aos olhos de Deus e a relação pessoal que Deus tem com ela, tão acentuada nas primeiras palavras do anjo. Podemos fazê-lo repetindo e saboreando essas palavras ditas pelo mensageiro de Deus: "Alegra-te, rejubila, cheia de graça!" Depois de alegrar-nos com a alegria de Maria, inteiramente provinda de Deus, peçamos que nos seja dada também a nós a graça de realizar na alegria a missão para a qual fomos chamados. Podemos ainda enriquecer e iluminar nossa oração e nosso louvor contemplando os "privilégios" que "os olhos da fé" da Igreja foram descobrindo em Maria ao longo dos séculos; privilégios já contidos, em germe, nas primeiras palavras da saudação do anjo.

O Senhor está contigo

A expressão "o Senhor está contigo" pertence ao coração da teologia da aliança, ela aparece repetidas vezes nos relatos de vocação do Antigo Testamento. Com ela é prometida a presença e a proteção de Deus aos chamados por ele para uma missão particular na história da salvação. Essa promessa foi feita a Isaac (Gn 26,3.24), a Jacó (Gn 28,15), a José (Gn 39, 2.3.21.23), a Moisés (Ex 3,11-12), a Josué (Js 1,5), a Gedeão (Jz 6,12.16), a Jeremias (Jr 1,8.19; 15,20). A mesma promessa é feita agora à virgem de Nazaré, que é vista assim em continuidade com as grandes figuras da história de Israel.

O Deus da Bíblia não é em primeiro lugar o "Deus sobre nós" (pura transcendência), nem o "Deus em nós" (pura imanência), nem o "Deus diante de nós" (pura utopia). É o Deus inserido na nossa história, na nossa vida. "Chegada a plenitude dos tempos", o Verbo eterno de Deus tornou-se, no seio de Maria, o Verbo encarnado; tornou-se Emmanuel, isto é, "Deus-conosco", para sempre.

Que Deus se tenha encarnado verdadeiramente na nossa história assumindo as limitações da nossa vida humana; que tenha vindo ao nosso encontro descendo até os abismos de nossa história, experimentando na sua carne e na sua alma nossa pobreza e nossa fragilidade, nosso abandono e nossa solidão, nossa agonia e nossa morte, continua sendo um escândalo e uma loucura para os homens de hoje. A única explicação desse "escândalo" e dessa "loucura" está no manikós eros, no “amor louco” de Deus por nós. Não há outra explicação. Só um "amor louco" pode fazer tais loucuras.

* Este texto foi retirado do Livro "Assumiu a nossa Carne e acampou entre nós", do Pe Álvaro Barreiro, SJ - Edições Loyola. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo telefone: (xx21) 2233-4295 ou 2263-4280. Ou pelo endereço: Av. Presidente Vargas, 502/Sala 1701 - Rio de Janeiro.

Leia também:

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- Encarnação e o Nascimento de Jesus Cristo: A Encarnação como "condescendência" divina 

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