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O SERMÃO DA MONTANHA: CARTA MAGNA DO REINO DE DEUS

Ao longo das últimas semanas, a leitura do evangelho das missas tem sido tirado de um dos trechos mais importantes do Cristianismo de todos os tempos: o chamado Sermão da Montanha. Trata-se de uma composição que os evangelistas Mateus e Lucas fizeram a partir de ensinamentos que Jesus transmitiu fundamentalmente aos seus discípulos, ou seja, àqueles que queriam segui-lo mais de perto, estar mais junto a ele, viver mais do jeito que ele vivia. Conhecido desde então por ser o núcleo do ensinamento de Jesus àqueles e àquelas que queriam segui-lo até o fim e ser semelhantes a Ele na vida e na morte, o Sermão da Montanha ainda hoje nos interpela a todos nós, cristãos do terceiro milênio, que queremos levar a sério nossa fé. A mensagem aí contida é séria e pode chegar a arrepiar-nos e dar-nos medo. No entanto, vale a pena prestar atenção nela com cuidado. Sobretudo porque trata de um tema que é essencial para a nossa vida de cristãos no mundo de hoje: o tema da violência. Vejamos o texto em Mateus. A primeira parte do Sermão da Montanha é a das chamadas Bem-aventuranças. São oito frases onde Jesus declara felizes aqueles exatamente que o mundo não considera felizes. Fazendo assim, Ele mostra bem que sua lógica é completamente diferente da lógica do mundo. O Sermão da Montanha (Mc 3,13; Lc 6,12-13.20). 1 Ao ver as multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se, e seus discípulos aproximaram-se dele • . 2 E, tomando a palavra • , ele os ensinava • :
As bem-aventuranças (Lc 6,20-26).

3 Felizes • os pobres de coração • : deles é o Reino dos céus.

4 Felizes os mansos • : seu quinhão será a terra • .

5 Felizes os que choram • : eles serão consolados.

6 Felizes os que têm fome e sede da justiça • : eles serão saciados.

7 Felizes os misericordiosos: eles alcançarão misericórdia.

8 Felizes os corações puros • : eles verão a Deus.

9 Felizes os que agem em prol da paz; eles serão chamados filhos de Deus.

10 Felizes os perseguidos por causa da justiça: deles é o Reino dos céus.

11Felizes sois vós quando vos insultam, vos perseguem e mentindo dizem contra vós toda a espécie de mal por minha causa. 12Alegrai-vos e regozijai-vos, porque grande é a vossa recompensa nos céus: foi assim, com efeito, que perseguiram os profetas que vos precederam.

 

 

Jesus declara bem-aventurados os mansos (v. 4) . Esta bem-aventurança diz respeito àqueles que se mostram mansos em suas relações com o próximo. O fato é que existe um componente objetivo para estes “mansos”do qual o texto fala: são os fracos, despossuídos, oprimidos por diversas instancias da sociedade. Esta condição social, no entanto, eles a vivem num contexto de submissão e confiança em Javé, feita de total disponibilidade. Daí a recompensa prometida a eles: “herdarão a terra” . A herança que o manso receberá - ou seja, a terra em possessão - porém, vista dentro do conjunto do texto, não parece tratar-se de uma realidade deste mundo. A mansidão da qual fala a bem-aventurança , portanto, não é outra que a humildade que se manifesta no amor em meio às relações com o próximo. A mansidão à qual é prometida a herança da terra encontra sua ilustração e seu perfeito modelo na pessoa de Jesus, “manso e humilde de coração”, que não se encoleriza nem grita”, que não quebra o caniço quebrado nem apaga a mecha que ainda fumega”(cf. Mt 12,19-20) . É esse mesmo Jesus que, cheio de compaixão com os deserdados da terra, relembra tantas vezes que Deus “quer a misericórdia e não o sacrifício”(9,13; 12,7). Ser feliz, portanto, - bem-aventurado - é ser como Jesus, manso e humilde de coração, paciente e carinhoso com os outros. Mais adiante, o evangelista vai mais longe e recolhe ensinamentos bem radicais de Jesus sobre até onde deve ir esta nossa mansidão no trato com os outros. . 21 Ouvistes que foi dito aos antigos • : Não cometerás homicídio • ; aquele que cometer um homicídio responderá por ele no tribunal • . 22 Pois eu vos digo: todo aquele que se encolerizar contra seu irmão responderá por isso no tribunal; aquele que disser a seu irmão: Imbecil • estará sujeito ao julgamento do Sinédrio • ; aquele que disser: Louco • será passível da geena de fogo • . 23 Portanto, quando fores apresentar a tua oferenda ao altar, se ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, 24 deixa a tua oferenda ali, diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, vem apresentar a tua oferenda. 25 Põe-te logo de acordo com teu adversário • , enquanto estás ainda a caminho com ele; não aconteça que esse adversário te entregue ao juiz, e o juiz, ao policial, e sejas lançado na cadeia. 26 Em verdade, eu te digo: de lá não sairás enquanto não tiveres pago o último tostão.

