Cultura

O poder transformador da milenar arte teatral

Luiz Paulo Vasconcellos, Luciano Alabarse e Zé Adão Barbosa, reconhecidos profissionais de teatro, foram entrevistados por e-mail, respondendo às mesmas questões. Suas respostas e avaliações, publicadas conjuntamente, embora sejam diversas nas abordagens e enfoques, coincidem na convicção com que defendem o poder humanizador da arte teatral.

Luiz Paulo Vasconcellos nasceu no Rio de Janeiro em 1941. É ator, diretor e dramaturgo. Bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro ( UNIRIO) (1969), com estágio na França (CUIFERD, 1970-71) e Mestrado na State University of New York (1981-83). Professor (aposentado) de Direção e Estética do Espetáculo do Departamento de Artes Dramáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1970-1995). Diretor do Instituto de Artes da mesma Universidade (1977-81) e Coordenador de Artes Cênicas da Secretaria da Cultura de Porto Alegre (1997-2000). Autor do Dicionário de Teatro . Porto Alegre: L&PM Editores, 1987 (5. ed.). Recebeu o Troféu Persona , da Secretaria de Estado da Cultura do RS (1990), o Prêmio Qorpo Santo , da Câmara Municipal de Porto Alegre (1992), o Troféu Açorianos Especial (1993) e de Melhor Ator (2003) da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre e a Medalha Cidade de Porto Alegre (1994) pelos serviços prestados ao teatro gaúcho. Atualmente, assina a coluna de teatro da revista Aplauso .

Luciano Alabarse, há muitos anos em plena atividade, é um dos mais conhecidos e premiados diretores de teatro do Rio Grande do Sul. Desde 1974, ano em que se formou em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) vem dirigindo espetáculos de teatro e música. Detentor de quatro Troféus Açorianos de Melhor Diretor Teatral do RS, distingue-se pela sua predileção por autores densos, textos de estrutura complexa e muito ligados à literatura. Sob sua direção, alguns dos autores gaúchos mais renomados e reconhecidos ganharam sua primeira versão teatral, entre eles, Lya Luft, João Gilberto Noll, Caio Fernando Abreu e Tânia Faillace. Obras premiadas com o Troféu de Melhor Direção Teatral em Porto Alegre: Pode ser que seja só o leiteiro lá fora (Caio Fernando Abreu), Hotel Atlântico (João Gilberto Noll) e Hamleto (Giovanni Testori ). Obras premiadas com o Troféu de Melhor Espetáculo do Ano, dirigidas por Luciano: A história do soldado (Igor Stravinsky), Sentimental Journey (musical com a obra de Cole Porter). Outros espetáculos teatrais: Senhora dos Afogados (Nelson Rodrigues), Reunião de família (Lya Luft e Caio Fernando Abreu), Mulher no Palco (Lya Luft), Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu), O Canto do Cisne (Anton Tchecov), Seis personagens à procura de um autor (Luigi Pirandell), Um beijo, um abraço, um aperto de mão (Naum Alves de Souza), Ivone e sua família (Tania Faillace), Beijo no asfalto (Nelson Rodrigues), O balcão (Jean Genet). Almoço na casa do senhor Ludwig é o primeiro espetáculo de Luciano em excursão nacional. Estreou em março de 2002, no Festival de Teatro de Curitiba. Fez temporada no Teatro Castro Alves da Bahia. Já tem datas agendadas para Recife, São Paulo e interior do Rio Grande do Sul. Luciano Alabarse dirigiu a Coordenação de Artes Cênicas da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, quando implantou o festival Porto Alegre Em Cena , evento reconhecido internacionalmente .


