Coluna: D. Eusébio Scheid

Festa de Todos os Santos

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro


A celebração da Festa de Todos os Santos nos recorda os heróis da Igreja de Cristo, através dos tempos, a começar da santíssima Virgem Maria, dos Apóstolos e dos mártires dos primeiros séculos. Essa ininterrupta sucessão chega até os nossos dias, constituindo a maior glória da Igreja. As biografias dos santos são verdadeiras apologias da veracidade e da historicidade do fato cristão e, ao mesmo tempo, do ensinamento evangélico, que norteou suas vidas, até atingirem o cume da santidade.
A força do Evangelho tem sido capaz de converter sucessivas gerações, porque não se trata de um mero manual de filosofia ou de ética. A Palavra é o próprio Cristo, que se revela, e como que estabelece as balizas para o caminho da santidade, à qual somos destinados, como nos diz São Paulo: “Deus nos escolheu em Cristo, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos” (Ef 1,4).
Os santos são os grandes modelos de como seguir Jesus mais de perto, aplicando, dentro dos diversos tempos e contextos culturais, a prática de imitá-lo no dia-a-dia. A concretude do cotidiano manifesta-se nas coisas, por vezes, aparentemente simples, e, no entanto, heróicas e sublimes no seu conteúdo. Assim, plasmam-se esses paradigmas de espiritualidade, autênticas rotas traçadas sobre os passos de Jesus, tais como são apontados no próprio Evangelho.
Mas não basta olhar para um santo, dentro das circunstâncias de sua época, e com todos os obstáculos que ele enfrentou. É preciso perceber a força que o motivou a empreender esse caminho. Quando a vontade de alguém se submete ao plano do Pai, como a do próprio Jesus, Aquele que é o Senhor da história e de nossas vidas, assume o destino dessa pessoa, pelo poder do Espírito Santo, que Ele envia, juntamente com o Pai. São Paulo viveu essa experiência até às últimas conseqüências, a ponto de dizer: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
Embora seu heroísmo possa parecer, freqüentemente, distante de nós, os santos são nossos irmãos na fé, na esperança e na caridade. Graças a essas virtudes, superaram as vicissitudes da mesma vida diária, comezinha, pesada que nós vivemos, jamais desfalecendo no desânimo. Seguiram sempre o ensinamento de Cristo, especialmente, nas bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12). Estas formam o núcleo de uma vida plena e feliz, onde predominam os valores evangélicos. Por isso, podemos afirmar que o santo é desapegado de tudo que é terreno, ou apegado ao terreno, em vista do eterno.
Os santos sempre praticaram a misericórdia. Quem está na miséria, tanto material quanto moral, precisa de alguém que o eleve desse charco em que se encontra. Aí entra a importância do bom exemplo e, ao mesmo tempo, do auxílio oferecido pela mão fraterna.
A nobreza de sentimentos e atitudes dos santos e santas se manifesta, também, na docilidade e na mansidão. Sem jamais compactuarem com a indignidade e a covardia, sabem afrontar um desaforo, ou até uma ofensa grave sem reagir, a não ser através do perdão e da compreensão. Mas, para isso, é necessária a força do Evangelho e da própria graça do Cristo Senhor, “Santo dos Santos”.
O impulso da graça transforma, fortalece e purifica. Somente assim, alguém pode ser preservado da enxurrada de erotismo e devassidão, a que o pecado tem arrastado o ser humano, em todos os tempos. Entretanto, na sociedade moderna, a ausência de valores objetivos que norteiem a vida das pessoas, dá origem a uma pseudo-moralidade subjetiva, que permite quase que “institucionalizar” a pornografia e o erotismo, em diversos setores da mídia. É, então, que os exemplos de pureza daqueles que nos antecederam brilham como faróis, ao longo de nossa peregrinação terrena.
Quem tenta chegar à santidade sem o Evangelho, não vai consegui-lo. É fundamental seguir os passos de Jesus: “Caminho, Verdade e Vida” (cf. Jo 14,6). Há tantos caminhos, cheios de curvas, de subterfúgios, abismos de evasões... O único caminho de retidão (moral, humana e espiritual) é Cristo.
Ele também é a Verdade. A mentira jamais se coaduna com a santidade. A pessoa santa é sempre veraz, por mais que lhe custe afirmar a verdade, sobretudo numa época como a nossa, em que a mentira se tornou a norma do diálogo e da convivência, como que conatural.
Por fim, Cristo é a Vida, pois vida nunca é estagnação; ao contrário, é movimento e busca de perfeição, tendendo progressivamente para o ideal divino. No arremate de tudo isto, deparamo-nos com o desafio maior: seguindo o Evangelho, a um certo momento, vamos nos deparar com a cruz. É impossível encontrarmos um santo que não tenha sido burilado pelo sofrimento, bebendo daquela “água que jorra até à vida eterna” (cf. Jo 4,14).
Por isso os santos e santas são também, e principalmente, pessoas de oração. A oração é o diálogo de amizade com Deus. É abrir a vida, como portas de par em par, para que Deus possa penetrar, fecundá-la com os autênticos valores, levando-a a florescer para a eternidade. O próprio Cristo rezava noites inteiras. E o que dizer de Nossa Senhora, mediante seu maravilhoso canto de louvor a Deus, o Magnificat? Assim, também, todos os outros santos.
A oração não é um dever; ela é um privilégio, que nos torna aptos a acolher o dom de Deus. Não parte de nós a iniciativa de rezar; ela tem sua origem em Deus, que nos toca e nos impulsiona para a verdadeira oração. A partir daí, formam-se os verdadeiros orantes, pessoas capazes de transformar os impulsos da oração em ações eficazes e perseverantes.
Estes são nossos mestres, porque seguem os passos do Divino Mestre. Conseqüentemente, frutificam nas virtudes e nos atos heróicos. Estas são as riquezas que os santos agregam, como desdobramentos do tesouro de graças, merecidas por Cristo na cruz, e que circulam na Igreja, para a edificação de todos nós. É a maravilhosa Comunhão dos Santos.
Lancemos um breve olhar àqueles que cultuamos em nossos altares. Poderíamos citar inúmeros exemplos, alguns tão famosos e queridos nossos! Mas, em se tratando de encontrarmos os modelos mais próximos de nós, vamos voltar nossa lembrança para os que viveram em nossa terra, como o Beato José de Anchieta, a Santa Madre Paulina e Frei Antônio Galvão. São faróis de eternidade na escuridão do tempo.
Precisamos, de fato, dessa nuvem de testemunhas (cf. Hb 12,1). São nossos exemplos, nossos animadores na busca da perfeição, como imitação de Cristo e resposta ao seu ensinamento de amor e de verdade.
A eles pedimos a poderosa intercessão, para nossas necessidades e para toda a Igreja! 


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