 

 

Não basta, portanto, não matar, ensina Jesus. Toda forma de agressão à vida é odiosa. Toda forma de violência merece repúdio e condenação. A vida do outro é sagrada e como tal deve ser tratada e encarada por cada um de nós. 38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente • . 39 Eu, porém, vos digo: Não resistais ao mau • . Pelo contrário, se alguém te esbofeteia na face direita, vira-lhe também a outra. 40 A quem quer conduzir-te ante o juiz para tomar a tua túnica, cede-lhe também o teu manto • . 41 Se alguém te força a andar mil passos • , anda com ele dois mil. 42 Dá a quem te pede; a quem quer pedir-te emprestado, não vires as costas. . 43 Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo • . . 44 Eu, porém, vos digo: Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, 45 a fim de serdes verdadeiramente • filhos do vosso Pai que está nos céus, pois ele faz nascer o seu sol sobre os maus e os bons, e cair a chuva sobre os justos e os injustos. 46 Pois se amais aqueles que vos amam, que recompensa • tereis por isso? Não agem da mesma forma até os coletores de impostos • ? 47 E se saudais somente vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem os pagãos a mesma coisa? 48 Vós, portanto, sereis perfeitos • , como é perfeito o vosso Pai celeste • . A ira e a violência aqui são radicalmente condenadas, pois o amor respeitoso do irmão, segundo o Evangelho, exige mais do que uma simples observância da Lei. É toda manifestação de cólera que é visada e não apenas aquela que é “sem razão”. Este texto serve ao evangelista para expor, por contraste, o que para ele é a atitude característica dos cristãos quando lhes acontece de sofrer por parte de seus semelhantes. Provoca, no entanto, um certo mal-estar porque o que se segue à descrição da agressão violenta sofrida, aponta na direção de uma conduta de total passividade com respeito aos maus tratos e agressões de toda sorte. O evangelista quer ir mais longe do que gregos e judeus que já souberam proibir a vingança. O enunciado geral que abre a antítese já é impressionante: “Mas eu vos digo de não resistir ao malvado.” E trata-se de relações humanas, onde o malvado não é, por conseguinte, nem o Diabo nem o mal em sentido abstrato. Estes, sim, são potências hostis a Deus, contra as quais o NT manda agir e atuar. É no homem, no ser humano malvado que se deve pensar aqui, aquele cuja má índole produz atos prejudiciais aos outros. O ensinamento aqui visa toda espécie de maldade ativa, à qual o cristão não deveria opor nenhuma resistência, adotando diante de seus perseguidores uma atitude de humilde passividade.

 

 