Zé Adão Barbosa, 47 anos, há 25 anos trabalha com teatro, cinema e televisão. Em teatro, foi o Charles Bukowski, de Memory Motel , o Treplev da Gaivota, de Tchekov, o Jerry do Zoológico, de Albee, o professor da Lição, de Ionesco, o Diabo da História do Soldado, de Stravinski, entre outros. Em cinema, foi o cabo/cowboy de O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart, o Caminhoneiro da Estrada, de Jorge Furtado, o Groucho Marx do Mentiroso, de Werner Shünemann, o atendente sádico de O Pulso, de José Pedro Goulart, o Cabo Bento da Noite de São João, de Sérgio Silva, entre outros. Em televisão, fez os especiais Programa de Índio, O Alienista, e Luna Caliente, todos com roteiro de Jorge Furtado, para a Rede Globo, participou da minissérie A Hora do louva-a-deus, de Paulo Nascimento, do episódio Amizade com direção de Kytta Tonetto no projeto Histórias curtas da RBS-TV, do especial Pobre Homem com direção de Saturnino Souza, transmitido pela TVE e na novela Laços de Família, da Rede Globo. É fundador e professor do Teatro Escola de Porto Alegre – Tepa. Também é professor da disciplina de Comunicação, Expressão e Criatividade da Universidade Sebrae de Negócios (Usen).


IHU On-Line - Como estão as “forças teatrais” para enfrentar o século XXI? Considerando a cena internacional, qual é, em linhas gerais, a situação da arte teatral?

Luiz Paulo Vasconcellos - Todos os grandes momentos do teatro, em todos os tempos, coincidiram com momentos de instabilidade política, de superação de modelos, de afirmação de novos modelos. Sófocles [1] , por exemplo, vivia numa democracia que aceitava a escravidão e incentivava um imperialismo que acabou por detonar com Atenas. A época de Shakespeare [2] testemunhava a prosperidade da monarquia inglesa, mas tinha a Invencível Armada nos calcanhares. Tchekhov [3] retratou a nostálgica decadência da aristocracia rural russa, enquanto o proletariado ensaiava seus primeiros passos. Brecht [4] escrevia, essencialmente, sobre as relações de poder num mundo já dividido entre o capitalismo e o comunismo. Acho que esses quatro exemplos são suficientes para identificar o que representa uma época propícia ao desenvolvimento do drama. E hoje, o que nós temos? A queda do muro de Berlim, o fim da utopia de esquerda, a hegemonia de um pensamento único, a impossibilidade de escolha entre o “mauricinho” e o “funk descolado”, o casamento perfeito entre a corrupção e a impunidade, o fim do governo Lula, a ausência de uma alternativa ideológica, enfim, o que afirmar e o que negar em cima de um palco? Nesses períodos, o que resta é o formalismo tentando preencher as lacunas deixadas pela ausência de discurso. Tempos difíceis, sem dúvida.


Luciano Alabarse - É uma pergunta vasta. O teatro internacional reflete a própria fragmentação do homem contemporâneo. Não se pode mais falar de o teatro, mas dos teatros. Há muito, e por mais importância que tenha o texto - ainda um elemento central da criação cênica -, hoje já há teatros que se aproximam celeremente de outras linguagens tecnológicas. Vídeos, projeções, imagens, performances, mistura com artes plásticas, cinema, literatura. Importa para mim o acabamento e o aprofundamento de cada proposta. O teatro brasileiro, que é muito bom na minha opinião, também assimila essas informações, sempre com algum atraso. E o teatro gaúcho com um atraso maior ainda. Mas o que pode ser um aspecto negativo tem lá o seu lado bom: temos um teatro artesanal, singular e próprio. E isso não é pouco.


Zé Adão Barbosa - É complicado falar de cultura em um país que não tem uma educação básica. O teatro ainda é dirigido para um público de elite que busca os espetáculos muito mais pela "mídia" do que por suas qualidades dramatúrgicas, ou a excelência de seu elenco. O público, infelizmente, está se habituando a um teatro inócuo, superficial. Existe também uma crise na dramaturgia. São raros os bons textos de autores contemporâneos. Ou se recorre aos clássicos, ou garimpam-se autores nacionais e internacionais ainda desconhecidos no País. Outro detalhe importante é que Porto Alegre é uma cidade com poucas salas de espetáculos, o que também dificulta a permanência de uma peça por um tempo maior para que ela possa atrair um público específico. Nas grandes cidades, os teatros, em shopping centers, resgataram um público que havia se afastado por questões de segurança. Enfim, não poderia resumir toda a questão em poucas linhas. Na verdade, a situação do teatro no Brasil sofreu boas e más transformações nos últimos anos.


