Entrevistas




A confluência da literatura com a filosofia - Entrevista com Joseph Frank

Professor emérito das Universidades de Princeton e Stanford, Estados Unidos, o Prof. Dr. Joseph Frank, uma das maiores autoridades mundiais em Dostoiévski, disse em entrevista exclusiva, por e-mail à IHU On-Line¸ que a influência do autor russo na literatura mundial é indiscutível. “Ele é universalmente conhecido como um dos maiores romancistas que já existiram”, e influenciou pensadores como Lev Shestov, Nietzsche,  Heidegger e Sartre. A execução simulada, seguida de deportação para a Sibéria como pena para a acusação de conspiração contra o czar, foi muito mais importante na trajetória pessoal e intelectual de Dostoiévski do que sua epilepsia, pondera Frank. “Foi depois da experiência da execução simulada que ele começou a ver as questões sociais da sociedade russa em termos religioso-metafóricos, e isso condicionou toda a sua perspectiva posterior”.

Frank é autor de uma biografia monumental sobre o romancista russo, que inclui cinco volumes, quatro deles traduzidos para o português: Dostoiévski: as sementes da revolta. 1821-1849. São Paulo: Edusp, 1999; Dostoiévski: os anos de provação. 1850 – 1859. São Paulo: Edusp, 1999; Dostoiévski: os efeitos da libertação. 1860-1865. São Paulo: Edusp, 2002 e Dostoiévski: os anos milagrosos. 1865-1871. São Paulo: Edusp, 2003. O último tomo, que compreende os dez últimos anos de vida do escritor, pode ser conferido no original, em inglês: Dostoievski. The Mantle of the Prophet, 1871-1881. Princeton University Press, 2003. Frank escreveu também Pelo prisma russo: ensaios sobre literatura e cultura. São Paulo: Edusp, 1992, entre dezenas de outras obras. Recebeu o título doutor honoris causa pelas universidades de Chicago, Adelphi, Northwestern e Sorbonne. Até 1989, foi professor de Literatura Comparada e Línguas Eslavas e Literatura em Stanford.

IHU On-Line – Como surgiu seu interesse em estudar Dostoiévski e o que o motivou a escrever uma biografia em cinco volumes sobre esse autor? Há quantos anos o senhor vem trabalhando nesse projeto?

Josef Frank – Como eu expliquei no prefácio do meu primeiro volume, Dostoiévski: as sementes da revolta. 1821-1849. São Paulo: Edusp, 1999, eu decidi escrever sobre Dostoiévski por causa de meu interesse, muitos anos atrás, pelo existencialismo francês. À medida que eu estudava os existencialistas franceses, descobri a influência de Dostoiévski sobre eles, e então comecei a estudá-lo. Meu primeiro volume foi publicado em 1976, mas claro que eu havia começado a escrever sobre Dostoiévski por volta de 15-20 anos antes.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a importância de Dostoiévski na literatura mundial, depois de 125 anos de sua morte?

Josef Frank – Não há dúvidas sobre a importância de Dostoiévski na literatura mundial. Ele é universalmente conhecido como um dos maiores romancistas que já existiram.

IHU On-Line – Hoje, quais são os autores mais influenciados por Dostoiévski? Como eles “dialogam” a esse respeito? Bakhtin ainda é o maior intérprete?

Josef Frank – A influência de Dostoiévski em autores universais é difícil de constatar, porque ela se espalhou pelo mundo. Um grande número de romancistas se inspirou no trabalho dele e utilizou um ou outro aspecto do trabalho de Dostoiévski para suas próprias finalidades. Não é que eles “dialoguem” com Dostoiévski, mas sim que são inspirados por um ou outro aspecto das suas criações. Um exemplo entre centenas é William Faulkner[1]. Um escritor que muito se aproxima de Dostoiévski nesse sentido de que ele se engalfinha com a fé religiosa é o romancista francês Georges Bernanos[2].  Quanto a Bakhtin[3], sua visão de Dostoiévski é brilhante – mas talvez em excesso. A noção de Bakhtin de que Dostoiévski permite que seus personagens se libertem do autor vai longe demais. Dostoiévski certamente criou personagens inesquecíveis que expressam pontos de vista diferentes daqueles que nós sabemos ser do autor, mas outros elementos nos romances neutralizam seus efeitos.

