Afrodescendentes




Dança Roger Milla, dança Neymar...

Na minha lembrança, comemorar gols com dança vem desde Roger Milla da seleção de Camarões que encantou o mundo na copa de 1990. 

“Dancei logo quando marquei o primeiro gol, quando ainda era uma criança.  Todos os camaroneses são bons dançarinos.  A dança nasce na rua como o futebol.  O meu passo de dança com a bandeirola foi também uma forma de fazer qualquer coisa para agradecer a todos aqueles que me apoiavam, que acreditavam na minha estrela.  E também para homenagear Pelé, que vi jogar quando o Santos fez uns jogos de exibição nos Camarões.  Apaixonei-me por essa equipe e adaptei o samba.  Admiro muito o Pelé.  Ganhou o seu primeiro Mundial com 17 anos.  É extraordinário!” [Declaração de Roger Milla, em entrevista ao jornal Ludopedio, às vésperas da Copa da África do Sul (1)]

Depois dentre outros, se destacou Ronaldinho Gaúcho com passos de samba para afirmar a cada celebração de gol que o melhor jogador do mundo estava na Europa, mas que tinha seu solo de origem, sua pertença ao futebol negro brasileiro ou futebol arte.

Na nossa tradição africano brasileira, a dança ocupa lugar de destaque nas religiões.  Ela proporciona a integração entre o mundo profano e o mundo sagrado.  Ela se constitui de gestos e movimentos, expressão corporal e dramatizações que por sua vez realizam uma combinação com demais códigos estéticos que magnificam o sagrado, especialmente a música percussiva dentro de definidos padrões de beleza de acordo a determinados contextos litúrgicos.

Odara é uma categoria da sabedoria nagô que expressa a característica fundamental da civilização africana tradicional.  Odara significa bom e bonito simultaneamente.  O fazer técnico ou útil e o fazer estético, o efeito de beleza, são inseparáveis.

É dessa fonte que se origina a bacia semântica das incontáveis expressões das instituições africano-brasileiras, que não descartam o lúdico e o estético que promovem a alegria de estar no mundo.  Mesmo uma instituição de luta como a capoeira daí não se afasta.

Entre os Ashanti, povo ascendente de boa parte dos afro americanos, o rei caracteriza seu poder através da dança.  Um bom rei deve ser um exímio dançarino.

Tendo que conviver com o mundo dos brancos, o negro foi levando o seu modo de ser para outros territórios, mas procurando caçar jeito de viver, foi realizando transformações para que pudesse se sentir mais à vontade diante das imposições eurocêntricas.  Mario Filho, autor do livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, narra a saga de transformação do “nobre esporte bretão” em futebol arte em nossa terra.

Nos EUA juntamente com a criação de novos gêneros musicais, os afrodescendentes foram abrindo espaços na indústria cultural que, do blues ao rock, vem predominando no cenário musical.

Juntamente com a música, a dança acompanhou o encantamento cultural, de James Brown (‘I Feel Good’) a Michael Jackson.

Quando vemos num filme a aproximação de Jackson com Jordan - dois Michaels gênios - um da indústria musical e o outro do basket; ambos da indústria do espetáculo, o que os une é também a dança, a gestualidade encantadora e eficiente na música ou no esporte.  Ambas transformando, pela estética e eficiência, o “território dos brancos”.

No Brasil então, nem se fala, se nos detivermos no mundo do samba, suas origens, o samba de roda e seus desdobramentos.

Então, quando vemos brotar do mundo do futebol-arte, um novo gênio como Neymar com sua exuberante performance e juventude, percebemos o quanto o legado daqueles que o antecederam continua florescendo; enchendo nossos corações de brasileiros, de orgulho e alegria.

Devemos citar alguns nomes exponenciais que estarão para sempre gravados nessa história como Friedenreich, Fausto, Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Nilton Santos, Didi, e num patamar mais alto Garrincha e Pelé.  Ainda mais que durante certo tempo, e ainda agora, sofremos com tentativas de menosprezo de nossa própria pujança e originalidade na criação de novos valores e linguagem que nos enlevaram e enriqueceram nossa identidade nacional.

O legado também dos estilos, principalmente dos cabelos, que nas décadas de 1970 e 1980 - derivados dos movimentos de afirmação do “Black is beautiful” - se combinavam com comemorações de gol de punho erguido, signo dos Black Panthers que transbordou para o mundo dos esportes; agora é recriado e renovado.  São inúmeros os penteados uma variedade de estilos que demonstra afirmação e liberdade; e nas comemorações e celebrações, a alegria vem em forma de dança que nada mais é que um desdobramento das elaborações e feituras das jogadas que culminam no gol.  Odara!

Autor: Marco Aurélio Luz
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