IHU On-Line - Sabe-se que as novas tecnologias estão retirando o público das salas de cinema. Como o teatro pode enfrentar essa mudança no perfil do entretenimento e do lazer?

Luiz Paulo Vasconcellos - O cinema está experimentando hoje, com o vídeo e o DVD, o que o teatro experimentou no século XX com o cinema e a televisão. Felizmente, tudo não passa de entressafras. E entressafra é sempre entressafra. Às vezes, dura gerações, mas passa, porque há valores nessas linguagens que fazem cada uma permanecer única e insubstituível. Há coisa melhor, hoje em dia, do que assistir a um filme em casa, de cuecas, comendo pipoca? Em contrapartida, nenhum telão caseiro, por maior e mais sofisticado que seja, cria o impacto e a luminosidade de uma tela de cinema. Com o teatro, acontece a mesma coisa. De seu, o teatro retém a presença física do ator, fazendo com que ocorra durante o espetáculo uma reação bilateral, o ator estimulando o espectador, o espectador estimulando o ator. E o que dizer do deslumbramento do espectador diante da transformação do ator? Mas, de qualquer maneira, a crise existe e merece ser enfrentada. Como? Repito: com aquilo que cada um tem de seu, de insubstituível. No caso do teatro, além da linguagem, com consistência dramática, com discussão, debate, polêmica. Se me perguntarem o que pesa mais na ausência do público de teatro, se o DVD ou o tédio, eu respondo: o tédio, sem a menor dúvida. A falta de assunto, mesmice, as fórmulas prontas, a auto-ajuda, tudo isso em que se transformou o palco brasileiro. No momento em que – com competência! – o palco for preenchido com os temas que ocupam as manchetes dos jornais – quem sabe se ameniza o problema representado pelo pouco público.


Luciano Alabarse - Acho que o teatro apenas como exceção será uma arte de massas. Cada vez mais, o teatro que importa é a arte de elite. Com isso, quero dizer arte especializada, que pede um público de alma formada, inteligente. Como a música erudita, por exemplo. O teatro como veículo de arte popular para mim não expressa mais a realidade da criação cênica. Como a filosofia, que restringe cada dia mais seu público-alvo, vejo essa tendência. Arte de massa é rádio, televisão, cinema. Teatro é uma experiência estética diferente, e isso não é necessariamente ruim.


Zé Adão Barbosa - É uma tarefa árdua. Precisaríamos, antes de tudo, reconquistar um público que está perdendo o hábito de sair de casa para um evento cultural, ao contrário da música que ainda agrega um grande público, em shows fechados ou abertos. Acredito que a mídia, neste caso, seria de grande ajuda. Porém temos uma imprensa colonizada que foca no que há de mais supérfluo, e o teatro, decididamente, não vende jornal. A mídia paga tem poder, e podemos ver isso em espetáculos comerciais que atraem um público maior, porque contam com um ator de novelas no elenco ou porque consegue um patrocinador que banque um grande investimento na divulgação.


IHU On-Line - Teatro é, predominantemente, entretenimento/lazer ou cultura? Ou essa é uma falsa questão? Qual é o papel da arte teatral em um país em construção, como o nosso?

Luiz Paulo Vasconcellos - Teatro é, predominantemente, arte, mas pode ser também entretenimento, lazer, passatempo ou o que quiserem. Depende de quem faz. Depende de quem vê. Brecht, um autor assumidamente político, afirmou que o teatro deveria ser, acima de tudo, diversão. Claro, divertir (do latim, divertere) significa ver as coisas de outra maneira, diversamente; já distrair (do mesmo latim, distrahere) significa desviar a atenção daquilo em que se está concentrado. Portanto, há quem vá ao teatro para se”divertir”, há quem vá para se “distrair”. É tudo uma questão de escolha. Quanto ao papel da arte, continua o mesmo, em qualquer cultura, em qualquer estágio – ser uma espécie de consciência da sociedade, “religando” os homens em torno de seu próprio jeito de ser, de sua própria cultura, de seu próprio comportamento coletivo. Falsa questão? Frase feita? Utopia? Talvez. Quem sabe?