IHU On-Line – Na filosofia, especificamente, que pensadores mais utilizaram as idéias de Dostoiévski?

Josef Frank – Aqui, novamente, temos uma questão difícil de responder devido à enorme difusão da influência de Dostoiévski. De modo algum ele era um pensador sistemático, mas ele dramatizava as conseqüências morais, como ele as via, da perda da fé religiosa, e assim afetou todo o curso da filosofia moderna, no que tange a essa questão – como tem sido desde Nietzsche[4], que leu Dostoiévski em traduções francesas. Se você quer nomes, eu posso mencionar Lev Shestov[5], Heidegger[6] e Sartre[7].

IHU On-Line – Qual seu ponto de vista sobre a crítica de Dostoiévski com relação ao fenômeno do niilismo russo do século XIX? Dentre seus livros, quais foram os mais emblemáticos na discussão desse tópico?

Josef Frank – Dostoiévski via o niilismo russo não apenas como um movimento político, mas como um movimento que trazia à tona toda a problemática das fundações da moralidade. Isso é o que dá à sua crítica do niilismo russo tanta força e profundidade. Eu acho que seu romance Os demônios é o trabalho no qual ele ataca o niilismo russo mais diretamente.

IHU On-Line – O parricídio é uma metáfora para a dissolução do sagrado e para o niilismo na sociedade russa daquela época?

Josef Frank – A problemática do parricídio realmente aparece em Os irmãos Karamázov; e não existe tal questão em livros anteriores. Mas eu concordo no sentido de que essa obra pode ser lida como uma metáfora para a oposição de Dostoiévski à dissolução do sagrado na sociedade russa. Enfraquecer o sagrado foi realmente uma tentativa de matar Deus – o Pai.

IHU On-Line – Por que o senhor considera errônea a interpretação de Freud sobre a relação de Dostoiévski com seu pai[8]?

Josef Frank – Freud tentou encaixar Dostoiévski em sua própria teoria da importância do complexo de Édipo. Os fatos nos quais ele se baseou, contudo, estavam factualmente incorretos, como eu mostro no apêndice do meu primeiro volume. O que Freud diz sobre o pai de Dostoiévski simplesmente não é verdade. Ele baseou-se em material de segunda-mão em alemão que era incorreto e que ele usou para embasar suas próprias visões.

IHU On-Line – Qual a importância da epilepsia de Dostoiévski para a trajetória intelectual do autor e como isso se refletiu nos tipos de personagens que ele criou?

Josef Frank – A experiência da epilepsia foi muito significativa na vida de Dostoiévski, mas ele a usou apenas uma vez em seu trabalho – em O idiota. Nessa obra, o príncipe Michkin tem um ataque epilético que dá a ele um senso transcendente de harmonia do universo, mas isso é imediatamente negado por seu colapso físico. A epilepsia de Dostoiévski não teve efeito sobre seu trabalho nos anos 1840, e é apenas no príncipe Michkin que ela aparece explicitamente. A doença é sugerida em Kirillov. Foi uma importante experiência pessoal que justificava, se você quiser assim entender, a própria idéia moral de Dostoiévski, mas ele usou-a de maneira muito frugal em seu trabalho.

IHU On-Line – O príncipe Michkin, de O Idiota, foi realmente inspirado em Dom Quixote, de Cervantes? É possível dizer também que Michkin tinha alguns traços da figura de Jesus Cristo?

Josef Frank – Dom Quixote[9] certamente foi uma das fontes para a construção da figura do príncipe Michkin, como o próprio Dostoiévski disse em uma carta, mas ele era contra o tratamento que Cervantes dava a Dom Quixote como uma figura cômica. O príncipe Michkin certamente representa um aspecto do ideal cristão como Dostoiévski o apreendia e podem-se talvez estabelecer algumas analogias entre o Príncipe e Cristo, no sentido de que Michkin desperta a consciência moral de todos aqueles com os quais entra em contato.

