Educação

ENTREVISTA: Os projetos pedagógico-políticos de Mounier e Paulo Freire

Para o filósofo Balduíno Andreola, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, "contra as deformações alienantes do racionalismo e da superintelectualização da modernidade, Mounier concebe a educação como promoção da pessoa na totalidade do seu ser, enfatizando a afetividade, a liberdade, a transcendentalidade, a comunicação, a autonomia, a liberdade, vista como condição essencial da existência humana". O filósofo criticava, igualmente, a ossificação e mumificação promovida pelos professores universitários ao conhecimento. Apontava o capitalismo como "filho perverso da filosofia racionalista e individualista da modernidade".
Andreola ensina na Escola Superior de Teologia (EST), em São Leopoldo. Já lecionou nas universidades Unilasalle, UCS, UFPEL, PUCRS e UFRGS. Graduado em Filosofia e em Teologia, é mestre em Educação, pela UFRGS, e pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, onde se doutorou em Educação com a tese Emmanuel Mounier et Paulo Freire: une pédagogie de la personne et de la communauté.
De sua produção acadêmica, destacamos os artigos Uma pedagogia política de libertação nas obras de Emmanuel Mounier e Paulo Freire. Perspectiva, Erechim/RS, v. 39, n. 11, p. 39-70, 1986; Influence de la Pensée et du Temoignage de Mounier au Brasil. Bulletin Des Amis D'e Mounier, Châtenay-Malabry, v. 73/74, p. 41-45, 1990; Dimensões pedagógicas do personalismo de Mounier. Revista Brasileira de Filosofia, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 55-75, 1992; Attualitá di Mounier per L'America Latina. Prospettiva Persona, Teramo/Italia, v. 5, n. 15, p. 35-39, 1996.


IHU On-Line - Quais as relações que podem ser estabelecidas entre o pensamento de Paulo Freire e de Emmanuel Mounier?
Balduíno Andreola - Podemos falar em duas categorias de relações: relações de influências e de convergências. As de influências, é o próprio Freire  que as reconhece. Ao falar de pensadores franceses nos quais se inspirou, cita sobretudo Bernanos , Maritain e Mounier. Além das leituras diretas, Freire viveu a influência de Mounier em dois contextos: no Movimento de Cultura Popular (MCP) do Recife, fundado por Germano Coelho, e nos grupos dos católicos de esquerda, sobretudo a Ação Católica e a AP . Às convergências entre o projeto político-pedagógico do personalismo de Mounier e o projeto pedagógico-polítco da pedagogia do oprimido , de Freire, dediquei toda a minha tese de doutorado. O personalismo de Mounier, como projeto político-pedagógico de uma nova civilização, e a pedagogia do oprimido de Freire, como projeto pedagógico-político de libertação, convergem na utopia emancipatória de construção de uma nova civilização, mais humana e solidária.

IHU On-Line - Quais são as dimensões pedagógicas do personalismo de Mounier?
Balduíno Andreola - Sobre esta temática tenho um trabalho publicado na Revista Brasileira de Filosofia (Vol. V, no 1, 1990, p. 55-75). Foi também o tema de minha fala no Colóquio de Paris, no ano 2000, cinqüentenário da morte de Mounier. Contra as deformações alienantes do racionalismo e da superintelectualização da modernidade, Mounier concebe a educação como promoção da pessoa na totalidade do seu ser, enfatizando a afetividade, a liberdade, a transcendentalidade, a comunicação, a autonomia, a liberdade, vista como condição essencial da existência humana. Segundo Mounier, o fim da educação "não consiste em fazer, mas em despertar pessoas"; A educação é "aprendizagem da liberdade", sempre num contexto de comunidade, não de individualismo. Reconciliar a inteligência e o amor era o desejo supremo de Mounier. "Que seja dedicado a uma reflexão sobre o amor um esforço tão considerável como aquele que foi dedicado à reflexão sobre o conhecimento e a fortiori, aquele que se dedicou à invenção tecnológica, tal é a subversão que o espírito cristão deve instaurar na pesquisa" (Vol. 3, p. 594) Contra o acúmulo, o armazenamento (entassement) de conhecimentos, ele defende a cultura como promoção dos valores humanos, na sua totalidade e universalidade. Cabe salientar, ainda, a historicidade, na medida em que Mounier estabelece "o acontecimento" (l'evenement) como "nosso mestre interior". De muitos professores universitários, ele lastimava que não se propusessem outra coisa senão "ossificar, mumificar a realidade, as realidades que lhes são imprudentemente confiadas, e sepultar em túmulos de fichas a matéria do seu ensino".

IHU On-Line - Acredita que a filosofia personalista de Mounier é uma resposta ao niilismo presente na Modernidade?
Balduíno Andreola - Mounier desencadeou um movimento histórico contra todas as formas de niilismo. Tendo sido convidado para o Colóquio Internacional realizado em Roma, no mês de janeiro, em comemoração ao centenário de Mounier, fiquei impressionadíssimo ao saber que lá estavam participantes de 99 países. Outros eventos que eu lembro: em Ragusa, na Sicília, em Strasburgo e em Paris, na França, e, no mês de julho, um grande congresso na Espanha. Mounier, no livro Qu'est-ce que le personallisme, fazia votos de que o personalismo desaparecesse na sombra, depois de ter despertado, num número suficiente de homens e mulheres, o sentido da pessoa humana. Ricoeur , grande amigo de Mounier, falecido há poucos meses, no cinquentanário da revista Esprit, na cidade de Dourdan, discorreu sobre o tema Meurt le personnalisme, revient la personne! (Morre, ou "morra" o personalismo, retorna a pessoa). O primeiro livro dele se intitulou Por uma Revolução Personalista e Comunitária. Mounier, com todo o imenso grupo de intelectuais e mestres da revista Esprit e do Personalismo, como projeto socialista de uma nova civilização, se insere num movimento histórico muito amplo, de outras grandes propostas, que convergem na utopia de uma civilização mais humana e solidária. Toda a obra de Mounier é uma denúncia vigorosa de todas as formas de niilismo e afirmação de sentido e esperança para a existência humana e para a história. Numa de suas cartas, ele proclama: "Eu acredito na utopia, não aquela na qual a gente se evade, mas naquela em que nos projetamos com uma vontade de ferro. Cedo ou tarde, esta força produz o seu fruto" (Oeuvres, vol. IV, p. 828).

