Inter-religiões




Entrevista com o Dalai Lama

Mesmo com voz rouca, tosse (não é Sars, ele garante) e cansaço de uma viagem de duas semanas repleta de compromissos, o 14º Dalai Lama nunca perde a disposição. Oferece um sorriso ou aperto de mão a cada um que cruza seu caminho. Na semana retrasada, depois de acolher a comunidade de tibetanos da Suécia em um salão elegante do Grand Hotel, em Estocolmo, concedeu a ÉPOCA a seguinte entrevista.

O número de budistas no Brasil cresceu nos últimos anos. O que atrai os ocidentais nessa religião?
Dalai Lama
- Eu também gostaria de saber. Acredito que há diferentes motivações. Algumas pessoas vêem no budismo uma ciência da mente, outras uma forma de humanismo que contribui para melhorá-las. E há ainda as que, como na tradição do budismo tibetano, se interessam pelos aspectos mais místicos da religião, suas várias divindades - da saúde, da vida longa -, o que não acho um caminho saudável. Afinal, a principal ênfase do budismo é treinar a mente para mudar a si mesmo por dentro, e não se apegar a essas coisas externas. Há ainda indivíduos mais voltados para a ciência, que se interessam pela abordagem do desenvolvimento da mente.

Esses vários enfoques não a descaracterizam como religião?
Dalai Lama
- Não creio. O budismo tem mais de 2.500 anos. É uma filosofia que vem se perpetuando ao longo dos séculos, já foi testada pelo tempo e é muito profunda. Não quero dizer que é a melhor religião que existe. Cada indivíduo tem sua própria disposição mental e deveria escolher uma religião apropriada a ela.

As pessoas ainda precisam de uma religião?
Dalai Lama
- A religião talvez tenha um papel diferente hoje. Antigamente, as comunidades eram muito religiosas, e as tradições guiavam as pessoas. Hoje elas estão mudando com o contato com outros modos de vida. Não existe mais isolamento e todos interagem com o mundo externo. No Brasil, um país tradicionalmente cristão, as pessoas têm mais informação sobre hinduísmo, budismo e zen-budismo. Portanto, têm novas oportunidades para escolher sua fé. Eu não saberia dizer se a religião está aumentando ou diminuindo no mundo. Mas acho que permanece mais ou menos como sempre. As muitas religiões lidam com os problemas e o sofrimento humano. Como a natureza humana e o sofrimento continuam os mesmos de sempre, acho que as religiões ainda são muito relevantes.

Seus livros são best-sellers no Brasil. Por que escreve para o público em geral sobre assuntos universais?
Dalai Lama
- Porque isso é de meu interesse (risos). Eu não tenho interesse em converter pessoas ao budismo. Reconheço que todas as diferentes tradições têm o mesmo potencial de ajudar a humanidade. Sempre achei errado tentar converter as pessoas. Se eu tentar propagar o Dharma (a doutrina budista), se os irmãos cristãos e os muçulmanos fizerem o mesmo esforço para divulgar sua fé, pobres dos 6 bilhões de habitantes da Terra! (risos) Se tivessem a oportunidade, mudariam para outro planeta. Seria um desastre (risos). Paz e harmonia é o essencial, não o nome da religião que a pessoa aceita. Se o Brasil é um país de maioria cristã, que continue cristão. Se o Tibete ou a Mongólia são budistas, que permaneçam budistas, e que a Índia permaneça uma sociedade multirreligiosa. Meu maior interesse é promover os valores humanos. Por isso escrevo livros como A Arte da Felicidade. Se bem que não fui eu quem escolheu esse nome. Foi o co-autor, Howard Cutler.

Não gosta desse título?
Dalai Lama
- Está vendendo tão bem que eu gosto (risos). Esse psiquiatra, o Cutler, me fazia perguntas e eu respondia a partir dos conceitos budistas. Ele conseguiu colocar isso tudo num bom formato. Agora vamos lançar o segundo livro, no mesmo padrão, com maior profundidade.

O senhor luta há 40 anos pela liberdade do Tibete. Não se cansa nem se arrepende de algum passo?
Dalai Lama
- Quando as coisas ficam difíceis, eu as aceito. Claro que às vezes sinto frustrações ou arrependimento, mas não me incomodo muito. Segundo a tradição budista, nenhuma força é capaz de mudar o efeito das causas de outras vidas. Então, não há razão para sentir arrependimento. É preciso aceitar a situação e usá-la da melhor maneira. Como refugiado, escrevo um pouco, dou algumas palestras e, enquanto isso, vou fazendo algum dinheiro (risos). Claro, não para mim. Eu digo ao co-autor do livro: você não deve se motivar pelo dinheiro, e sim pelo serviço à humanidade. Mas, quando os direitos autorais entram na conta bancária, penso: parece que fiz mesmo um bom trabalho (risos).

