Por: Marco Lacerda, de Madri
No dia 11 de março de 2003, quatro dias antes das eleições presidenciais, a Espanha tornou-se alvo do terrorismo islâmico. Um atentado causou a morte de 192 pessoas e deixou 1500 feridos. Imediatamente formou-se uma Comissão Parlamentar para investigar o massacre que abalava o mundo não muito depois dos horrores nas torres gêmeas de Nova York. Em nove meses de atividades, a comissão transformou os debates num circo de manipulação política com vistas apenas em interesses partidários. Agora, no dia 15 de dezembro de 2004, pela primeira vez o Parlamento espanhol abriu as portas para ouvir o lado verdadeiramente afetado pela tragédia: os familiares dos mortos e feridos. Em nome deles falou uma mulher praticamente anônima: Pilar Manjón, 46 anos, divorciada, mãe de dois filhos, um deles morto no atentado, aos 20 anos. Serena, sem levantar a voz em nenhum momento, Pilar silenciou deputados e senadores com um discurso estremecedor que ecoou dentro e fora da Espanha e entra para a história como uma página inesperada. Ninguém foi poupado. Políticos, meios de comunicação e demais instituições envolvidas tiveram que escutar, em silêncio envergonhado, o sempre ignorado apelo da sociedade civil. Com a voz muitas vezes partida pelas lágrimas, Pilar deu uma lição que vale para todo o mundo, pois explica com nitidez irretocável os motivos da crise de credibilidade que atinge o poder político e compromete o futuro da Democracia. Abaixo, uma síntese do discurso de Pilar Manjón, uma cidadã espanhola que, no dia das eleições, antes mesmo de receber o cadáver do filho, saiu de casa para votar. “Comparecemos diante de vocês, na Casa onde reside a soberania do povo, com o propósito de ser a voz dos ausentes e dos feridos, que até hoje continuam seu calvário, entrando e saindo de hospitais; para que sua voz, apagada na imensidão da dor, mas viva e poderosa na nossa memória, ecoe entre estas paredes. Porque vocês, senhores que integram esta comissão, até agora só trocaram acusações, só falaram de periferias, só falaram de si mesmos. Os familiares que perdemos ainda não foram representados nesta Casa que, supomos, é de todos. Por isso estamos aqui hoje, para torná-los presentes, embora saibamos que os senhores prefeririam continuar utilizando-os como arma nas suas brigas políticas. Não viemos posar para os fotógrafos nem para a televisão. Viemos falar de coisas longamente meditadas, discutidas em reuniões, em foros, em cafeterias, nas ruas. Hoje, senhores, pelo menos por alguns minutos, a palavra é nossa. Falamos em nome de pessoas de carne e osso, com rosto e nome. Se chamam Javi, Pilar, Belén, Susana, Emília, Oscar, Rodrigo, Abel, assassinado no dia do seu aniversário. Se chamam Carlos, Oscar, Eva, Rodolfo, Daniel, que depois de amanhã faria 21 anos e era meu filho. Precisamos deles, senhores, assim como precisamos redescobrir o sorriso, para nós e para os que conseguiram escapar com vida naquele dia, mas nunca mais voltaram a sonhar porque levam o horror gravado na retina. Eles também têm nome. Se chamam Rosa, Maribel, David, Mariam, Raquel… Esperamos que algum dia, mesmo que seja em sonho, a blindagem ao horror desmorone e os senhores tomem consciência do sofrimento que provocaram com posições políticas equivocadas ou que não souberam evitar. Bastará um momento de clarividência, um segundo de lucidez para abrir-lhes os olhos para o sofrimento que temos vivido. Houve quem quizesse vetar nossa presença aqui hoje, numa última tentativa de apropriar-se de uma Casa que não pertence a nenhum de vocês, para tirar-nos a voz, desligitimizar-nos, submeter-nos ao seu jogo, acusando-nos de pertencer a esta ou aquela facção política. Qualquer um podia estar naqueles trens e morrer naquele cenário de horror. Ali perderam-se vidas de estudantes e trabalhadores, motores de uma sociedade, gente inocente. O acaso faz com hoje sejamos nós a estarmos sentados aqui. Mas o que estamos dizendo não é fruto do acaso. Se fosse o contrário, se estivessem os senhores sentados aqui, estejam certos de que as palavras seriam as mesmas. Senhores, manifestamos nosso mais absoluto rechaço a qualquer tipo de terrorismo. Somos contra a barbárie, o fanatismo e o integrismo religioso, ideológico e político. Somos a favor da tolerância, da convivência e da paz. Nenhum objetivo político justifica o terrorismo que, para nós, é a opção dos covardes. Com a legitimidade que temos como vítimas, insistimos: nunca mais utilizem, aqui ou em qualquer lugar, nossa dor com fins partidários. Não a utilizem como bandeira de suas causas. Queremos ser sinal de união e de diálogo entre vocês e os cidadãos democráticos. Nosso sofrimento deve ser motivo dessa união. Nenhum partido nos move ou interessa. Nós, vítimas, não entendemos de posicionamentos políticos. Mas os interesses partidários parecem cegá-los. Para os senhores, tudo é política e partidarismo. Felizmente, fora desta Casa existe ar puro e luz sob o céu. Com a firmeza de nossas convicções, estamos aqui para repreendê-los como deputados e representantes do povo. Por fazerem política-de-pátio-de-colégio, cantando vitórias momentâneas, rindo e debochando uns dos outros diante das câmeras da televisão, como se tudo não passasse de uma partida de futebol. Estamos falando da morte, senhores, e