IHU On-Line – Mítia, de Os Irmãos Karamázov, não matou seu pai, mas sente-se moralmente culpado por desejar sua morte. Então, Mítia se entregaria para a justiça, em uma espécie de auto-expiação. Como o senhor interpreta o discernimento psicológico da análise de Dostoiévski e qual é sua atualidade em nossa sociedade pós-moderna?

Josef Frank – O que você diz sobre Mítia é bastante preciso. Dostoiévski oferece um retrato magnífico da consciência, lutando consigo mesma, cujo discernimento psicológico não perdeu nada de seu poder com o passar dos anos. Iria alguém sentir-se dessa maneira em nossa sociedade pós-moderna? Esperamos que sim.

IHU On-Line – Em um contexto mais amplo, nós podemos ver os livros de Dostoiévski como autobiográficos? Como pode ser descrita a relação entre seu trabalho e sua vida?

Josef Frank – Existem certamente algumas características que subjazem à obra de Dostoiévski que são biográficas, mas em meu próprio trabalho enfatizo o modo como isso é integrado nas questões mais amplas que dizem respeito à sociedade e política russa. Ele seguiu a evolução da ideologia radical muito cuidadosamente, e a fundiu com elementos pessoais de sua própria vida que ele personificou em seus livros. Se esse aspecto de sua biografia é negligenciado, e ele é interpretado apenas de maneira pessoal, em termos autobiográficos, é realmente impossível entender as bases de seu trabalho.

IHU On-Line – Como a falsa execução seguida da deportação para a Sibéria refletiu-se nos livros de Dostoiévski?

Josef Frank – A execução simulada foi um dos mais importantes eventos na vida de Dostoiévski e teve um efeito fundamental sobre ele. Foi depois da experiência da execução simulada que ele começou a ver as questões sociais religioso-metafóricas da sociedade russa, e isso condicionou toda a sua perspectiva posterior. Na minha opinião, isso foi muito mais importante do que sua epilepsia.

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[1] William Faulkner (1887-1962): considerado um dos maiores escritores norte-americanos do século XX. Em 1949, foi nomeado Prêmio Nobel de Literatura. (Nota da IHU On-Line)

[2] Georges Bernanos (1888-1948): escritor francês, revisionista, de profundo espírito patriótico, novelista e ensaísta polêmico. Dele, confira Diário de um pároco de aldeia. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2000. (Nota da IHU On-Line)

[3] Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975): lingüista russo. Seu trabalho é considerado influente na área de teoria literária, crítica literária, análise do discurso e semiótica. Bakhtin também é considerado como filósofo da linguagem, e sua lingüística é uma "translingüística" porque ela ultrapassa a visão de língua como sistema. Isso porque, para Bakhtin, não se pode entender a língua isoladamente, mas qualquer análise lingüística deve incluir fatores extralingüisticos como contexto de fala, intenção do falante, a relação do falante com o ouvinte, momento histórico, etc. Bakhtin professa uma abordagem marxista da língua e da lingüística, pois para ele “a palavra é o signo ideológico por excelência” e também "uma ponte entre mim e o outro". Alguns conceitos fundamentais de Bakhtin são o dialogismo, a polifonia, a heteroglossia e o carnavalesco. Entre suas obras, destacamos Problemas da poética de Dostoiévski. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1997. (Nota da IHU On-Line)

