Saúde

Urgência 192: um dia de trabalho do Samu do Rio

Inspirado em um sistema francês, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu, começou a funcionar no Brasil em 2003 graças a parcerias do ministério da Saúde com prefeituras e governos dos estados.

Nesses dois anos, o Samu já foi implantado em 330 municípios brasileiros. No mês de julho último, data do levantamento mais recente, fez cerca de 210 mil atendimentos.

A principal filosofia do Samu é atender ao paciente onde quer que ele esteja – em casa, na rua, no trabalho – procurando amenizar a superlotação das emergências nos hospitais.

O dia-a-dia frenético dos profissionais de saúde que estão na linha de frente deste serviço é revelado nesta série de reportagens feitas pela Agência Brasil e a Rádio Nacional do Rio de Janeiro acompanhando uma manhã de atividade em uma central do Samu no Rio de Janeiro.

Primeira história: médico orienta socorro pelo telefone

Dez e meia da manhã na cidade do Rio. O telefone toca na central do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - Samu 192 - e uma atendente responde ao chamado. Do outro lado da linha, um homem comunica um acidente. Sua irmã, uma jovem de 21 anos, caiu de costas no chão, dentro de casa, e está sentindo dores na coluna.

Após pegar informações sobre a paciente, a atendente transfere, imediatamente, a ligação para um médico, que começa a dar orientações ao irmão da vítima. "Ela consegue se levantar? Ela não consegue se levantar, não? Você vai colocar ela deitadinha aí e vai colocar gelo envolto em uma toalha sobre ela. Você tem algum analgésico ou antiinflamatório aí?", indaga o médico.

O clínico-geral José Franco Lattario é o profissional que orienta o irmão da vítima. Ele é um regulador, como são chamados os profissionais de medicina que trabalham na central telefônica do Samu. Falando com os pacientes pelo telefone, ele tenta dar as primeiras orientações às vítimas de acidentes ou de males súbitos que recorrem ao serviço através do número 192.

Além de dar orientações de primeiros socorros e medicações iniciais, Lattario tem um trabalho de grande responsabilidade, assim como seus outros 34 colegas que se revezam em turnos de 24 horas na central telefônica do Samu carioca. São os reguladores que decidem se será necessário enviar ou não uma ambulância ao local da ocorrência.

No caso da jovem de 21 anos, Lattario decidiu resolver o caso pelo próprio telefone, comprometendo-se a retornar a ligação para a casa da vítima, uma hora depois, para acompanhar a evolução do quadro. Afinal, ele sabe que outros casos mais graves chegarão à central do Samu e é preciso reservar as 63 ambulâncias do serviço, no Rio, para essas ocorrências.

"O que acontece, às vezes, é que somos ‘enganados’. A pessoa liga dizendo que seu caso é algo de muito vulto, mas quando nossa equipe chega no local vê que é apenas uma bebedeira ou uma unha encravada, uma coisa banal", conta Lattario.

Samu pode contribuir para esvaziar superlotadas emergências de hospitais

Contribuir para o esvaziamento das superlotadas emergências dos grandes hospitais cariocas. Esse é o grande desafio do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu/192) da cidade do Rio de Janeiro. O programa, que em todo o Brasil já atendeu 210 mil pessoas, chegou à capital fluminense em junho deste ano.

"O Samu está entrando para tentar ordenar a emergência da cidade do Rio, como a do restante do país", diz o coordenador médico do programa no município, Wellington Morales.

Segundo ele, a cidade do Rio tem uma característica que amplia a importância do Samu: a existência de uma rede de atenção básica precária, que seria composta por postos de saúde que não atendem às necessidades da população.

"O que a população faz? Corre e superlota as grandes emergências. Temos pacientes com problemas que não são crônicos, mas que como não têm outra opção, recorrem a essas emergências. São pacientes com necessidades de pequenos procedimentos, como cortes", disse Morales.

O Samu foi inaugurado no Rio no final de junho deste ano, através de uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Secretaria Estadual de Saúde. Nos três primeiros meses de funcionamento, foram realizados 28 mil atendimentos. O serviço foi acoplado a um outro programa do governo do estado, que existia desde 2004, o Emergência em Casa.

Atualmente, 63 ambulâncias ficam posicionadas em 14 pontos da cidade do Rio, prontas para fazerem os atendimentos médicos. Na central do Samu, que faz os atendimentos telefônicos dos pacientes, trabalham seis tele-atendentes e cinco médicos reguladores.

Morales lamentou, no entanto, que ultimamente, esse aparato tenha sido alvos de trotes. Segundo ele, apenas 40% das ligações recebidas, a cada dia, realmente necessitam de atenção por parte da equipe médica do Samu.

Saiba como funciona o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu)

Através do telefone 192, é possível acessar um serviço que disponibiliza ambulâncias e equipes médicas gratuitamente para a população, em mais de 300 municípios brasileiros. Esse é o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), criado pelo Ministério da Saúde em 2003.

