Cultura

Jesus no cinema: história, estéticas e narrativas

Publicado em 23/6/2009 por: Moisés Sbardelotto

Segundo o historiador e doutor em multimeios Luiz Antônio Vadico, foi a partir dos primeiros longas-metragens do Primeiro Cinema, ainda no século XIX, que se começou a pensar em cinema como narração de histórias. E a partir daí, Jesus tornou-se ponto comum em diversas obras, podendo-se falar em uma "cristologia fílmica", segundo Vadico.

A estética em questão, afirmou Vadico, é perceber como se organiza a beleza das imagens de Jesus na história do cinema. Ou seja, analisar o conteúdo visual das obras cinematográficas. Para isso, um primeiro passo era necessário: compreender também os processos tecnológicos que estavam à disposição de cada "filmaker" ou cineasta da época.

A partir desse posicionamento, destacou Vadico, pode-se perceber que no Primeiro Cinema, por exemplo, que inicia em 1895 e vai até o começo do século XX, havia sim uma tecnologia de ponta para aquele período histórico. Nesse sentido, comentou, é importante analisar essas obras como o melhor resultado que as condições tecnológicas de então permitiam.

Nesse primeiro momento, o cinema é fortemente marcado pelos primeiros filmes de Cristo, que surgem ainda em 1897, logo após as primeiras experimentações com imagens em movimento. Para Vadico, esses filmes são os primeiros longas-metragens da história do cinema, que já introduzem uma característica nova na linguagem cinematográfica de então: o ato de contar histórias.

Nessa categoria, Vadico elencou diversas obras memoráveis, algumas das quais também serão exibidas dentro da programação da Páscoa IHU 2009: a Paixão de Lear (1896); Paixão dos Lumières (1897); Paixão de Horitz (1897); Paixão de Oberammergau (1898); Paixão da Pathé (1903); Paixão da Gaumont (1904). Todos esses filmes eram retratados e compostos a partir do que se chamava na época de quadros-vivos, ou seja, a reconstituição "real" dos quadros famosos que retratavam grandes episódios históricos ou bíblicos.

Arte em película

Essas Paixões, muitas vezes já encenadas anteriormente como peças de teatro ou quadros-vivos, que depois acabam virando filmes, constituíram, assim, narrativas que não existiam antes na história do cinema. E eram produções caras, visto suas durações, consideradas grandes para a época, e tudo aquilo que a cenografia e os figurinos demandavam. Justamente por serem caros, afirmou Vadico, eram também extremamente lucrativos: a Paixão da Pathé, por exemplo, vendeu milhares de cópias. Já a produtora Gaumont, com os lucros obtidos com a sua Paixão, criou um estúdio cinematográfico que era 20 vezes maior do que o de Georges Meliès, considerado o maior cineasta da época.


Ilustração de Gustave Doré
A estética dos filmes desse período e a composição de suas cenas eram também bastante marcadas por aquilo que havia de disponível em termos de representação de Cristo na arte de então. Nesse sentido, são de grande importância as ilustrações de Gustave Doré e as aquarelas de James Tissot, largamente utilizadas em Bíblias ou demais livros de arte sacra daquele período.

Em 1898, James Tissot, por exemplo, fez o que Vadico chamou de uma "antropologia visual": durante dez anos, caminhou pela Palestina para observar minuciosamente a vida, os costumes, o vestuário, enfim, a cultura típica dos habitantes locais. Voltando à Europa, lançou o livro "A vida de Nosso Senhor Jesus Cristo", uma coletânea com mais de 800 ilustrações em aquarela comentadas, em que se revela um realismo muito forte, que depois irá servir de base para a composição de diversas obras cinematográficas.

Alice Guy-Blachet, por exemplo, a primeira mulher cineasta da história do cinema e que dirigiu o filme "A Paixão da Gaumont", fez seu trabalho baseada na obra de Tissot, não copiando exatamente a caracterização do pintor francês, mas compondo suas cenas a partir de uma reinterpretação das suas aquarelas, afirmou Vadico.


Aquarela de James Tissot

E é aí que se encontra uma das chaves de leitura para esses filmes: para Vadico, essas obras não estão muito preocupadas com a exibição do sagrado, mas sim com a estética que irão apresentar, interpretada como a ornamentação de seus quadros, o belo.

