Sheikh On-line

Pergunta:
Boa tarde Padre, sua bênção. Não sei se esse é o meio adequado para o que pretendo, mas tenho no peito uma grande mágoa com o clero da Igreja. Participo ativamente da Igreja, na minha comunidade e já houve épocas em que praticamente anulava a minha vida nos afazeres na Paróquia. Sabe aquela coisa de muita coisa pra pouca gente. Mas isso foi mudando diante do comportamento de alguns padres, principalmente o pároco da minha comunidade que cheguei a me afastar totalmente. Só retornei porque entrou um novo padre, um senhor bem humilde e me resgatou. O que acontece com o clero hoje? Cadê a vocação de servir. Já disse a mim mesmo muitas vezes que gostaria de ser padre para mostrar como deve ser feito. Sei que os padres são como nós e tem o direito de viver, mas hoje parece que o sacerdócio virou uma profissão e não vocação. Os padres de hoje querem ostentação, se colocam num trono e a comunidade é que se vire, com todo o respeito a sua pessoa, pois não o conheço. Não generalizo. Sou da diocese de Santo Amaro e já presenciei situações de fiéis, assíduos na Igreja terem pedidos lícitos rejeitados, puramente por má vontade ou preguiça dos padres. Aí abrimos a revista e vemos Dom Fernando e Padre Marcelo Rossi, os dois maiores na casa do Felipe Massa batizando o filho dele. Isso uso como exemplo. Pra conseguirmos algo temos que ter prestígio ou dinheiro. Vai uma senhorinha dizimista pobre pedir a presença de um dos dois para benzer sua casa...Nem o Padre local vai, imagine eles. Porque isso? Porque aqueles mais amados por Jesus estão sendo os últimos. O que acontece com o clero hoje? Desculpe o desabafo, mas isso tem me afastado da Igreja. Eu tinha a natureza de ser obediente aos padres, mas isso morreu em mim. Eu que defendia tenho criticado. Entrou um novo padre na minha Paróquia. Ele é novo e começa um receio em mim, pois já crio aquele bloqueio de que ele seja mais uma estrelinha...Já não consigo me dedicar como antes, pois cansei de ficar trabalhando na Paróquia, junto a outros irmãos, enquanto o Padre ia fazer rafting, ecoturismo, etc...e nem eram suas férias. Até acho que eles tem direito a isso, mas demonstre algum amor pela Paróquia e pela comunidade e trabalhe conosco, pelo menos para demonstrar que estamos juntos. Me vejo numa empresa onde o padre é o chefe, não faz nada, e os fiéis os empregados. E olha que não recebemos nada. Não digo isso de um único padre, mas de vários que tenho conhecimento. O pior é que nem age como padre. Recusa visitar as casas, atender alguns chamados ou até na própria paróquia. Só com horário marcado e após triagem. Enfim, aqueles que imaginei estariam para servir, querem apenas ser servido. Fazer o que lhe convéem e agrada. Desculpe padre, mas estou bem chateado e pensando seriamente em trabalhar. Tem outros irmãos com o mesmo sentimento. Obrigado por ouvir.



Resposta:
Caro Júlio, Você não acha que generaliza demais, ao falar dos "padres" ou do "clero"? Porque existem padres e padres. Nunca conheceu algum que se dedicasse plenamente e com entusiasmo ao seu ministério? Lembro-me de dois que se cruzaram na minha vida e que me deram um exemplo fantástico: O Pe. João Bosco Burnier, assassinado pela polícia no Mato Grosso, por tentar defender umas mulheres que estavam sendo torturadas. Foi meu professor de português, quando cheguei ao Brasil, em 1958. Tímido, pacato, cobrou coragem, quando entrou em contato com a dura realidade do interior brasileiro. Realmente, deu a vida pelo próximo. Um outro exemplo foi o de D. Luciano Mendes de Almeida, para mim, a caridade personificada. Dava tudo, se interessava por todos, atendia a todos com o seu eterno sorriso. Deixou uma lembrança inesquecível. Mesmo nos nossos dias, conheço um bom número de padres dedicados, desinteressados, anônimos que dão um magnífico exemplo de vida. Ponhamos um outro exemplo, o Papa Francisco. Eu o conheci quando era muito novo, em 1974. Que exemplo de desprendimento e amor eu e está dando à Igreja! É claro que também há os que não cumprem com a sua vocação. Não me atrevo a dizer se são muitos ou são poucos. Deus sabe. Como também há leigos que dão um testemunho impressionante e outros que claramente contradizem com suas obras aquilo que proclamam com suas palavras. Como diz a Constituição Lumen Gentium, do Concíliio Vaticano II, a Igreja, santa e ao mesmo tempo reunindo em seu seio os pecadores, exercita sempre a penitência e a renovação. Entre esses pecadores me incluo. Por isso, porque sou consciente das minhas falhas e pecados, não me atrevo a julgar ninguém. Quando vejo algo de errado, mesmo entre padres, sempre me pergunto se, ao corrigir, se pode esperar alguma mudança. Se essa esperança existe, faço a admoestação. Se não vejo tal esperança, procuro dar testemunho da caridade cristã através da paciência. Isso é que você se poderia perguntar: o que é mais conveniente para eu poder dar um testemunho cristão autêntico? Não justifique as suas faltas com as faltas dos outros. Seja coerente consigo mesmo. Não seja com os outros mais exigente do que consigo mesmo. Em fim, meu caro Júlio, é bom ser consciente das falhas, mas é ruim olhar só para elas. Com amizade, Pe. Jesus Hortal, S.J.