IHU On-Line - Em que se constitui a crítica de Mounier à herança progressista da Ilustração e ao totalitarismo pessimista de Marx, Nietzsche e Freud?
Balduíno Andreola - Situando o personalismo, como filosofia, como um dos ramos, na árvore frondosa do Existencialismo (ver o livro dele Introdução ao Existencialismo ), ele procura ir além de todas estas quatro "fronteiras". Seu ponto de partida não é a crítica a estas filosofias, mas a análise da crise de uma civilização decadente. Nenhuma outra crítica de Mounier é tão contundente quanto a crítica ao capitalismo, filho perverso da filosofia racionalista e individualista da modernidade. Quanto aos três intelectuais enumerados, eu diria que, assumindo, embora, posições críticas, Mounier os levou muito a sério. Seu diálogo com os comunistas e com os marxistas em geral, foi crítico, mas muito honesto e respeitoso. Sua leitura da crítica radical de Nietzsche  ao cristianismo deu origem ao livro L'affrontment chrétien. Mounier escreveu que aquele cristianismo criticado por Marx e por Nietzsche, esvaziado de evangelho e comprometido com o status quo e com a injustiça, ele também não o queria. Quanto a Freud, durante os dois anos de clandestinidade, Mounier escreveu o livro Tratado do Caráter, uma obra filosófica, não-psicológica, ou então, uma metapsicologia. Ele se mostra profundo conhecedor da psicologia, mas, sobretudo, um intelectual apaixonado em meditar o mistério da pessoa na riqueza incomensurável de suas possibilidades e na concretude existencial de sua historicidade. Tal mistério, segundo ele, não é redutível a nenhuma concepção que lhe negue a eminente dignidade e transcendentalidade. Mounier foi um homem aberto ao diálogo, em todas as fronteiras do seu tempo.

IHU On-Line - De que forma podemos situar a contribuição de Mounier em nosso país? Suas idéias apresentam alternativas para a crise que atravessamos?
Balduíno Andreola - Em lugar de responder diretamente, prefiro polemizar. Àqueles filósofos brasileiros que consideram Mounier um "filósofo menor", e não o contemplam, na história da filosofia, eu não responderia com Mounier, mas com Marx, lembrando sua famosa tese XI ad Feuerbach: "Até hoje os filósofos se preocuparam em explicar o mundo; são horas de (contribuir para) transformá-lo". Mounier estava tão preocupado com este compromisso histórico, que disse adeus a uma Sorbonne cuja filosofia cheirava a bolor. Uma filosofia que, se "primava pelo rigor do método - segundo Ricoeur - estava, porém, totalmente dissociada dos problemas de seu tempo". Mounier abandonou a universidade e a proposta de um brilhante doutorado, para promover, segundo o mesmo Ricoeur, uma "filosofia extra-universitária". Uma filosofia da ação, da práxis, do engajamento. Num tom mais afirmativo, eu responderia que a contribuição de Mounier continua atual, na busca de alternativas para a crise, na medida em que há muitos, no Brasil e no mundo, que se inspiraram ou se inspiram em Mounier, para estarem na linha de frente, na luta urgente e inadiável, contra as terríveis ameaças de destruição do planeta. Não podemos mais brincar de fazer filosofia apenas para enfeitar nossos currículos. Ernani Maria Fiori citou várias vezes Mounier, na sua memorável defesa oral perante a famigerada comissão de inquérito que o expulsou da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E eu tenho por escrito, espero publicar os depoimentos de dois religiosos, o Padre Paulo Cerioli  e o Frei Sérgio Görgen , os quais declaram, em várias oportunidades, que o fato de estarem na linha de frente, com os pobres, com os agricultores sem-terra, o devem principalmente aos ensinamentos do eminente filósofo e educador Ernani Maria Fiori. Este ano se comemora o centenário de Mounier e também de Médici. 

IHU On-Line - É possível aproximar a filosofia existencialista cristã de Kierkegaard à de Mounier?
Balduíno Andreola - O próprio Mounier faz esta aproximação. No livro Introdução ao Existencialismo, ele coloca Kierkegaard , soberano, no tronco da árvore imensa "dos" existencialismos, salientando assim que ele exerceu influência relevante em todas as correntes existencialistas. Na mesma obra (Oeuvres, vol. III, p. 128), ele declara, em 1947: "O destino dos próximos anos é, sem dúvida, de reconciliar Marx com Kierkegaard". Cabe lembrar ainda que ele escreveu, no livro O Personalismo : "Analisar o movimento da história, numa experiência vivida e progressiva, é o único meio eficaz de dirigir a história. Este é um ponto no qual o realismo personalista se aproxima estreitamente do método marxista de seu esforço de dissociar os problemas históricos do a priori, e de juntar o conhecimento à ação" (Oeuvres, vol. III, p.193). Já é um ensaio de aproximação. O Personalismo, como filosofia, se inspira bastante em Kierkegaard, mas também em Marx, nesta atenção ao movimento da história. (Fonte: Unisinos - www.unisinos.br/ihu )


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