Coluna: D. Eusébio Scheid




Ordenação Sacerdotal

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

Neste mês de junho, tivemos uma ordenação sacerdotal em nossa Arquidiocese, e outra está prevista para julho próximo. Por isso, permito-me tecer algumas considerações sobre a Ordenação Sacerdotal, nome que habitualmente damos à celebração do Sacramento da Ordem que, na realidade, é conferido em três graus: Ordenação Diaconal, Presbiteral e Episcopal. Como envolve muitos elementos, é uma cerimônia longa, de uma beleza sóbria, comovente para nossa fé e nossa vida cristã, emocionando quantos a ela assistem: paroquianos, parentes e, principalmente, os pais do ordenando e o próprio Bispo ordenante.

O rito da celebração obedece a uma seqüência, que se inicia com a entrada do Bispo e sua saudação ao povo. A seguir, tem lugar a Liturgia da Palavra, na qual são lidos textos relativos ao sacerdócio, à missão do padre na Igreja, no mundo e na história, comentados pelo celebrante, na homilia. Depois disso, começa propriamente o rito ordenacional.

Aquele que deseja ser ordenado padre é chamado a se apresentar. Num gesto muito belo e simbólico, despede-se de seus pais e sai do meio do povo, para apresentar-se ao bispo ordenante, no presbitério, dizendo: “Aqui estou”. Esta declaração reflete uma decisão tomada, às vezes, há longo tempo. No meu caso pessoal, esta decisão data dos meus cinco anos de idade, e só fui executá-la aos vinte e oito anos, mas sem nunca desistir daquele “Aqui estou, Senhor”, que continuo reafirmando, ao longo de quase quarenta e cinco anos de sacerdócio. A despedida dos pais implica um sacrifício, uma doação que a família faz de um de seus membros, geralmente dos mais dotados, para o serviço exclusivo da Igreja.

O futuro sacerdote é apresentado ao Bispo por um formador, que informa o nome e o desejo do candidato de receber a ordenação. O Bispo solicita, além disso, os depoimentos de alguns fiéis, que devem conhecê-lo há mais tempo, garantindo a aptidão para assumir a grave função do sacerdócio. As testemunhas constam, normalmente, de familiares e membros da sua comunidade de origem.

A seguir, o Bispo dirige-se à assembléia, aceitando o candidato, para servir definitivamente à Igreja, em nome da Trindade: o Pai, que o chamou, o Filho, em nome de quem ele vai agir como sacerdote, e o divino Espírito Santo, que vai ungi-lo. Diante disto, a comunidade se manifesta, geralmente, com um grande aplauso.

Começa, então, a homilia do Bispo ordenante. Quando estou exercendo esta função, falo apenas para aquele que vai ser ordenado, embora isto envolva toda a comunidade. Aponto para ele o modelo do único sacerdote - Cristo, que nos reveste de seu Sacerdócio. O povo quer ver Jesus, na pessoa do padre, e infeliz daquele que não O torna presente de fato, quando os fiéis mais necessitam. O povo quer ver as mãos ungidas, para ungir outras pessoas: os enfermos, os que são batizados, e os crismandos adultos, que recebem a Iniciação Cristã.

Esta prerrogativa do padre, de ser revestido de Cristo, implica que a sua palavra não seja dele próprio, mas de Cristo. A Ele empresta a sua voz e a sua inteligência, para levar, mais uma vez, a mensagem do Evangelho ao mundo de hoje, adaptada às muitas indagações e carências. Seus gestos reproduzem aqueles que Jesus instituiu e mandou repetir: os Sacramentos, fontes de graça para nossa santificação.

O celebrante dirige-se, novamente, ao candidato, para confirmar sua intenção de abraçar o sacerdócio, com as disposições e renúncias necessárias. A cada pergunta, repete-se a resposta conclusiva: ”Eu quero”.

Chega o momento da grande oração da comunidade. Prostrado por terra, o candidato manifesta o reconhecimento de sua nulidade, fraqueza, pequenez, diante da grandiosidade do ofício que vai assumir. A comunidade se ajoelha e entoa a Ladainha de Todos os Santos. Parece-nos que todos os santos invocados, em procissão, impõem as mãos sobre a cabeça do candidato, em sinal de bênção.

Finalmente, vem o momento central da ordenação, que consiste na imposição das mãos pelo Bispo. Esse gesto vem desde os tempos mais antigos dos Patriarcas, passando por Jesus, pelos Apóstolos e chega até nossos dias. Os padres que ali se encontram, compondo o Presbitério, também impõem individualmente as mãos sobre a cabeça do ordenando. É um momento de muita emoção, no reconhecimento da presença do Espírito Santo. Segue-se a Grande Oração Consecratória, pela qual o candidato é consumado sacerdote para todo o sempre.

Na etapa seguinte da cerimônia, o novo padre reveste-se dos paramentos sacerdotais: a alva, ou seja, a veste branca; a estola, símbolo do poder e da santidade do sacerdócio; por último, a casula, traje próprio para a celebração do sacrifício da Eucaristia. Essa “vestição” é feita por um sacerdote, escolhido pelo próprio recém ordenado, como figura de padre que ele deseja imitar.

Num outro belo gesto, o ordenante volta a chamar o neo-sacerdote para
ungir-lhe as mãos. Tem início a procissão das ofertas, trazidas pelo povo ao altar, para serem usadas nesta primeira Missa, que ele vai concelebrar com o Bispo, logo a seguir. Essas ofertas simbolizam, também, o que o padre vai fazer a vida inteira: repetir os gestos de Cristo, na mesma entrega, deixando-se consumir para o bem do povo. A Missa prossegue na forma habitual, presidida pelo Bispo e concelebrada por todos os padres presentes. O neo-sacerdote celebrará sua primeira Missa solene na próxima oportunidade, após a Missa da Ordenação.

Ao término da cerimônia, o Bispo convida o recém ordenado a dirigir sua primeira palavra ao povo de Deus e dar-lhe a bênção de suas mãos ungidas, agindo, a partir de agora, na Pessoa de Cristo. Seu gesto suscita grande comoção entre o povo. Conclui-se a Ordenação com a bênção do celebrante. Ao final da ordenação, normalmente, agradeço aos pais, pela coragem de acompanhar seu filho nessa decisão, e pela generosidade de oferecê-lo à Igreja.

Já no dia 1º de outubro próximo, teremos novamente a alegria de ordenar 15 novos padres, na Catedral. Convido todo o povo, especialmente aqueles que nunca assistiram a uma ordenação, a se unirem aos familiares e comunidades desses jovens, na ação de graças a Deus pela Ordenação. Neste Sacramento, Cristo os configura a Si mesmo de forma particular, transformando-os nos agentes de Sua Pessoa, Cabeça do Corpo Místico, que é a Igreja.


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