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A Páscoa Judaica e a Páscoa Cristã

Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer

Pessach (do hebraico  פסח, ou seja, passagem) é o nome do sacríficio executado em 14 de Nissan segundo o calendário judeu e que precede a Festa dos Pães Ázimos . O nome Pessach é associado a esta festa, que celebra e recorda a libertação do povo de Israel  do Egito, conforme se encontra  narrado no livro do Êxodo. Corresponde ao que, no Ocidente, chamamos  Páscoa judaica.  O Cristianismo, que nasce no seio da sinagoga judaica, chamou de Páscoa sua maior festa: a que celebra a ressurreição de Jesus Cristo, reconhecido e confessado como Messias e Filho de Deus, do poder da morte para a vida que não termina. A Páscoa judaica e a Páscoa cristã têm muitas diferenças, mas também muitos pontos em comum.

De acordo com a tradição judaica, a primeira celebração de Pessach ocorreu há 3500 anos, quando de acôrdo com a Torah – a Lei de Deus – o Senhor enviou dez pragas sobre o povo do Egito. Antes da décima praga, - que seria a morte dos primogênitos das famílias egípcias -  Moisés  foi instruído pelo mesmo Deus a pedir que cada família hebréia sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais (mezuzót) das portas, para que seus primogênitos não fossem exterminados.

Chegada a noite, os hebreus comeram a carne de um cordeiro sem mancha, acompanhada de pães ázimos e ervas amargas. Depois,  um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogênitos egípcios, desde os primogênitos dos animais até mesmo os primogênitos da casa do Faraó. Então este, temendo ainda mais a Ira Divina, aceitou libertar o povo de Israel para adoração no deserto, o que levou o povo ao Êxodo que o levou à liberdade e a sua constituição como povo.Como memória  desta libertação, e do castigo de Deus sobre o Faraó foi instituído para todas as gerações de judeus a obrigação de celebrar a festa de Pessach para rememorar o que Deus fez em seu favor.

            Pessach portanto significa a passagem, porém a passagem do Senhor através de seu mensageiro, o anjo .  Posteriormente foi agregado a esta concepção a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho que confirmou sua libertação.  Até hoje os judeus celebram  esta festa que  evoca os preciosos símbolos que a história da libertação do Egito traz à memória e à história: liberdade, justiça, reinício do ciclo da vida.

            A festa cristã da Páscoa tem origem na festa judaica, mas possui um significado diferente. Enquanto para o Judaísmo, Pessach representa a libertação do povo de Israel do Egito, no Cristianismo a Páscoa é a festa maior que celebra a morte e ressurreição de Jesus Cristo, assimilando também diversos elementos alegóricos de morte e renascimento representados pela transição do inverno-primavera que ocorre neste período no hemisfério norte; ou pelo ovo símbolo da vida, ou pelo coelho, símbolo da fecundidade e abundancia de vida.

            Nada haveria acontecido e nada haveria a celebrar se não fosse essa passagem do Senhor, ao mesmo tempo assustadora e alumbradora na vida do povo de Israel e na carne torturada e assassinada de Jesus de Nazaré.  Foi por esta apertada e apressada passagem que o povo eleito conheceu a liberdade e também conheceu mais ao seu Deus. No duro aprendizado do deserto, este mesmo povo aprenderá que não há que ter saudades da falsa abundancia da escravidão, com panelas cheias de cebola e carne.  Pelo contrário, há que alimentar-se do escasso maná, dado por Deus segundo a necessidade de cada dia enquanto se caminha rumo à verdadeira liberdade e plenitude.

        Os primeiros cristãos viram no mistério pascal de Jesus Cristo novo Exodo e nova Páscoa.  Na pessoa do Nazareno inocente e condenado pelos poderes deste mundo enxergaram a salvação, a passagem do Senhor que enfim manifestava o seu Dia.  Era cumprido o Tempo e a salvação enfim se fazia presente sobre a história.  O Senhor voltaria novamente em plena glória e enquanto tal havia que esperá-lo vivendo o amor até as últimas consequencias.

        No entanto, com o passar do tempo, a comunidade cristã foi compreendendo que essa revelação ainda tinha muito a ensinar.  Com a Ressurreição do Crucificado, Deus seu Pai dissera sua última palavra sobre aquela vida feita só de amor e humilde serviço.  A morte não tinha mais poder sobre ele.  E a partir dele, não teria mais poder sobre nenhum homem e mulher vindos a este mundo. 

            Porém, a Paixão ainda não terminara no seio da história.  Enquanto a criação inteira se contraía com a dolorosa expectativa da mulher que vai dar à luz e em meio a suas dores pre-sente a esplendorosa alegria do alumbramento do parto, continuava a haver sofrimento no mundo.  Lutas de poder no interior da comunidade, perseguições de toda sorte por parte das mais diversas instâncias.  A luz trazida pela passagem de Jesus da morte para a vida pelo poder de Deus brilhava através e apesar das trevas que ainda continuavam com paciência termital seu trabalho predatório sobre a vida e a humanidade.

            Por isso o grande Paulo de Tarso ensinará às comunidades por ele fundadas e amadas com paternas entranhas que é preciso vigiar.  O Ressuscitado ainda está crucificado toda vez que a vida é machucada e a injustiça parece ganhar terreno.  A vitória já está alcançada mas ainda não se manifestou em plenitude.  E enquanto isso é preciso ter os rins cingidos, as sandálias aos pés e o cajado à mão. E deixar-se possuir pela urgência e pela pressa.

            Urgência de fazer avançar o Reino de Deus através do conflito e da dor.  Pressa de fazer acontecer o amor sobretudo ali onde o desamor parece haver conseguido seu maior avanço: na pobreza, na injustiça, na violência, na exclusão.  Mas em meio à pressa e à urgência, coração alegre e esperançado.  Pois o Senhor passou e passa.  Passou em meio ao povo cativo levando-o do cativeiro à libertação. Passou no corpo e na vida de Jesus de Nazaré suscitando-o da morte à vida.  Passa e passará em nossas vidas levando-nos da noite escura da injustiça, da violência e do vazio à alegria luminosa que vem do amor feito serviço e lava pés aos irmãos oprimidos no rosto de quem brilha o rosto do Ressuscitado.

            Por isso a celebração da Páscoa, entre judeus ou cristãos, é a festa da vida e da alegria ,mas também da urgência.  Urgência de viver no respeito e não apenas na tolerância às diferenças que marcam as diversas identidades.  Indignação e prática amorosa diante das enormes desigualdades que aprisionam e desumanizam sociedades inteiras. 

          Urgidos pela pressa de construir o Reino e cientes que não seremos livres enquanto outros permanecerem escravos de corpo ou de alma, cantemos Aleluia! É nosso dever e nossa salvação, pois Deus passou e libertou seu povo; passou e ressuscitou seu Cristo dentre os mortos e nada mais poderá separar-nos de seu amor.Uma muito Feliz Páscoa para todos!

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

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