Nesse sentido, Vadico comentou que a dificuldade era a de utilizar um roteiro já conhecido por todos - a vida de Jesus - e dar-lhe algo de novidade. "Tem coisa mais chata do que conhecer o fim do filme?", brincou Vadico. Para vencer as limitações de roteiro, a estética teve um papel fundamental, assim como os elementos fictícios, que colaboraram para que as representações de Jesus no cinema marcassem tão profundamente a história da sétima arte.

Alguns fatores colaboraram para essa releitura da vida de Cristo. Em 1913, a Inglaterra proibiu a exibição da imagem do rosto de Jesus na grande tela. Surge, então, um grande desafio para os cineastas: representar Jesus sem mostrar seu rosto. Assim, por meio de diversos artifícios da linguagem do cinema, os filmes continuaram representando Jesus - seja de costas, de lado, tapado por algo presente na cena - por mais de uma década.

Estabelece-se, então, a disputa que marca as relações entre os produtores de cinema, as instituições religiosas e o público em geral: a da posse do "corpo de Jesus Cristo", segundo Vadico.

Essa briga teve um desfecho favorável ao próprio cinema em 1927, quando Cecil B. DeMille inaugura uma espécie de "cinema de espetáculo", afirmou Vadico, não preocupado com os aspectos históricos e arqueológicos, mas sim com a grandiloquência da obra. Na vida de Cristo intitulada "O rei dos reis", a cineasta norte-americana - que também assina filmes como "Os dez mandamentos" e "Sansão e Dalila" - apresenta uma "teologia da luz", nas palavras de Vadico. Jesus é luz para Cecil, interpretação que está marcada especialmente na cena em que o evangelista Marcos apresenta uma menina a Jesus (um elemento fictício integrado por Cecil) que sofre de cegueira. Ela se aproxima de Jesus e diz: "Quero ver a luz". A câmera, assumindo a perspectiva subjetiva da menina, fica no escuro. Aos poucos, a escuridão vai se iluminando, até que a primeira imagem que a menina (e o público presente no cinema) vê após a escuridão-cegueira é o rosto de Jesus que vai surgindo aos poucos. Além de uma imensa ruptura na linguagem do cinema, esse filme rompe também a lei inglesa que proibia a exposição do rosto de Jesus. Pelo sucesso da obra, a Inglaterra reviu a sua própria lei.

As imagens de Jesus

Em termos históricos, Vadico afirmou que o Primeiro Cinema pode ser caracterizado pela forte presença de uma imagem de Jesus como o Servo Sofredor ou Cordeiro de Deus, valorizando o sofrimento e a vida de Jesus como salvação para a humanidade. Ao longo da história, de acordo com cada obra nova, esses aspectos foram mudando.

Na obra "King of Kings" (1961), de Nicholas Ray, por exemplo, há uma imagem de Jesus como norte-americano (loiro, bonito, olhos azuis, com elementos de erotismo), crítica que foi levantada na época do lançamento da obra. Já em "O evangelho segundo São Mateus" (1964), de Pier Paolo Pasolini, Jesus é caracterizado como um grande profeta dentro da perspectiva judaica, também revelando os ideais de Pasolini, um Jesus revolucionário. Já em "A paixão de Cristo" (2004), de Mel Gibson, a imagem de Jesus chega a se perder em meio a tanta violência, segundo Vadico. Porém, se percebe todo um ideário da Idade Média, revelando, em suma, um Jesus medieval. No mesmo ano, os brasileiros viram o filme "Maria, mãe do filho de Deus", produzido pelo Pe. Marcelo Rossi. Nele, Jesus está sempre mostrando gestos afáveis, toca e é tocado fisicamente pelas pessoas, e isso é feito corriqueiramente, como demonstração de atenção e carinho. Segundo Vadico, essa é uma imagem cristológica de um Jesus brasileiro ou de um Jesus homem cordial. E assim por diante.

Para Vadico, é importante destacar que, dentro da história do cinema, é perceptível uma cristologia estabelecida pela própria arte, ou seja, uma "cristologia fílmica". Segundo ele, isso não ocorreu por uma necessidade evangélica ou religiosa, mas sim por questões narratológicas, que foram resolvidas pelas ficções. Mesmo assim, há teologia e, mais especificamente, cristologia sendo revelada pelo cinema.

O que ainda falta, segundo Vadico, e que o cinema, ao longo de sua história, apenas conseguiu se aproximar, é uma obra que consiga revelar um "Jesus misericórdia", tão diferente do de Gibson e tão mais próximo daquela imagem íntima que grande parte dos cristãos alimenta em seu coração.