Nove pontos básicos para analisar a reconciliação com a Criação num encontro com profissionais e professores católicos da Diocese de Purwokerto, Indonésia, que contou com a presença do bispo Juliano Kemo Sunarko, S.J. Basta olhar o mundo atual, em todas as partes, e encontraremos ansiedade e inclusive conflito, mesmo olhando um pouco mais além de nossa segurança habitual e de nossas zonas de conforto. Esta situação nos confronta cada vez mais com a ecologia, isto é, com a forma como usamos os recursos e o meio ambiente em que vivemos. Hoje temos uma grande quantidade de argumentos científicos, mas nos falta a conversão moral —o compromisso de ser moralmente responsáveis—. Temos as respostas técnicas a muitas de nossas preocupações, mas nos falta a mudança em nossos comportamentos. Precisamos de decisões valentes e estabelecer alianças, ainda que as vezes não sejam fáceis de serem efetuadas. Precisamos de princípios que nos guiem. Precisamos de uma transformação e ter a coragem de agir de um modo diferente para poder participar num novo modo de desenvolvimento para todos. As empresas financeiras não são felizes hoje em dia, muitas delas estão perdendo dinheiro. Também há muita gente pobre não só na Ásia, mas também nos países ocidentais. A crise financeira e o uso especulativo dos recursos (tanto se se trata da construção de represas ou a promoção do óleo de palmeira) estão contribuindo à instabilidade social. O Papa Bento XVI escreveu em Caritas in Veritate: “Sem a caridade e a verdade, não vamos ter um verdadeiro desenvolvimento humano. É possível que tenhamos desenvolvimento econômico, mas não desenvolvimento humano”. Seus escritos condensam a tradição da Doutrina Social da Igreja que nos move a compromissos concretos. Ao mesmo tempo, desafia-nos a encontrar o rosto do Criador na Criação de hoje, uma volta à experiência mística do livro da natureza, que hoje em dia se encontra sob o domínio da ciência. Podemos indicar nove pontos para destacar a necessidade da reconciliação com a Criação. 1. A paz e as conexões com a ecologia O Papa Bento XVI vê a ecologia da natureza, a ecologia humana e a ecologia social, interagindo necessariamente juntas para que possamos ter uma resposta integrada. No cuidado do meio ambiente, ele sustenta dois critérios: a liberdade responsável e o bem comum. Trata-se de procurar estilos de vida, ou como organizamos nossas sociedades, de modo que todos nós trabalhemos segundo estes princípios. Ele diz que a casa da família humana é a Terra. Quando o ser humano se considera ser supremo, é necessário que “exibamos frente à natureza a mesma liberdade responsável que reivindicamos para nós”. Este é o contexto da paz. 2. A conversão a um imperativo moral Nosso mundo precisa de uma “conversão ecológica”, disse o arcebispo Celestino Migliore, observador permanente da Santa Sede nas Nações Unidas em Nova York, EUA, em outubro de 2006. Temos que compreender a urgência e a importância de que todos nós somos responsáveis pela proteção do meio ambiente além de nossos estudos sobre o meio ambiente e o desenvolvimento. Isto é o que chamamos um imperativo moral subjacente. Não é possível eludir a responsabilidade, o que significa que temos que internalizar o problema, analisá-lo com os demais, fazer isso em diferentes níveis para determinar o importante e os comportamentos que deveríamos mudar. 3. A mudança de comportamentos e de estilo de vida Nossa atitude deve mudar, mas ela não muda apenas com as leis. É possível uma mudança de atitude porque há uma mudança no coração, e não só uma mudança de mentalidade. A mudança de mentalidade muda nossa forma de pensar, mas não necessariamente nosso modo de agir. Trata-se de uma mudança de comportamento que surge do compromisso pessoal. Esta é uma luta longa e o Papa Bento XVI não nos está dando soluções técnicas senão mais bem mostra o desafio moral de mudar nossa forma de viver, assim como reconhece profundamente que o meio ambiente está sofrendo, e adverte que devemos mudar nossos hábitos de consumo além de exigir uma maior transparência pública. Embora possa parecer irrelevante o que se faz na cozinha, dada a magnitude do problema da gestão dos resíduos nas cidades, qualquer esforço por compostar e reciclar podem supor uma diferença real. Somos incentivados a assumir compromissos que possam ser realmente assumidos, e a promover alternativas que tornem a vida sustentável. 4. Decisões valentes e alianças Os povos indígenas têm maior afinidade com a terra e com a diversidade da vida. Os agricultores também têm fortes relações com a terra e o clima, pois é ali onde entregaram sua vida. A população urbana desfruta visitando os parques e jardins botânicos, mas persevera em seus padrões de consumo, gerando resíduos, que mostram como se romperam as conexões com a terra e a água. Às vezes é difícil encontrar a gratidão e a humildade para reconhecer que a terra e o mar nos dão de comer. Pedem que nós digamos um “SIM” decisivo para proteger a criação; e um compromisso forte para investir as tendências que conduzem às situações de degradação irreversível. Temos que saber quais são os limites que não devemos traspassar. Conhecemos as provas da mudança climática, mas no entanto continuamos comprometendo o futuro a favor do crescimento econômico presente. Assim grande parte da extração de recursos naturais é incontrolada, portanto, não há responsabilidade por sua gestão. Nosso consentimento destas situações mediante o consumo parece que justificariam estas situações. Estas são questões fundamentais para mim, e constituem a base constante de mina oração e reflexão, pois sem elas nossas ações não proverão necessariamente a reconciliação com a criação, além de debilitar também nossa aliança com os outros. 