Coluna: Luiz Eduardo Soares




O Pensamento de Richard Rorty e seu exemplo de vida[1]

Luiz Eduardo Soares

            Por ocasião do falecimento de um dos maiores filósofos de nosso tempo, compartilho, em homenagem à sua memória, lembranças e algumas breves reflexões. Tive o privilégio de estudar com Richard Rorty por aproximadamente dois anos, em 1995/6, na Universidade da Virginia, cumprindo meu pós-doutorado em filosofia política. Eu havia encontrado sua obra em um momento de profunda crise pessoal, de natureza política e intelectual. Eu era professor universitário e pesquisador havia já mais de duas décadas e meu caminho me conduziu, no início dos anos 1980, à recusa radical dos dogmatismos. Por outro lado, o relativismo antropológico e filosófico também levavam a graves impasses éticos e políticos.

Ou seja, o relativismo era necessário mas inaceitável. Como compatibilizar o ceticismo cognitivo com compromissos éticos e políticos, sem mergulhar em um subjetivismo arbitrário? Como recusar a metafísica positivista dominante, sem render-se ao irracionalismo, sem renunciar à crítica? Como manter-se fiel ao espírito libertário, herança de minha geração pós-1968, assumindo plenamente as virtudes da democracia, com suas limitações institucionais? Como articular liberdade e justiça?

A obra de Rorty abriu para mim, como para tantos, em todo o mundo, um horizonte extraordinário. Seu pragmatismo liberal-crítico, seu anti-essencialismo libertário, mas dialógico e democrático, mostrou um caminho riquíssimo. Para minha vida pessoal e profissional, foi também decisiva sua aposta na literatura, no cinema, no jornalismo literário, na etnografia como as formas mais potentes na construção de um consenso global mínimo em torno dos valores da paz, da justiça e da liberdade. O século XXI seria a era da construção dialógica de valores a partir da disseminação de empatia humana, para além de fronteiras e nacionalidades.

Nesse contexto, os “Tratados Filosóficos”, que marcaram os últimos três séculos, tenderiam a dar lugar à produção de histórias de vida, capazes de sensibilizar a opinião pública para o sofrimento alheio e mobilizar as sociedades para a única finalidade que vale a pena: reduzir o sofrimento humano. Voltei ao Brasil, em 1997, disposto a retomar o tema da violência, ao qual vinha me dedicando havia cerca de dez anos, mas não mais apenas pela via de pesquisas acadêmicas. Decidi meter a mão na massa e nos vespeiros, aprender com os erros, errar de novo, conviver com os outros, escutar sem julgar, compreender o abjeto, e escrever livros sujos dessa matéria impura e fértil. Rorty esteve presente em tudo o que fiz. Se algo tiver sido útil, que sirva de homenagem à sua memória. De Virginia, onde estive, a Nova Iguaçu, onde estou, corre uma linha sutil que assinala alguma coerência: a inspiração de Rorty.

Dick, como insistia em ser chamado pelos amigos, era uma pessoa surpreendente: de uma simplicidade franciscana e uma generosidade comovente. Quando convivemos, ele já era uma celebridade mundial. Convites choviam de todas as partes do mundo. Ele se mantinha sem afetações, aberto aos questionamentos, leitor voraz, atento aos pequenos detalhes que distinguem a delicadeza nas relações humanas. Na universidade de Virginia, ele não estava lotado em nenhum Departamento. Ele era um Departamento, por assim dizer. Oferecia os seminários que queria, como e quando preferisse. Mesmo assim, trabalhava da manhã à noite, atendendo a quem o procurasse, dando cursos sucessivos, admitindo a demanda mais diversa, sem preconceitos ou restrições elitistas –ainda que não abrisse mão do rigor na reflexão. A liberdade de pensamento contagiava sua prática. Por outro lado, nunca admitiu ter uma secretária ou um auxiliar. Fazia questão de ir, pessoalmente, ao correio e ao banco, enviar a correspondência e pagar as contas.

Seu socialismo libertário e democrático vinha de berço e se manifestava nos pequenos gestos, não só nas grandes idéias. Com seus pais, trotskistas e sindicalistas, aprendera a valorizar o movimento dos trabalhadores. Mas herdaria, da experiência do movimento socialista internacional, o horror ao stalinismo, que se estendia às vertentes que apenas na aparência lhe seriam opostas. Filho único, brilhante e devotado aos livros, saltou por méritos acadêmicos, antes dos vinte anos, dos bairros pobres para as melhores universidades do país. Insistia em se classificar como um liberal, no sentido americano do termo, ou um social-democrata libertário, como às vezes dizia.

Acompanhar seus seminários e visitar sua casa significava conviver com intelectuais de todas as partes do mundo, formados nas mais diferentes disciplinas. Rorty, sempre com sua companheira Mary, cultivava o hábito de enviar dezenas de livros aos amigos pobres da Europa do Leste ou da África, todo mês, às suas próprias custas. Abrigava, por vezes, os estudantes sem recursos em sua casa. Fazia de suas viagens internacionais um meio de incentivar os que lutavam por liberdade e por justiça, escolhendo os convites que mais se adequassem a esses propósitos e jamais aceitava pagamento quando dava palestras em países pobres. Se insistissem em lhe pagar, dava um jeito de repassar o dinheiro a alguma instituição do país. Nem por isso fazia concessão à retórica ideológica fácil.