[4] Friedrich Nietzsche (1844-1900): filósofo alemão, conhecido por seus polêmicos conceitos “além-do-homem”, transvaloração dos valores, niilismo, vontade de poder e eterno retorno. Entre suas obras, figuram como as mais importantes Assim Falou Zaratustra. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998; O Anticristo. Lisboa: Guimarães, 1916; A Genealogia da Moral. 5. ed. São Paulo: Centauro, 2004. Escreveu até 1888, quando foi acometido por um colapso nervoso que nunca o abandonou até o dia de sua morte. A Nietzsche foi dedicado o tema de capa da edição número 127 da IHU On-Line, de 13 de dezembro de 2004. Sobre o filósofo alemão, conferir ainda a entrevista exclusiva realizada pela IHU On-Line edição 175, de 10 de abril de 2006, com o jesuíta cubano Emilio Brito, docente na Universidade de Louvain-La-Neuve, intitulada Nietzsche e Paulo. (Nota da IHU On-Line)

[5] Lev Isaakovich Shestov (1866-1938): filósofo existencialista russo. Emigrou para a França em 1921, fugindo da Revolução de Outubro. Uma de suas principais obras é Kierkegaard and the Existential Philosophy. (Nota da IHU On-Line)

[6] Martin Heidegger (1889-1976): filósofo alemão. Doutorou-se em Filosofia sob a orientação de Edmund Husserl. Em 1933, acontecimentos políticos levaram-no a aderir ao partido nazista e assumir a reitoria da Universidade de Friburgo, cargo do qual se demitiu alguns meses depois. A seus olhos, o que define a ontologia e sua história é o esquecimento do ser como lugar de questionamento. São os temas fundamentais que Heidegger aborda na sua obra máxima, O ser e o tempo (1927). A problemática heideggeriana é ampliada em Que é Metafísica? (1929), Cartas sobre o humanismo (1947), Introdução à metafísica (1953). Sobre Heidegger, a IHU On-Line publicou na edição 139, de 2 de maio de 2005, o artigo O pensamento jurídico-político de Heidegger e Carl Schmitt. A fascinação por noções fundadoras do nazismo. Sobre Heidegger, confira as edições 185, de 19 de junho de 2006, intitulada O século de Heidegger, e 187, de 3 de julho de 2006, intitulada Ser e tempo. A desconstrução da metafísica, disponíveis para download no sítio do IHU, www.unisinos.br/ihu. (Nota da IHU On-Line)

[7] Jean-Paul Sartre (1905-1980): filósofo existencialista francês. Escreveu obras teóricas, romances, peças teatrais e contos. Seu primeiro romance foi A Náusea (1938), e seu principal trabalho filosófico é O Ser e o Nada (1943). Sartre define o existencialismo, em seu ensaio O existencialismo é um humanismo, como a doutrina na qual, para o homem, "a existência precede a essência". Na Crítica da razão dialética (1964), Sartre apresenta suas teorias políticas e sociológicas. Aplicou suas teorias psicanalíticas nas biografias Baudelaire (1947) e Saint Genet (1953). As palavras (1963) é a primeira parte de sua autobiografia. Em 1964, foi escolhido para o prêmio Nobel de literatura, que recusou. (Nota da IHU On-Line)

[8] Opinião de Joseph Frank a respeito da interpretação de Freud sobre Dostoiévski: No capítulo Dostoiésvki e o parricídio, contido na obra Dostoiévski: as sementes da revolta. 1821-1849. São Paulo: Edusp, 1999, Frank considera equivocado o ponto de vista freudiano porque ele teria se baseado em material de “segunda-mão” em alemão, afirmando que o escritor sofria de Complexo de Édipo. Frank desconfia da célebre história de que a primeira crise de epilepsia de Dostoiévski teria ocorrido depois de ele saber da morte do pai, assassinado por servos, os mujiques. Também não dá crédito às especulações de Freud, que, em ensaio sobre a vida do escritor russo, viu nele traços homossexuais, oriundos desse sentimento de ter sido rejeitado pelo. (Nota da IHU On-Line)

[9] Don Quixote de La Mancha: personagem criado por Miguel de Cervantes no livro de mesmo nome. No Brasil, o título do livro é grafado como Dom Quixote de La Mancha. O título original completo era El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha, com sua primeira edição publicada em Madri, no ano de 1605. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola. (Nota da IHU On-Line)

(Fonte: www.unisinos.br/ihu)


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