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Da importância dos símbolos: a propósito do Dia da Bandeira

Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

No último dia 19 de novembro comemoramos o Dia da Bandeira.  Símbolo nacional, aprendemos desde crianças a respeitá-la, a olhá-la como visualização privilegiada da nossa pátria, de tudo aquilo que para nos representa o Brasil.  E o dia em que se dedica a ela deve nos trazer uma reflexão maior que ela: a reflexão sobre a importância dos símbolos para a vida humana.

O próprio hino da bandeira nacional, de autoria de Olavo Bilac, chama por duas vezes a bandeira de símbolo nacional:

 

Salve lindo pendão da esperança

Salve símbolo augusto da paz

Tua nobre presença a lembrança

A grandeza da pátria nos traz

 

Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil

Querido símbolo da terra

Da amada terra do Brasil 

 

Incontestável símbolo da nação e do país, vejamos pois o que é um símbolo e por que o ser humano é, entre outras coisas, um ser simbólico ou um ser de simbologia.  O dicionário nos traz algumas definições de símbolo que podem nos ajudar.

Símbolo é:1). Aquilo que, por um princípio de analogia, representa ou substitui outra coisa;  2)Aquilo que, por sua forma ou sua natureza evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente: ; 3) Aquilo que tem valor evocativo, mágico ou místico: ; 4)Objeto material que, por convenção arbitrária, representa ou designa uma realidade complexa:  5)   Elemento descritivo ou narrativo suscetível de dupla interpretação, associada quer ao plano das idéias, quer ao plano real:  6) Elemento gráfico ou objeto que representa e/ou indica de forma convencional um elemento importante para o esclarecimento ou a realização de alguma coisa; sinal, signo:  7)          Sinal que substitui o nome de uma coisa ou de uma ação: 8) Figura convencional elaborada expressamente para representar uma coisa; emblema, insígnia:  9) Pessoa ou personagem que representa determinado comportamento ou atividade;10)Alegoria, comparação; metáfora: 11).Termo empregado por certos autores para designar signo. [O símbolo lingüístico corresponde a símbolo (1), ao passo que no signo a representação é arbitrária.]12)Rel.  Enunciado dos artigos de fé nas Igrejas cristãs, para uso da comunidade. [Cf., nesta acepç., regra-de-fé.]  13) Semiol.  Signo que, em oposição simultânea ao ícone e ao índice, se fundamenta numa convenção social (o signo lingüístico, p. ex.) e mantém uma relação instituída, convencional, com o referente; signo arbitrário, signo imotivado.

 

O símbolo portanto é uma realidade que ao mesmo tempo vela e revela  a realidade.  E é importante que não apenas mostre, mas também esconda, oculte algo , uma parcela de mistério que necessitaria , por sua vez, ser paulatina e pacientemente descoberta.

Nesse sentido, a bandeira, enquanto símbolo nacional, muito além do pedaço de pano verde, amarelo, azul e branco cujas cores desde nossa infância nos ensinaram o que representavam com palavras um tanto obvias: o verde, as nossas matas; o amarelo o ouro de nossas minas; o azul, a cor de nosso céu; e o branco a pureza da alma brasileira, representa nossa identidade como povo.

Por isso, nesse dia da bandeira  os poetas devem ajudar-nos a refletir sobre esse querido símbolo da terra e pensar: o que nos mostra e o que nos esconde?  O que nos revela e o que nos vela?

O grande poeta Castro Alves talvez seja aquele que, dramaticamente, melhor disse sobre o significado desse grande símbolo nacional.  Em seu belo, clássico e indignado poema, “ O navio negreiro”,   descreve os horrores por que passavam os negros escravos cativos  nos navios trazidos da África para o Brasil, clamando a Deus e perguntando-se o por que daquela barbaridade cometida contra seres humanos. 

 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades

Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?   Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!... 

São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão. . . 

São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N'alma — lágrimas e fel... 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael. 

Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus ... 
... Adeus, ó choça do monte, 
... Adeus, palmeiras da fonte!... 
... Adeus, amores... adeus!... 

Depois, o areal extenso... 
Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p'ra não mais s'erguer!... 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer. 

Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado,
 
E o baque de um corpo ao mar... 

Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!
... 


 Mas depois disso, o poeta  detém-se estarrecido diante do pavilhão que tremula sobre o mastro da soturna embarcação. Nele reconhece o símbolo querido do seu pais, a bandeira de sua nação, que se presta a cobrir aquele horrendo espetáculo: 

Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra
 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

            Que no dia da Bandeira, façamos o propósito de , naquilo que de nos depende, não deixar que o símbolo de nossa pátria acoberte infâmias e mentiras, injustiças e violências.  Mas que seja verdadeiro símbolo de um povo que deseja caminhar eticamente ao encontro de um destino de liberdade, sem oprimir quem quer que seja.    


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