Digo isso, cometendo talvez uma inconfidência, sublinhando que Rorty seria inteiramente avesso à divulgação dessas posturas pessoais, que ele consideraria matéria estritamente privada, que nada teria a dizer a respeito de sua obra. Além disso, ele nunca foi ingênuo, nem supôs que esse pequeno socialismo privado pudesse substituir a política, arte e prática que ele sempre respeitou, profundamente. Refratário a toda forma de autoritarismo e dogmatismo, recusava os rótulos, sobretudo o de pós-moderno ou relativista, preferindo, provocativamente, identificar-se com a tradição pragmática norte-americana, o que produzia efeito subversivo sobre os mapas filosóficos contemporâneos. 

Considerava a democracia liberal de tipo social-democrata superior às ditaduras, mas não acreditava que sua escolha pudesse fundamentar-se exclusivamente na razão, com R maiúsculo, porque as razões são cultural e historicamente moldadas. Essa superioridade teria de ser construída na prática do discurso e da política, no sentido de que demonstrá-la deveria constituir um objetivo a atingir e não um pressuposto a descortinar. Nada menos relativista. Os Direitos Humanos, por exemplo, não são uma exigência da razão ou da natureza humana, mas um projeto a ser construído. Esse zigue-zague driblava expectativas e embaralhava classificações.

Quem imaginaria Dewey e Pierce ao lado de Nietzsche, Heidegger e Derrida, em confronto com Kant e a filosofia analítica neo-positivista? Rorty, em sua timidez, em sua sisuda introspecção, foi performático e subversivo, porque, definindo-se como “pragmatista”, herdeiro de Dewey e Pierce, desconcertou certezas que estabeleceram fronteiras entre linhagens filosóficas e políticas. Rorty misturou as linhas, aboliu divisões, redesenhou laços de parentesco filosófico-político, e acabou por derrubar o muro que separava, intelectualmente, os EUA da Europa. Rorty sofria muito com os descaminhos da América de Bush.

Mesmo assim, como Al Gore, recusou-se a colocar em risco a institucionalidade democrática quando se ensaiou, em 2000, um movimento contra o resultado eleitoral e a Suprema Corte, em função da contagem suspeitíssima na Florida, que dera a vitória ao republicano. Para Rorty, os intelectuais liberais e progressistas americanos teriam perdido o rumo quando, no embalo da oposição à guerra do Vietnam e depois de seu fim, aderiram ao anti-americanismo, afastaram-se dos movimentos sociais e da política real, cortaram vínculos com a opinião pública e se enquistaram nas universidades. Nesses guetos luxuosos, longe da sociedade e de suas dinâmicas, a esquerda americana passou a confundir a radicalidade da retórica com engajamento político. Rorty estava convicto de que era preciso voltar a conectar-se com as grandes correntes da opinião americana para retornar à política real, porque apenas aí conquistas sociais, na direção de mais justiça e mais liberdade, seriam possíveis. Por isso, voltou a valorizar o patriotismo americano, justamente para encontrar, nas raízes democráticas de sua tradição, o maior e mais eficaz antídoto ao veneno da era Bush.

            Há um aspecto muito interessante no processo que redundou na ruptura de Rorty com o cientificismo da filosofia analítica e com sua redescoberta do pragmatismo norte-americano e da filosofia continental européia. Rorty me contou que se sentia muito mal nos departamentos de filosofia que freqüentou, mesmo sendo tão competentes e celebrados. Sentia-se como que paralisado. Não escrevia. Sobretudo, parecia amortecido, anestesiado, sem imaginação, impotente. As energias se gastavam nas eternas e inúteis disputas bizantinas. Arrogância, onipotência, dogmatismo, autoritarismo pareciam marcar a atmosfera da cultura acadêmica –o avesso dos valores supostamente cultuados nas universidades. O saber que se pretendia mais agudo, verdadeiro e criativo servia a que economia de poder? A que enrijecimento psicológico? A que produção de sofrimento alheio? Nesse momento, seu casamento naufragava e uma Tsunami o arrastou à psicanálise, da qual ele saiu renovado. Outra oportunidade de inventar-se e construir uma identidade e uma história para si mesmo, com outro enredo, outras referências, outro prazer, outras possibilidades. Sempre me pareceu que estava aí a origem do insight mais importante: nós não somos comandados por nossa natureza ou por uma essência qualquer; podemos recriar nossa existência, respeitando condições e limites. A lição vale para o indivíduo e a sociedade. O que somos é contingente; somos finitos, imperfeitos, desnecessários. Por outro lado, essa precariedade é também liberdade e possibilidade de mudança. Podemos ser um projeto que valha a pena. Rorty saiu da psicanálise para outro casamento e uma outra vivência da prática intelectual, aberta, arejada, poliforme, criativa. O amor que viveu com Mary, nesse novo contexto, e as relações com os filhos, com as orquídeas, os pássaros e a literatura, iluminaram sua vida. Ele transformou-se na Tsunami que antes o levara à depressão. Produziu, desde então, muitos livros e um número imenso de artigos. Interveio em mil e um debates. Tornou-se necessário. Indispensável. Não era sua essência, nem seu destino; mas foi sua virtude. Nesse sentido, sua vida parece fundir-se à filosofia pragmatista tal como a reinventou.

 

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[1] Parte desse artigo, sob a forma de entrevista concedida a Miguel Conde, foi publicada em Prosa e Verso, Caderno cultural de O Globo, em 16 de junho de 2007.

 

 Luiz Eduardo é Antropólogo e Cientista Político, professor da UERJ e da UCAM; ex-secretário nacional de segurança pública e ex-cordenador de segurança, cidadania e justiça do Rio de Janeiro.  Co-autor dos livros "Cabeça de Porco", e "Elite da Tropa" pela Editora Objetiva e autor do Livro "Legalidade Libertária" pela Lumen Júris. Atualmente ocupa o cargo de Secretário Municipal de Valorização da Vida e Prevenção da Violência, de Nova Iguaçu.


 


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