Cultura




Projeto resgata história do Vale do Paraíba
A história do Vale do Paraíba, uma das primeiras regiões do interior do País a serem colonizadas a partir do século 16, será contada sob nova ótica: a das igrejas. Terra de Nossa Senhora Aparecida, de Frei Galvão e de centenas de "santos" populares, a cultura do vale será revelada pelo Projeto Romaria. Aprovado no mês passado pelo Ministério da Cultura para receber incentivo da Lei Rouanet, o projeto foi idealizado pelos professores Carlos Roberto Rodrigues e Sônia de Medeiros Abdo e tem o apoio do cantor Renato Teixeira, autor da música Romaria.

Administrado pela organização não-governamental (ONG) Centro Cultural Meta Social, o projeto terá custo inicial de R$ 1 milhão. "O valor será apenas para a primeira fase. Haverá outras quatro", afirmou o diretor da ONG, Gustavo Abdo.
 
A partir de uma pesquisa aprofundada das igrejas - erguidas entre os séculos 17 e 20 - será criado um centro de estudos, que contará com um arquivo histórico de fotos, mapas e painéis. O acervo vai servir de base para novas pesquisas, palestras e exposições culturais. O arquivo permanente quer mostrar passo a passo, como se fosse em uma romaria, o surgimento do Vale do Paraíba.

Para os autores, a necessidade do projeto é vital para preservar a cultura brasileira, principalmente por causa da "velocidade devoradora do progresso". "Muita coisa já foi destruída e restaram as igrejas. O principal motivo é preservar uma memória histórica das mais importantes do País.

Corremos o risco dessa história ficar nos bastidores e amanhã não ter ninguém para contá-la", diz Rodrigues. Serão pesquisadas, em média, seis igrejas de cada um dos 39 municípios da região.

Romaria é uma leitura da história por meio da fé, que dá origem aos povoados, ao comércio, à economia, às rotas e às cidades. Para Renato Teixeira, é uma honra aliar o nome da música a esse projeto. "Fico muito feliz. É uma maneira indiscutível de usar a música em favor do conhecimento para que a cultura não morra." Segundo o cantor, o projeto é uma abordagem da cultura caipira coerente já que as igrejas foram "os esteios" dessa história.

Marco inicial - Depois de 20 anos de pesquisa, o Projeto Romaria nasceu em Taubaté, mesmo lugar onde nasceu o Vale do Paraíba. Quando chegou ao local onde hoje é o centro da cidade, o bandeirante Jacques Félix - enviado pelo capitão-mor João de Moura Fogaça em 1636 - tratou logo de construir uma igreja: a Matriz de São Francisco das Chagas. Todos os dias, passam pela praça central de Taubaté cerca de 30 mil pessoas, mas poucas sabem que ali está uma riqueza de quatro séculos, o marco inicial da região. "Uma vez fiquei parado por três horas em frente da matriz e notei que todo mundo passa e não percebe nem conhece a riqueza cultural e histórica daquela construção", contou o professor.

Nesses 360 anos, a igreja foi reformada várias vezes, mas não perdeu todo o traçado original. O altar-mor mantém o estilo colonial. A Matriz de São Francisco das Chagas e o Museu de Arte Sacra de Taubaté ainda possuem imagens do início da colonização.

Construídas para demarcar a região e atrair índios, tropeiros e bandeirantes, as igrejas refletem o apogeu dos tempos das ocupações, do ciclo do ouro, do café, da escravidão e posteriormente da cana-de-açúcar. A partir dessas construções, os bandeirantes desbravaram o vale em busca de riquezas que sustentassem a colonização.

Os desbravadores que chegaram com Jacques Félix formaram um caminho, ao longo do Rio Paraíba, cruzaram a Serra do Embaú (hoje Minas), encontraram ouro e formaram todas as cidades do Vale do Paraíba e algumas mineiras. "Uma lacuna cultural será preenchida e parte da história do País, resgatada", diz Rodrigues.

Em Taubaté, outras igrejas foram construídas na mesma época, como a do Convento Santa Clara. Erguida de frente para a matriz, a igreja foi fundada em 1674 por frades franciscanos. Da arquitetura original conserva ainda a torre sineira.
 
Curiosidades - Jacques Félix chegou com parentes, amigos e conhecidos. Durante o processo de colonização, passaram pela região cerca de 60 mil negros. Por isso surgiu a Igreja do Rosário, a Antiga Capela dos Homens Pretos - local de oração e espiritualidade dos escravos. A igreja do Rosário de Taubaté é de taipa-de-pilão e tem sido estudada por pesquisadores da arquitetura sacra tradicional.

Outra curiosidade está nas igrejas construídas em Cunha, na Serra da Bocaina. Na praça central da cidade há uma igreja ao lado da outra. Nos anos de 1.700, o hábito era construir uma igreja para brancos e outra para escravos. No litoral norte, a igreja do Convento de Nossa Senhora do Amparo, em São Sebastião, é uma das poucas que não foram alteradas. Em Pindamonhangaba, a matriz foi construída no século 18. O interior é ornamentado por vários altares e uma pia batismal.

A Basílica do Senhor Bom Jesus, em Tremembé, é uma das maiores igrejas do vale. Também uma das mais antigas. A praça central da cidade, onde está a igreja, era parada obrigatória, no século 17, de tropeiros que tinham como destino Minas Gerais. Daí surgiu a necessidade de construir uma capela. Na época, foi chamada de Nossa Senhora da Conceição. Em 1673 recebeu a imagem do Senhor Bom Jesus, que se tornou padroeiro da cidade.

Construída a partir de 1660, em estilo neoclássico, tem uma decoração barroca. Atrás da igreja está a Bica da Água Santa. Segunda a lenda, um homem montou uma barraca ali e desapareceu. No mesmo local foi deixada uma imagem de Bom Jesus. Quando os moradores retiraram a imagem do chão, apareceu a bica. (
Fonte: Estadão)
 
 

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