Luciano Alabarse - Para mim, o teatro que importa é o teatro-arte, o teatro que provoca discussões estéticas. Esse teatro-entretenimento, baseado numa linguagem televisa, às vezes, utilizando-se de pessoas desse meio, é sempre um teatro menor. Pode encher o bolso de alguns artistas e produtores, pode lotar todas as sessões que quiserem - para mim, é uma arte menor.


Zé Adão Barbosa - O teatro sempre será um veículo de transformação social, de discussão, de denúncia. Teatro de entretenimento não existe! O teatro comercial vicia, acostuma mal o público com textos vazios e montagens pobres e inconsistentes. Este público jamais irá se interessar por um Tchekhov, por um Beckett [5] , porque vai achar "profundo demais", quase inteligível. É só retrocedermos alguns anos e verificarmos o papel revolucionário do teatro no período da ditadura militar. Autores como Vianinha [6] , Guarnieri [7] , Plínio Marcos [8] , Dias Gomes [9] e outros "grandes" enfrentavam a situação política com textos virulentos que eram proibidos ou cortados pela censura da época. Neste momento da história, o teatro teve um papel fundamental, e pouco se falava em "teatro de entretenimento".


IHU On-Line - Há uma estética teatral gaúcha/porto-alegrense?

Luiz Paulo Vasconcellos - Não. A colônia é sempre colônia, se emancipa política e economicamente, mas não perde o complexo de inferioridade, ou seja, continua copiando tudo de todo mundo. Pode-se dizer, porém, que Porto Alegre é uma cidade razoavelmente atualizada e do que foi assimilado resultou uma mistura que, a partir dos anos 1970-80, nos deu uma linguagem cênica interessante, diversificada, estimulante e vigorosa.


Luciano Alabarse - Necessariamente, o que se faz aqui traduz uma estética gaúcha. Não só aqui, em qualquer lugar do mundo, qualquer cidade, o número de reais criadores cênicos é mínimo. Não vejo ninguém pesquisando regularmente lendas e tradições gaúchas, mas sempre há quem volte a Qorpo Santo [10] , Carlos Carvalho [11] , Ivo Bender [12] , Julio Conte [13] , para citar alguns dos nossos dramaturgos. O que sinto é que grupos importantes têm a sua estética própria. O Oi Nóis pode ser citado como exemplo, mas se quiserem fazer estética gaúcha no palco é irrelevante. O que fazem é muito bom - em qualquer lugar do mundo. E é isso que importa.

Zé Adão Barbosa - Não. Que eu saiba, não. A não ser quando trabalhamos um texto com influências do nosso folclore.


IHU On-Line - Pode-se dizer que há políticas específicas para o teatro, no País e no Estado? E no caso de Porto Alegre? Elas são eficientes?

Luiz Paulo Vasconcellos - As leis de isenção fiscal – as LICs – agitaram o mercado, se é que se pode falar em mercado em termos de arte. Acrescentaram combustível ao processo de criação. Em Porto Alegre, o Fumproarte [14] , com uma política de financiamento direto, vem cumprindo o seu papel. São Paulo, nos últimos anos, tem apostado numa ação de fomento a grupos de pesquisa, o que Porto Alegre trata de imitar – Eta, província boa!


Luciano Alabarse - O atual Ministério da Cultura que tem um artista no comando é altamente insatisfatório. Não é só uma questão de não ter verbas, como estamos cansados de ler na imprensa por meio dos desabafos do Gil. Não sinto nenhuma política eficiente, nova. Semana passada, li que cancelaram o Projeto Pixinguinha. Toda a verba foi destina ao ano do Brasil na França. Por favor! As políticas públicas que, em algum momento, trouxeram fôlego e novidade, estão com seus modelos esgotados. O desafio é encontrar, na eterna crise econômica e na crônica falta de verbas, a maneira de não baixar ainda mais o nível, dar a volta, sair do marasmo comercial do mercado. Penso que tudo sempre poderia ser melhor. Torço por isso e trabalho para que o quadro mude. Uma aproximação mais real e efetiva com a sociedade pode ser o caminho mais viável para a alteração desse quadro de penúria.