O programa atende aos casos mais variados de urgência, desde atropelamentos até paradas cardíacas, no próprio local onde está o paciente. Os casos mais simples, como dores de cabeça e quedas sem gravidade, podem ser resolvidos por um profissional, chamado médico regulador. É ele que faz o primeiro atendimento pelo telefone.

Para outros casos, o regulador pode optar por enviar uma ambulância ao local. Dependendo da avaliação feita com base nas informações repassada por telefone, ele pode optar pela unidade móvel de suporte básico, que conta apenas com um profissional de enfermagem e um motorista, ou pela unidade de suporte avançado, que tem na equipe também um médico.

Dependendo da gravidade da emergência, a equipe do Samu pode sanar o problema no próprio local ou encaminhar o paciente para um hospital.

Sindicato dos médicos aponta problemas no Samu do Rio

O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Jorge Darze, apontou, em entrevista à Agência Brasil e à Rádio Nacional do Rio de Janeiro, vários problemas no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu/192) da capital fluminense. O sindicalista informou que o programa trabalha com um número insuficiente de profissionais, na central telefônica, para uma grande demanda de atendimento pela população.

Hoje, 35 médicos se revezam em jornadas semanais de 24 horas no Samu do Rio. "Cada médico recebe uma média de 200 ligações por jornada de trabalho. Isso é humanamente impossível. No atendimento que esse médico faz por telefone, ele ainda tem a responsabilidade de abrir um prontuário médico, de ouvir a queixa do paciente e ainda tem que propor a forma de abordagem daquele paciente. Acho isso, do ponto de vista ético, uma coisa absurda. Vamos ter que rever isso", disse Darze.

O presidente do sindicato disse também que a estrutura do Samu no Rio ainda é precária, com condições de trabalho que causariam problemas à saúde dos profissionais da central de regulação do serviço. "É preciso haver uma reestruturação das cabines onde esses profissionais trabalham. Os computadores têm que ter tela de proteção. O ruído no ambiente é muito grande", afirmou.

O coordenador médico do Samu carioca, Wellington Morales, disse que o número de atendimentos feitos pelos médicos não é tão grande. Segundo ele, o Samu chega a receber 900 ligações por dia, das quais 60% são trotes. Portanto, menos de 400 ligações chegariam às mãos dos cinco médicos que trabalham em cada plantão.

Morales também lembrou que o Samu carioca passou, no final de outubro, por um processo de reestruturação de suas instalações físicas, com a reforma das cabines onde os médicos fazem os atendimentos telefônicos e a compra de novos equipamentos, o que deve melhorar as condições de trabalho.

Jorge Darze também criticou o uso de mão-de-obra terceirizada e de profissionais contratados temporariamente. "Se o Samu é um projeto de estado, deveria ser tratado como tal. Deveria ser garantido o concurso público e a contratação com direitos trabalhistas assegurados", disse.

De acordo com a gerente de Recursos Humanos do Samu do Rio, Fernanda Soares, a opção pelos contrários temporários, de seis meses, deveu-se à situação de calamidade da saúde do Rio, que precedeu a implantação do Samu. "É claro que a tendência no futuro é de abrir concurso público. Isso não é uma coisa que pode ir se prorrogando não. Essa situação foi uma coisa emergencial", disse.

Gestor de hospital critica Samu por fazer "reboqueterapia"

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não pode funcionar apenas como um "reboque" de pacientes para os grandes hospitais de emergência. A crítica é do assessor da direção do Hospital Geral de Bonsucesso, unidade da rede federal na cidade do Rio, Julio Noronha.

Ele destacou o pequeno número de equipes do Samu que contam com médicos, na cidade do Rio. Apenas 23 das 63 ambulâncias são de suporte avançado, ou seja, possuem uma equipe com médico, profissional de enfermagem e motorista. As outras 40 são de suporte básico e contam apenas com motorista e técnico de enfermagem.

"O problema é que o Samu tem poucos médicos e faz o que nós chamamos de ‘reboqueterapia’. Em vez de fazer o tratamento na própria casa do paciente, eles trazem a pessoa para os hospitais", disse Noronha, destacando que a direção do Hospital do Andaraí, outra unidade federal, também reclama desse tipo de atendimento.

Segundo o médico, a emergência do Hospital de Bonsucesso tem apenas 35 leitos e, nos últimos seis meses, tem ficado superlotada. Noronha conta que a unidade já recebeu 105 pessoas ao mesmo tempo. "Temos dificuldade de receber pacientes trazidos por qualquer unidade, seja o Samu ou o Corpo de Bombeiros. Às vezes, a gente pede para a ambulância deixar a maca, porque senão a gente fica sem leito para receber o paciente." (Fonte: Agência Brasil)


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