Coluna: D. Eusébio Scheid




O homem: imagem e semelhança de Deus

 

D. Eusébio Oscar Scheid

Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

Para valutar devidamente a nossa missão no mundo e na história há que remontar à nossa primigênia origem. É a partir dali que surgem os nossos compromissos, os postulados da ética e da moral que nos incumbem.

Sabemos do livro do Gênesis, que fomos criados por Deus à sua imagem e semelhança como que por um “conselho” de sua infinita sabedoria: “Façamos (no plural) o homem (a raça humana) à nossa imagem e segundo a nossa semelhança” (Gênesis, 1,26). É, portanto, essa imagem e semelhança o nosso primeiro e mais importante titulo, o de maior honra e nobreza, que acarreta os demais títulos que dão origem ao dever de nosso comportamento defronte a todo o mundo criado. Em conseqüência disso, no plano de Deus, concebido desde sempre, esse mesmo ser humano que somos, é chamado a ser filho e filha de Deus.

Queremos perguntar-nos, pois, em que consiste, concretamente, no homem e na mulher, a semelhança de Deus, essa imagem, onde e em que se observa, onde se vê que o homem é a imagem e semelhança de Deus?

Esse reflexo de Deus em nós, dizem os livros sacros mais tarde: “Ele o fez um pouco menor do que os anjos; o fez um pouco menor do que um ser divino”. Esse reflexo e a própria glória de Deus. A glória é o espelho, a manifestação reluzente dessa semelhança de Deus no ser humano. Em que consiste, afinal? Em primeiro lugar acentuaria a liberdade, a faculdade de escolher. Somos chamados e inclinados a escolher o bem, com a capacidade de poder escolher também o mal. Essa liberdade faz com que tenhamos o amor à verdade, busquemos a verdade, como aquilo que constrói o ser humano e que faz essa imagem aparecer mais claramente.

Também, logo no início, Deus dá ao ser humano o domínio, o senhorio sobre todas as coisas criadas. É dominador de todas as coisas criadas e não depende, não pode depender de nenhuma delas. Todas as coisas que estão sob o domínio humano, desta forma, servem à utilização, à posse, à evolução e melhoria do próprio mundo criado. Jamais se destinam à destruição.

Outra característica clara do ser humano como imagem de Deus, é a sua razão, a sua inteligência e muito especialmente os seus sentimentos. A nobreza e a beleza dos sentimentos! É próprio da inteligência ordenar as coisas, harmonizar o mundo para produzir mais coisas dentro da ordem. O ser humano é o grande pontífice do universo. Assim,  falamos hoje do valor, do apreço da ecologia, valorizar as coisas pequenas e grandes, saber pensar, saber falar. Outra estampa de Deus em nós é a familiaridade com Ele. O homem aparece, logo no início, como sendo familiar com Deus. É uma imagem poética que se encontra no Gênesis: “Deus passeava ao sabor da brisa da tarde com o ser humano”. Esse estar do lado de Deus ou Deus estar próximo, quer dizer, Deus está até dentro do homem. Isso faz com que essa familiaridade seja um dos marcos mais fortes da semelhança. Quando chegamos ao ponto de dizer que esse homem foi chamado a ser amigo de Deus, temos, certamente, um dos pontos altos de certeza dessa semelhança, dessa parecença com Deus.

Além disso, somos seres sociais, criados à imagem de um Deus que é família, Pai, Filho e Espírito de amor e trazemos em nós a exigência de sermos comunitários, de sermos sociais. A imagem de Deus em nós faz com que, aquele que não se dá à comunidade e que se fecha em si, se mutila, se diminui, se destrói, se auto-destrói. Ao contrário, na proporção em que ele se abre para a comunidade, mais ele mostra sua semelhança com Deus e mais ele próprio se realiza.

Aqui apelo para o Concílio Vaticano II, apelo para os grandes ensinamentos de Pio XII. O ponto em que temos que colocar um acento especial é a dignidade da pessoa humana. As declarações dos Direitos Humanos, no fundo, são declarações da dignidade da pessoa humana. A pessoa, indivíduo, é irrepetível, é a única criatura que Deus quis por si mesma, que tem finalidade em si mesma. Essa pessoa há que ser  respeitada, recebendo a devida atenção, desenvolvê-la e, ao mesmo tempo, fazer com que jamais seja agredida a sua dignidade,  que começa no ato da sua concepção e vai até o termo final e natural de sua existência.

O homem, como pessoa, busca a felicidade, a realização na felicidade, procurando a companhia de Deus, a dos seres humanos criando uma empatia, concórdia e verdadeira harmonia.

Outra característica, semelhança com Deus, é a consciência moral que nós temos. A consciência é como a voz de Deus: como se a retidão,  a bondade e a inteligência divinas ecoassem dentro de nós e fizessem ver os nossos atos com essa luz divina. As leis são ditadas pelo próprio Deus, (como no próprio Decálogo) ou logo, no início no Livro do Gênesis, quando Deus dá ordens no que se refere à própria criação, no paraíso, segundo a linguagem poética do Gênesis. Essas normas nada mais são do que mostrar-nos qual é o caminho certo para nos dar a felicidade, o trilho por onde deve andar a vida humana em demanda da   felicidade. É uma rota que, se não for seguida, o homem vai desandar para a desgraça e para a sua irrealização.

É tão bonito meditarmos o Salmo 119, onde em quase cada verso, se fala das ordens, das normas, dos mandamentos do Criador e traça a felicidade verdadeira mediante a observância da lei.

A consciência moral é a alegria de estar em paz, de ter tranqüila e serena postura interna e de gozarmos, enfim, da verdadeira felicidade espiritual. Como seres semelhantes a Deus, buscamos sem parar o amor e sempre andamos em busca de maior amor. Nesse mundo a verdade não nos sacia e nem nos sacia a busca do bem: esse é o grande ensinamento de Santo Agostinho. Nunca estamos satisfeitos, porque a satisfação verdadeira está na volta ao próprio Deus, na posse total dEle e não apenas parcial como imagens, como semelhanças, enquanto estamos nesse mundo.

Um outro sinal é a nossa ânsia de paz, a tranqüila ordem, a harmonia, a serenidade, a alegria de estar contente com o que se faz e se vive. A paz não se pode propriamente definir, há que buscá-la, degustá-la, trabalhar por ela. Nós, como seres criados à imagem e semelhança de Deus, temos uma abertura para os outros, isto é, trabalhar pela felicidade do outro. Quando descobrimos isso, que devo  trabalhar pela felicidade do outro, empenhar-me pela sua realização pessoal e comunitária, então sim eu posso ter a certeza de que  descobri a imagem de Deus em mim. Ela está se realizando quando sinto que Deus, além de me querer semelhante, em Jesus me quer filho e filha. Assim atino porque Ele me fez semelhante a Si: só poderia ser filho e filha se fosse semelhante a Ele próprio. Buscamos a alegria nesta filiação, realizados como filhos e filhas de Deus. Será que nós percebemos essa alegria nos seres humanos? E será que nós atentamos a essa sua imagem que trazemos nas qualidades que Deus nos deu? Peço ao Senhor, que Ele me dê sempre essa delicadeza da abertura, para ver quem sou e porquê Ele pôs em mim o sinete, o marco da Sua parecença. Que Ele me permita, que possa dizer sempre, “Senhor, tu que me fizeste à tua imagem e semelhança, não permitas nunca que eu faça atos que desonrem essa semelhança que está em mim e que me torna feliz!”

 


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