Zé Adão Barbosa - As políticas culturais, tanto municipais quanto nacionais, existem, mas são truncadas e paradoxais. As leis de incentivo não só são de grande auxílio nas produções artísticas, mas também são muito úteis para lavagem de dinheiro e várias outras formas de corrupção. É uma questão delicada.


IHU On-Line - Qual é a relação da juventude com o teatro? Como aproximá-la? Como disseminar o interesse pelo teatro entre os jovens? Estão surgindo novas gerações de dramaturgos, produtores, artistas?

Luiz Paulo Vasconcellos - A juventude brasileira só freqüentou teatro entre 1967 e 1974, mais ou menos, quando os diretórios acadêmicos das universidades federais se politizaram, e o teatro constituiu-se na maior frente de resistência ao arbítrio da ditadura. Antes e depois disso, as crianças assistem ao teatro, quando os pais querem se ver livres delas nas tardes dos fins de semana; e por uma classe média com mais de trinta anos e com uma centelha de lustro intelectual. Aproximar a juventude do teatro significa comprometer essa juventude com um debate estimulante, como decorrência do comprometimento do teatro com a história recente do País. Hoje, há uma juventude que procura oficinas e cursos de teatro na esperança de mostrar a cara nalguma novela da Globo. Mas há exceções, felizmente.


Luciano Alabarse - É impressionante a quantidade de espetáculos que estréiam em Porto Alegre, oriundos de oficinas teatrais. Seus elencos são, predominantemente, jovens. A renovação das gerações é sempre bem-vinda, e o encontro dos veteranos com os iniciantes é uma das coisas mais atraentes do mundo teatral. Quase sempre, quem chega reivindica espaço, quer atenção. E o fazer teatral não é no grito que se conquista. É no trabalho permanente, no estudo contínuo, no aperfeiçoamento do seu instrumento. Então, que venham os novos e que continuem na ativa os veteranos!


Zé Adão Barbosa - O Teatro Escola de Porto Alegre (Tepa), que fundei há dez anos com Daniela Carmona, é a prova viva de que a juventude está, cada vez mais, se interessando pelo teatro. Alguns poucos pelo simplório desejo de virar uma "celebridade". A grande maioria quer buscar, no teatro, o resgate de um potencial criativo e expressivo perdido. Não trabalhamos apenas com atores ou interessados na arte dramática, recebemos também profissionais de diversas áreas que desejam melhorar a sua "performance" pessoal. Acreditamos que, nestes dez anos, formamos um público considerável que encontramos seguidamente em todas as filas de teatro da cidade. Isso para nós é motivo de orgulho, é uma forma modesta, mas eficiente de formação de platéia.


IHU On-Line - Quais as peças montadas ou apresentadas em Porto Alegre, nos últimos doze meses, que merecem destaque?

Luiz Paulo Vasconcellos - Esta é uma resposta absolutamente pessoal, limitada aos últimos seis meses: A Dócil (direção de Nair D’Agostini), Hamlet Sincrético (direção de Jessé Oliveira), Extinção, a possibilidade da morte na mente de alguém vivo (direção de João Ricardo). Todas produzidas em Porto Alegre.


Luciano Alabarse - Dirigi uma Antígona que merece atenção, sem falsa modéstia. Vi Goela Abaixo, que é um bom espetáculo. Roberto Oliveira está dirigindo Qorpo Santo. O Oi Nóis mantém a sua Kassandra em cartaz. Esses espetáculos ensejam discussões teatrais sérias, e por isso são a minha escolha.


Zé Adão Barbosa - Por questões éticas prefiro não nomear trabalhos. Acho que Porto Alegre conta com grandes diretores que ainda buscam um teatro sério, e isso é o que importa. Os "atravessadores" sempre estarão em cartaz com alguma nova bobagem, mas sempre teremos um bom espetáculo para assistir. É importante que o público se habitue a informar-se sobre o autor, o diretor e, até mesmo, o elenco da peça que vai assistir. Isso evitará algumas ciladas...