de feridas que vamos levar pelo resto de nossas vidas, de perdas que nos encheram de desolação e amargura. Com certeza vocês têm filhos, esposas, maridos, irmãos. Ponham-se do lado de cá por um momento e imaginem como seria despedir-se deles de manhã e, nove meses depois, continuar esperando que voltem para casa. Perder um ser querido nessas circunstâncias é o que de mais parecido existe com a própria morte. Há anos os senhores firmaram um Pacto Anti-terrorista, no qual se comprometiam a não utilizar o terrorismo como arma eleitoral e partidária. Mas sabem, embora não queiram ouvir, que nos transformaram em moeda de troca no seu jogo político. Não admitimos, senhores, que utilizem nossos mortos e feridos como culpados pela derrota eleitoral de uns ou pela vitória de outros. Algo fizemos de ruim, alguém se equivocou ou cometeu erros graves que deram a essas forças do mal motivos para levar a cabo um plano com tamanha fúria assassina. Quem assumirá, de uma vez por todas, a responsabilidade pelos erros que provocaram esse massacre que tanto sofrimento nos trouxe. Revelem o que sabem, contem tudo! Façam-no diante dos juizes das nossas cortes! Estamos fartos de acusações sem provas. É mesquinho jogar a pedra e esconder a mão. É inadmissível que os senhoes continuem usando esta comissão como um jogo. Porque, se assim for, teremos que nos organizar como cidadãos e estabelecer novos critérios de avalição dos nossos parlamentares. Se esta comissão dispõe de informações comprovadas sobre erros cometidos, continuamos à espera de um pedido de desculpas e que as responsabilidades sejam publicamente assumidas. Exigimos a demissão e a puinição, por via legal, dos que não puseram todos os meios disponíveis para evitar a tragédia. Existem argumentos bem fundados para se supor que o ataque poderia ter sido evitado. Quando olharem para nós, saibam que somos testemunhas inconvenientes dessa irresponsabilidade. Nada trará de volta nossos entes perdidos nem cicatrizará as feridas abertas em nossas vidas. Mas seria injusto não reconhecer que alguns elementos da engrenagem que deveria ter previsto o perigo, falharam escandalosamente. Quem nos avisou do perigo? Quem ignorou os avisos? Quem são os responsáveis por esse disparate que arrasou os projetos de vida e as vidas de duas mil pessoas, no maior atentado terrorista da história da Espanha? O que aconteceu antes do 11 de março para que tal barbaridade chegasse a ser perpetrada? Sabemos de tramas não investigadas envolvendo tráfico de explosivos, informes que avisavam da eminência do ataque. Sabemos que faltaram recursos para investigar supostos terroristas, que faltou policiamento, tradutores, verba. Faltou sobretudo vontade política para prever o que estava em vias de desabar sobre nós depois de nos convertermos em alvo do terrorismo islâmico. Não queremos que esta comissão continue seu trabalho no formato atual, um palco que serve apenas para desavenças partidárias. Exigimos a criação de uma nova comissão de investigação, formada por especialistas independentes, onde os partidos políticos não estejam presentes. Que o trabalho seja entregue a pessoas que, livres de interesses partidários, ajudem a cidadania espanhola e o resto do mundo a entender o que aconteceu em Madri no dia 11 de março de 2003. Houve falhas clamorosas no trato imediato com as vítima. Os funcionários que participaram da operação sequer tinham formação para lidar com situações de emergência. No pavilhão onde os corpos foram espalhados, o chamado às famílias para reconhecer seus cadáveres era feito por megafones. Nenhuma autoridade presente. E se apareciam, era apenas para posar para fotos de ocasião. A nós, sobreviventes, nos tratavam como doentes. Não tenham medo, senhores, de aproximar-se de nós. A dor não é contagiosa. Condenamos com igual veemência o modo como as imagens da barbárie têm sido usadas pelos meios de comunicação. Tais imagens já não têm mais função informativa. Seu uso apenas satisfaz a sede de uma sociedade que converte tudo em espetáculo, inclusive a angústia, o medo e pranto de vítimas da loucura humana. Senhores diretores de televisões, jornais e agências de notícia, permitam-nos duvidar da sua sensibilidade. Por favor, não vendam suas consciências em troca de um pouco mais de audiência. Afirmamos que acima do direito à informação está o direito dos ausentes de preservar sua intimidade. Cada vez que são exibidas, essas imagens reavivam em nós a dor, nos arrastam ao passado e nos fazem imaginar mais uma vez como teriam morrido nossos entes. Teriam sofrido muito? Teriam permanecido com vida o tempo suficiente para perguntar-se onde estávamos nós, que não aparecemos para socorrê-los? Continuam a ser veiculadas imagens das câmeras de vigilância situadas nas plataformas. Essas imagens foram confiscadas pela polícia imediatamente após as explosões. Como foram parar nas mãos da imprensa? Quem permitiu ou autorizou? Quem as vendeu? Para terminar, senhores, permitam-me dizer algo pessoal. Vocês são o meu Parlamento. Apesar da dor, no dia 14 de março, quando ainda não recebera o cadáver do meu filho, saí de casa para votar. Porque você são meus representantes, meus e das demais vítimas. É obrigação dos senhores cuidar para que vivamos |
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