O que acontecerá com a liderança no exílio se o senhor morrer antes de voltar ao Tibete?
Dalai Lama
- Meu retorno ao Tibete é irrelevante. Emocionalmente, os tibetanos me querem de volta. Mas, intelectualmente, gostam de minha presença no Exterior. Eu divulgo a situação do Tibete, consigo apoio para nossa causa, difundo a cultura, converso com autoridades. Claro, se eu morrer, haverá algum recuo, mas o povo já tem outros líderes espirituais e políticos. Há dois anos elegemos nossos representantes constitucionalmente no exílio. Quando tudo isso se resolver, sairei da política e entrarei numa espécie de semi-aposentadoria.

A questão entre China e Tibete não remete ao conflito entre Israel e Palestina?
Dalai Lama
- É realmente uma complicação. Em Lhasa, capital do Tibete, os chineses já se estabeleceram. Teremos de discutir isso, até porque há situações diferentes. Há, por exemplo, os chineses interessados no budismo tibetano. A mulher de um importante ministro chinês é budista. Dizem que ele a leva de carro para rezar no templo. Imagine um comunista ateu levando a mulher para rezar! Realmente, os chineses estão tendo um trabalho duro para erradicar o budismo (risos). Mas eu acredito no socialismo.

No socialismo chinês?
Dalai Lama
- De certa maneira, sou mais socialista que certos líderes chineses. Porque eles não se importam com os trabalhadores. Alguns se tornam milionários e deixam os pobres de lado, negligenciam as pessoas.

Com os episódios recentes de guerras e terrorismo, o senhor acha que a humanidade está regredindo em termos de paz e entendimento?
Dalai Lama
- Não acredito nisso. É verdade que alguns conflitos chegaram a extremos na Palestina, no Afeganistão ou no Iraque. Mas, em larga escala, o mundo não caminha para isso. O perigo mundial está muito mais reduzido. A tendência é pela democracia, pelas sociedades abertas e livres, sustentadas na lei. Nos últimos anos, vem-se desenvolvendo um movimento mundial positivo em favor da paz. Exemplo disso foram as manifestações contra a guerra no Iraque. E é uma onda muito forte. As pessoas têm um desejo urgente de paz no mundo que está crescendo mais e mais.

Incomoda ser recebido por líderes mundiais extra-oficialmente ou apenas como líder religioso?
Dalai Lama
- Eles estão sendo realistas (risos). Não me importo com uma recepção mais ou menos oficial, o que me interessa é encontrar as pessoas. Claro, se um ministro me recebe no aeroporto, pode ser bom para a questão tibetana. No Ocidente, as pessoas levam muito em consideração o modo como alguém é recebido, como a pessoa sorri ou se veste. Para mim, isso não importa.

Por que nunca houve uma mulher Dalai Lama?
Dalai Lama
- Várias mulheres são reconhecidas como encarnações importantes dentro do budismo. E nada impede que haja uma Dalai Lama. Mas que seja bonita (risos).

O que acha de ser tão popular entre celebridades mundiais?
Dalai Lama
- Não há diferença. Não importa se me vêem como celebridade, estrela de rock ou guru. O que interessa é minha própria motivação. Toda manhã tento dar uma forma apropriada a ela. O ponto de vista das outras pessoas a meu respeito é uma questão delas. Alguns me acham um bom sujeito, outros me consideram um reacionário ou separatista. Não me importa. Muitos anos atrás, durante a Revolução Cultural, os chineses diziam que eu era um lobo em pele de cordeiro, enquanto outras pessoas me consideravam um deus vivo. Bobagem.

O senhor se considera um Buda vivo (para os tibetanos, ele é a reencarnação do Buda da Compaixão)?
Dalai Lama
- Não, não e não. Isso leva décadas de prática. Cinco, seis décadas. Em meu caso, somente quando entrei na adolescência e quando me tornei um refugiado é que passei a praticar o budismo com entusiasmo. Então, faz apenas quatro décadas. Mas uma vida, 100 vidas, mil vidas de prática não são nada. Hoje faço meditação analítica, uma hora pela manhã e mais uma ou duas à noite. Além disso, meu dia inteiro deveria ter sentido e ser útil para os outros. Toda a minha vida deveria ter esse propósito. É preciso servir de alguma maneira. E esse é apenas o primeiro passo para se tornar um Buda (risos). (Fonte: Época)

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