IHU On-Line - Qual o papel do Porto Alegre em Cena? Quais os aperfeiçoamentos que nele devem ser feitos?

Luiz Paulo Vasconcellos - Um festival é essencial. Coloca a cidade em conexão com o mundo, e o mundo em contato com a cidade, o que, por um lado, estimula a postura de colonizado, mas por outro, é a única ferramenta que permite a superação dessa mesma condição. No frigir dos ovos, o POAemCena é essencial.


Luciano Alabarse - Um festival de teatro é hoje um dos espaços de troca e intercâmbio mais festejados pela classe artística. É a oportunidade de uma comunidade tomar contato com espetáculos que, dificilmente, viriam à cidade em esquema comercial. E o nosso Em Cena cumpre exemplarmente essa função. Como todo o evento que se preze tem que cuidar para não cair na repetição de uma fórmula pura e simples. Cuido para que isso não aconteça. Cada ano a gente continua a querer o melhor para a cidade por meio do festival. Isso se reflete na grade da programação, no interesse dos cidadãos e na cobertura da mídia.


Zé Adão Barbosa - O Porto Alegre em Cena é um dos maiores acontecimentos do teatro gaúcho nos últimos anos. Luciano Alabarse colocou Porto Alegre no cenário Internacional e fez o público gaúcho voltar a acreditar que o grande teatro ainda está vivo. Porto Alegre passou a ter acesso a trabalhos e autores que dificilmente veríamos por aqui.


IHU On-Line - Há crítica teatral merecedora desse nome?

Luiz Paulo Vasconcellos - Não. O modelo jornalístico brasileiro aboliu a opinião pessoal, a crítica. Quanto à crítica ensaística, oriunda dos programas de pós-graduação, esta permanece ilegível, por um lado, porque escrita num jargão pedante e incompreensível; por outro, porque permanece empoeirada nas estantes das bibliotecas especializadas.


Luciano Alabarse - Cada vez menos. E eu lamento muito. A crítica é fundamental para o crescimento dos grupos e dos indivíduos. Por mais que, às vezes, soe injusta e cruel, a percepção crítica honesta é uma bússola da qual não podemos abrir mão.


Zé Adão Barbosa - Infelizmente não. Se existisse, seria uma das nossas tábuas de salvação. O bom crítico serve como um referencial para um público mais desinformado. A crítica tem uma importância fantástica no fazer teatral. É fundamental tanto para os criadores quanto para o público. Os jornais locais não têm o menor interesse pelo assunto, exceto o Jornal do Comércio que conta com o Antônio Hohlfeldt, o nosso único crítico em cartaz! O Luiz Paulo Vasconcellos mantém uma coluna da maior importância na revista Aplauso e é um crítico sério e inteligente.


IHU On-Line - Por que, apesar dos cenários quase sempre adversos, continua-se a fazer teatro e ele persiste?

Luiz Paulo Vasconcellos - Alguém, algum dia, deixou de escrever um poema por causa de um “cenário adverso”?


Luciano Alabarse - Ao recriar a vida em um palco, o teatro se torna insubstituível como forma de expressão artística. Nada me encanta tanto como uma boa peça de teatro. E enquanto houver o que dizer sobre o homem, o teatro tem o seu lugar garantido. Vai haver mudanças contínuas, mas ele estará refletindo todas as conquistas e contradições do seu tempo.


Zé Adão Barbosa - Porque é uma arte maravilhosa que, após dois mil e quinhentos anos, ainda mantém o poder de envolver uma platéia e repensar a vida em toda a sua profundidade. Cada platéia satisfeita representa uma pequena revolução. O público que assiste a um grande espetáculo jamais sairá do teatro da mesma forma que entrou. O teatro é a arte maior que gerou a TV, o cinema e tantas outras. A experiência de assistir a um trabalho ao vivo é única, com os atores ali, na sua frente, inteiros, numa intimidade que nenhum outro evento cultural permite. Talvez um dia, quando este pobre país tiver uma educação digna, tenhamos de volta um público exigente e sedento de um bom produto cultural. O teatro sobreviveu e sobreviverá a todas as crises, e eu não tenho a menor dúvida disso!

