Jesus Cristo

O rico e o pobre: perdição e salvação

Gilda Cavalho
gilda@dctch.puc-rio.br

Jesus falava por muitas parábolas. Uma ocasião, no meio dos fariseus, contou-lhes a seguinte: havia um homem muito rico que se vestia finamente e promovia banquetes extraordinários. À porta da casa desse homem, vivia um pobre, chamado Lázaro, que nada tinha para viver; passava fome e seu corpo era coberto por feridas. Nem as migalhas que caía da mesa do rico lhes eram dadas para comer. O rico morreu; o pobre, também e foi levado para o Reino de Deus, junto de Abraão. O rico, da região de tormentos em que se encontrava, via o pobre junto a Abraão e gritava, pedindo piedade. Mais: diante do calor que o consumia, pedia que Abraão mandasse o pobre molhar a ponta do dedo e que viesse até ele para refrescar sua língua. Mas Abraão negou seu pedido: em vida, o rico nada tinha feito pelo pobre e este só encontrou sofrimento e dor. Agora, era a vez dele ser acolhido junto ao Pai e Nele encontrar seu consolo. Entre o rico e Lázaro havia um grande abismo. Mas, o rico insistia: que Abraão então mandasse Lázaro à casa de sua família para preveni-la, e Abraão tornou a negar-lhe o pedido: que eles acreditassem nos profetas! O rico sabia que seus parentes não acreditavam nas palavras dos profetas, mas, quem sabe se fossem palavras ditas por alguém ressuscitado dos mortos... Porém, definitivamente, seu pedido foi negado.

A moral da história contada por Jesus é muito mais profunda que simplesmente acreditarmos que todos os pobres serão salvos enquanto que todos os ricos terão o inferno como fim. A riqueza e a pobreza que Jesus nos fala aqui não é somente o que se refere às condições materiais da vida humana. Jesus nos fala da riqueza e da pobreza do coração.

Deus não condena a riqueza em si, mas a faculdade que a riqueza tem de fazer com que o rico se feche e não consiga perceber a necessidade dos demais. Deus não quer uma humanidade de pobres; ao contrário, deseja todos ricos. Todos, sem exclusão! Portanto, o rico da história contada por Jesus conquistou o inferno não por sua condição de rico, mas porque havia em sua porta – ou seja, em um local onde todos os dias ele passava sem sequer dar conta – um pobre e ele nada fez por aquele irmão.

Nas condições de distribuição de renda que vivemos hoje, onde ricos são cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres, causa desalento a perspectiva distante de transformarmos nossa sociedade em um mundo igualitário. A ganância, o poder, o ter em detrimento do ser são valores totalmente disseminados entre nós como positivos e até necessários para sobrevivência. Esquecemo-nos cada vez mais dos valores evangélicos: deixar a cada dia a sua preocupação, deixar que Deus proveja nosso sustento, amarmo-nos uns aos outros... Enfim, valores muito distantes de um mundo consumista e hedonista.

Como é atual história que Jesus nos conta! Através dela podemos descobrir que não é o fato de ser – ou viver como – pobre que nos salvaremos. Muitos vivem real pobreza material, mas têm coração de ricos tamanho o orgulho, o comodismo, ou, ainda, o egoísmo em que vive. Mas, a imagem do rico no inferno, deve nos fazer refletir sobre nossa capacidade de amar: quanto maior esta for e nos possibilitar um real encontro com o outro, mais seremos capazes de entender a plenitude de amor vivida no Reino de Deus. Quanto maior for nosso egoísmo, mais difícil o nosso entendimento. Por isso, o abismo existente entre Lázaro e o rico. Se não aprendermos rapidamente isso e não agirmos para mudar toda a realidade em que vivemos, tão grande quanto será o abismo entre cada um de nós e Deus.

Texto para sua oração: Lc 16, 19-31