“A qualquer um que te esbofeteie na face direita, oferece-lhe igualmente a outra”. Mateus é o único a mencionar a “face direita”. Poderia se tratar do fato de que o lado direito é considerado na literatura bíblica o mais digno, o que aparentemente reforça o alcance da injúria. Mais ainda, uma bofetada recebida sobre a face direita deixa entender que o golpe foi dado com o reverso da mão, portanto que é mais doloroso. Segundo a; Mischna judaica, um golpe dado com o reverso da mão exige uma multa dupla em relação a uma bofetada simples (cf. Bava qamma 8,6). Parece realmente que o evangelista quis, por este traço suplementar, mostrar até onde deve ir a paciência. “Aquele que quer te fazer um processo e tomar tua túnica, deixa-lhe também teu manto”. Não se trata de tomar ao pé da letra este ensinamento, senão os cristãos faltariam à decência por fidelidade ao Evangelho, desnudando-se em plena praça pública. A cena significa apenas isto: em lugar de resistir ao aproveitador, conceder a suas reivindicações mais do que ele cobiça, e isto em toda humildade e mansidão. Assim também, o evangelista coloca após estas duas “invasões”dos próprios direitos, a requisição a caminhar com alguém uma milha, que deve ser respondida andando duas. E tanto ao que pede quanto ao que pede emprestado, o cristão deve conceder tudo ou mais do que pedem e nisso encontrar sua alegria. É preciso prestar-se voluntariamente ao serviço imposto. Mais ainda, ir mais além da medida requerida. Após os atos que violam nitidamente a justiça, o evangelista coloca aqueles onde se passa além de um direito real. Cabe ao cristão ultrapassar igualmente a medida, mas no sentido de uma humilde e generosa submissão aos outros. Em seguida, porém, à atitude passiva dos vv. anteriores, o evangelista propõe ao cristão uma conduta ativa: se lhe é pedido tudo suportar e conceder, ele deve ainda amar ativa e dinamicamente todo homem, inclusive aquele que lhe faz mal. O princípio (vv. 43-44) é passar além do amor ao próximo que, segundo a Lei, conserva um sentido restritivo, e a menção do inimigo exprime a antítese sugerida pela frase que lhe dá início (v. 44): “Amai os vossos inimigos”. Porém, de que tipo de amor se trata? Digamos que não tem nada de uma empatia, ou simpatia, uma ternura espontânea, feita de afinidade, a qual seria alias impossível num caso destes. O termo grego usado para exprimir de que amor se trata, o verbo agapan, mostra que este amor deriva de um querer não puramente psicológico, pois a caridade deve exercer-se sob forma de bondade ativa e chegar a efeitos e benefícios concretos.

 

 

O ensinamento, graças a uma palavra técnica - “inimigo”- se generaliza, abarcando toda situação onde o cristão é maltratado, ou mesmo exposto à morte por causa de sua fé. Como o confirma a oposição seguinte (v. 46) entre o “irmão”e o “inimigo”, este não é nem o adversário pessoal, no interior da comunidade religiosa, nem o inimigo da nação no sentido político e militar, mas o perseguidor da fé, o inimigo da comunidade messiânica formada pelos primeiros cristãos. A motivação recalcada pelo evangelista para sustentar tal amor e tal exigência é buscada fora do mundo das criaturas. O motivo apto a sustentar tal conduta é a imitação de Deus mesmo, é o desejo de comportar-se como filho de Deus. Para Mateus, alguém se torna filho de Deus a partir do momento em que começa a praticar o amor aos inimigos, imitando esse mesmo Deus que reparte suas graças e benefícios sobre todos os homens sem distinção. Ser filho de Deus se “prova”na fidelidade e na obediência. E essa conformidade ao querer divino se expressa já na ética judaica sob a forma da imitação da conduta divina, em linha direta com a convicção de ser o homem imagem de Deus. O cristão deve ir além da justiça dos escribas e fariseus. No entanto, deve fazer “a mais”que as categorias pecadoras mencionadas em comparação pelo evangelista. Deus em pessoa por seu exemplo soberano, o chama a um ultrapassar-se constante e sem limite: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”(v. 48). Jesus, o Filho de Deus, arrasta seus discípulos a limites não suspeitados. Pois não propõe apenas uma arte de viver neste mundo, mas uma obrigação positiva, um ministério do amor universal. Neste sentido, vai muito além do próprio dever do perdão: apesar de incluí-lo, a exigência de Jesus de amar os inimigos vai mais longe, rejeitando o que ainda possa subsistir de condescendência mesmo no perdão, indo até esquecer para não mais pensar senão no dom generoso de si, sem nenhum ressentimento e intenção escondida. Trata-se simplesmente de amar, sem jogadas estratégicas de manutenção da paz nas fronteiras da Igreja nem de propaganda para conversão. É, portanto, e sem dúvidas, um amor mais divino que humano , e Jesus quer mostrar - no seu Sermão da Montanha - que é esse o melhor caminho da felicidade pessoal e coletiva. Ainda que leve consigo sua carga de humilhação, e implique o passar por cima do próprio orgulho e mesmo às vezes da própria dignidade.


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