 

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[1] Dramaturgo grego. Viveu em Atenas, cerca de 400 anos antes da Era Cristã. Considerado um dos mais importantes escritores gregos da tragédia. Édipo Rei, Antígona e Electra são as suas peças mais conhecidas (Nota do IHU On-Line).

[2] William Shakespeare, inglês (1554-1616). Considerado um dos mais importantes dramaturgos e escritores de todos os tempos Atribui-se a ele autoria de 37 ou 38 peças, das quais destacam-se Antony e Cleópatra, Rei Lear, Hamlet, Otelo, A Tempestade, A comédia dos erros, A Megera domada, Macbeth (Nota do IHU On-Line).

[3] Anton Paolovitch Tchekhov (1860-1904), escritor e dramaturgo russo. Entre as suas peças, destacam-se: O tio vânia , As três irmãs , O canto do cisne , Um trágico à força , Ivanov (Nota do IHU On-Line).

[4] Bertolt Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo alemão, foi um dos nomes mais influentes do teatro do século XX. Sua obra tem um marcado cunho social, procurando estimular o senso crítico e a consciência política dos espectadores (Nota do IHU On-Line).

[5] Samuel Becket (1906-1989), escritor e dramaturgo irlandês. Autor de uma obra bilíngüe (francês e inglês), por vezes designada como “literatura da angústia”, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1969. À espera de Godot é a sua peça mais conhecida (Nota do IHU On-Line).

[6] Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), dramaturgo brasileiro. Foi um dos fundadores do Teatro de Arena e do Grupo Opinião. Destacam—se entre outras, as suas peças Chapetuba F.C., Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come e Rasga coração. Participou da fundação do Centro Popular de Cultura, transformado em órgão cultural da União Nacional dos Estudantes (Nota do IHU On-Line).

[7] Gianfrancesco Guarnieri (1934): diretor, autor e ator teatral brasileiro. Entre seus principais trabalhos estão Eles não usam black tie, Arena conta Zumbi, Castro Alves pede passagem (Nota do IHU On-Line).

[8] Plínio Marcos de Barros (1935-1999), escritor, dramaturgo, diretor e ator teatral brasileiro. Entre as suas peças destacam-se Barrela, Navalha na carne, Jornada de um imbecil até o entendimento e O abajur lilás (Nota do IHU On-Line).

[9] Alfredo de Freitas Dias Gomes (1923-1999), autor teatral brasileiro, conhecido internacionalmente pela sua peça O pagador de promessas. Entre muitas outras, escreveu também O Santo inquérito, Zeca Diabo, Meu reino por um cavalo. Também foi um dos maiores autores da televisão brasileira, para a qual escreveu, entre outras, as novelas, Saramandaia, Roque Santeiro e Mandala (nota do IHU On-Line).

[10] Pseudônimo de José Joaquim de Campos Leão (1829-1883). Escritor gaúcho, considerado precursor do Teatro do Absurdo e do Surrealismo. Sua obra teatral somente foi apresentada na década de 1960 (Nota do IHU On-Line).

[11] Carlos José Gomes de Carvalho (1939-1985): diretor, ator e professor do Departamento de Artes Dramáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Entre as suas peças, destacam-se O pulo do gato, Doce vampiro, PT saudações, Boneca Teresa, Colombo, fecha a porta de teus mares (Nota do IHU On-Line).

[12] Ivo Bender é dramaturgo e professor aposentado de Artes Dramáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Confira entrevista com ele na matéria de capa da presente edição. (Nota do IHU On-Line)

[13] Diretor de teatro e dramaturgo. Nasceu em Caxias do Sul em 1955. Formou-se em Direção Teatral pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ganhou vários prêmios de teatro adulto e infantil. O destaque de sua obra é a peça Bailei na curva (Nota do IHU On-Line).

[14] Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre, vinculado à Prefeitura Municipal (Nota do IHU On-Line). (Fonte: IHU)


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