5. Princípios reitores da gestão ambiental A doutrina social católica apóia os princípios do “patrimônio comum da humanidade”, “a responsabilidade do Estado”, “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, “equidade intergeracionale intrageracional.” Tudo isto guia nosso sentido do “uso adequado de recursos “e a integridade da criação”, mas não são suficientes. O princípio de “responsabilidade de proteger” tem que ser fortalecido como essencial para procurar a segurança global e em última instância para a proteção dos direitos humanos. 6. Modo de desenvolvimento O Papa Bento não tem respostas à crise financeira, mas fala sobre o desenvolvimento que está impedindo que milhões de pessoas pobres no mundo tenham o acesso ao desenvolvimento econômico. Ali onde há dinheiro para a construção ou para a mineração, mas não para a vida da população, há uma grande injustiça. Na Ásia, há uma competição por construir represas com as quais se faz muito dinheiro legal e ilegal, mas na realidade não estão a serviço de autênticas necessidades. Há dinheiro na extração de diamantes e ouro, e ademais, o ouro está misturado com outros minerais, mas a extração de qualquer destes recursos não é essencial hoje em dia, enquanto as pessoas e o meio ambiente sofrem. Não podemos parar e tornar realidade a análise social e ambiental necessária para ter sociedades mais trasparentes? Se quisermos ajudar as pessoas a encontrar empregos dignos, este não é o caminho. Parece que só podem construir grandes represas, enquanto muito poucos propõem a construção de pequenas barragens para promover comunidades sustentáveis. A submissão ao desenvolvimento tecnológico não é garantia de que estejamos a serviço do bem comum, pois podemos obter benefícios econômicos, mas descuidando dos requisitos para conquistar o desenvolvimento humano. 7. Uso especulativo dos recursos financeiros A crise financeira surgiu por uma especulação abusiva. Isto deve ser evitado, já que “cede à tentação de procurar unicamente um benefício em um curto prazo, sem considerar a sustentabilidade em um longo prazo da empresa, seus benefícios à economia real e a atenção à promoção, de modo adequado e oportuno, de novas iniciativas econômicas nos países que precisam de desenvolvimento”. Bento XVI continua:” É certo que a exportação dos investimentos e formação, pode beneficiar à população do país receptor. O trabalho e os conhecimentos técnicos são um bem universal. No entanto, não é adequado exportar estas coisas simplesmente para obter condições vantajosas, ou pior ainda, com fins de exploração, sem fazer uma verdadeira contribuição à sociedade local, ajudando a conseguir um sólido sistema produtivo e social, um fator essencial para desenvolvimento estável” (Bento XVI: Caritas in Veritate, 40). 8. O desenvolvimento humano integral na caridade e a verdade (Caritas in Veritate) O maior problema que encontrei entre as pessoas com as quais trabalhei em questões ambientais é que ou se queimam e abandonam, ou continuam implicadas, tornam-se céticas de que vão produzir as mudanças necessárias na sociedade. Para perseverar é preciso ter uma grande fidelidade à verdade; voltar novamente a determinados acontecimentos, e estabelecer o que é conhecido e necessário para agir corretamente. Neste sentido não podemos idealizar, ou esperar muito da situação presente, devemos manter um compromisso estratégico e bem viva a esperança. Nossa relação com Cristo é fundamental para percorrer o caminho da responsabilidade social e a responsabilidade da criação. Tal fidelidade é a “garantia da liberdade (cf. Jn 8,32) e a possibilidade de um desenvolvimento humano integral.” É a partir desta base como podemos recusar “o fundamentalismo do livre mercado e a polarização simplista deste diante de um grande intervencionismo do governo como solução”. Precisamos de uma nova inspiração que promova a mudança pessoal e a transparência em nossos sistemas econômicos e sociais que informe nossas ações pela justiça, o bem comum, e a integridade da criação. 9. Rosto do Criador na Criação Encontrar isto é um desafio para nós: redescobrir o rosto do Criador na Criação e compreender as responsabilidades que surgem desta relação, desenvolvendo a dimensão ética deste estilo de vida. Temos que encontrar tanto a ocasião de conversão como a estratégia para fazer essa mudança. ENTÃO, COMO PODEMOS RESPONDER E AGIR? Ao refletir sobre o anterior, e ao discutir estas questões com o professorado da escola, é útil saber se há grupos que expressam suas preocupações, se este encontro pode servir para canalizar essa reflexão e para tratar de analisar a verdade desta situação, e se isto pode ser adaptado à medida que surge a preocupação por conectar com outras instituições, ao mesmo tempo em que tentamos promover uma tomada de consciência que nos leve a agir. As seguintes são algumas perguntas que podem orientar a reflexão: 1. Onde é que eu fico nessa rede de relações com Deus, com os outros, com a criação? 2. Como respondo à chamada para “curar um mundo quebrado?” |
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Autor: Pedro Walpole Fonte: Mirada Global |
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