Nossa Senhora

Maria e a mulher hoje

Gilda Carvalho


Que momento vive a mulher hoje? Que espaço ela ocupa no mundo contemporâneo? Vivemos um tempo histórico em que a mulher começa a ser reconhecida para além da mãe e dona de casa. Mulheres ocupam postos de trabalho, cargos de governo, tornam-se referências culturais. Essa transformação, percebida desde as Guerras Mundiais do século passado quando as mulheres tiveram que sair de casa para ocupar os espaços vazios deixados pelos homens que seguiram para o combate, é irrevogável. Hoje, mulheres são muito mais que mães; tornaram-se verdadeiras chefes de família, verdadeiras máquinas de trabalho, verdadeiras pensadoras.

Após um período de intensa luta pela igualdade de gênero, a mulher parece, enfim, descobrir-se mulher: com sua complexidade, com suas características físicas, afetivas e emocionais próprias e com sua capacidade de ler o mundo de uma forma bastante diferente que a do homem - uma leitura que inclui a poesia, que inclui a entrelinha, que inclui o que não é dito expressamente, mas que está nos olhos e nas atitudes do outro.

O que Maria tem, então, a dizer a essa nova mulher? Teria sido Maria uma mulher à frente de seu tempo e, portanto, capaz de se tornar uma referência hoje para a mulher moderna?

Provavelmente, Maria não foi ninguém à frente de seu tempo. Foi somente mulher. Mulher que com sua sensibilidade foi capaz de perceber naquele ser que lhe interpelou certo dia em Nazaré, um enviado de Deus. Mulher cuja fé acreditava que esse mesmo Deus era capaz de fazer maravilhas - e por que não o seria capaz de realizá-las nela própria? Mulher cuja pertença a seu mundo sabia das conseqüências de seu "sim" - poderia por ele ser levada à morte. Mulher que com coragem confessou-se grávida ao noivo, seguiu com ele - já esposo - para a terra estranha, criou o filho já viúva, seguiu os passos do Filho em sua Missão e, finalmente, seguiu-O - contorcida em dores, mas com firmeza - até à cruz. Mulher sábia que conhecia seu Deus e que sabia que Ele não a desampararia.

Esses são os pontos que Maria assinala para a mulher de hoje. Mulheres sensíveis que percebem a poesia do mundo e a contam aos homens e às crianças. Mulheres crentes que constroem maravilhas do nada. Mulheres atuantes que lutam pela melhoria da vida de sua família, de seu ambiente de trabalho, de sua cidade. Mulheres corajosas que enfrentam violência, que enfrentam novos caminhos, que enfrentam doenças, que enfrentam as situações mais adversas, com a certeza de que cabe a elas a construção de um novo mundo. Mulheres que, por fim, se sabem mulheres, criaturas abençoadas por Deus com a graça da maternidade, com a possibilidade de geração da vida desde seus corpos até seus atos.

A essas mulheres, o sim de Maria é bastante íntimo: ainda que não o percebam, dizem-no todos os dias quando saem para o trabalho, quando cuidam de suas famílias, quando reclamam da injustiça, quando mostram - mesmo sem o saber - que a vida tem um sentido. As mulheres de hoje podem cantar como outrora Maria cantou: minha alma engrandece ao Senhor. Sim, porque sua existência mostra ao mundo uma outra face de Deus: um Deus atuante, compassivo, trabalhador; um Deus atento à humanidade, um Deus cuidador, um Deus provedor.

O que Maria tem a dizer a mulher hoje? Que sejam apenas mulheres e, através de si, deixem Deus ser apenas Deus.