Cultura

"Dom Hélder - Em busca da Profecia"

Já exibido em diversos festivais de cinema brasileiros e em outros espaços independentes, o filme documentário "Dom Hélder - E m Busca da Profecia" também será uma das atrações do I Simpósio Internacional do Instituto que leva o nome do religioso. O evento, realizado em Recife de 23 a 27 de agosto, presta homenagem ao arcebispo emérito de Olinda e Recife, em seu 5º aniversário de morte.

De Brasília, a realizadora do filme, Érika Bauer conta como foi descobrir Dom Hélder num trabalho de pesquisa que durou cinco anos e que foi feito em vários países. Fala ainda sobre a repercussão de seu documentário e das expectativas para a exibição em Recife, Pernambuco.

Como foi a escolha de Dom hélder para o tema central de seu documentário? Era um projeto velho?
Érika Bauer - De certa forma eu já conhecia Dom hélder, mas foi um projeto que veio com uma entrevista que Dom hélder deu sobre Josué de Castro (pernambucano, autor de "Geografia da Fome"), eu fiquei muito impressionada. Foi muito bom ter revisto Dom hélder e eu fique me perguntando que história ele tinha. Fiquei mais curiosa para saber da história dele. Por um acaso culminou também com a biografia que havia saído em 1999, "Dom hélder Câmara: Entre o Poder à Profecia" (dos professores Nelson Piletti e Walter Praxedes). Eu li a biografia e, a partir disso, eu resolvi mergulhar na história dele.

Como foi todo o processo para levantar os depoimentos e quanto tempo levou o trabalho?
Érika Bauer - Foram cinco anos de pesquisa, de captação de recursos. Às vezes a gente reclama da captação, mas isso tem o lado bom que é a gente ter tempo de se aprofundar mais numa pesquisa. E essa pesquisa me propiciou encontrar imagens de arquivo que, realmente, ninguém conhecia. Coisas que eu encontrei na Europa. Cheguei a ver imagens na Alemanha e Suíça, de diretores cineastas que pegaram a chegada dele, porque ele passou por muitos lugares, era convidado para várias universidades. E lá, alguns diretores engajados se envolveram muito com ele. Então fui me dando conta da riqueza do material que eu tinha para ser pesquisado.

Adital - Diferente de outros tipos de filmes, o documentário não tem um roteiro fechado, ele vai se fazendo na medida em que se coletam os depoimentos, há sempre uma surpresa para o realizador. Você se deparou com algum fato marcante no decorrer desse trabalho?
Érika Bauer - O fato marcante foi descobrir as mil facetas de Dom hélder. Eu comecei com o brasileiro Dom hélder ligado à Igreja. Fui descobrindo o Dom hélder integralista quando eu estive em Fortaleza - e até havia um certo medo, um certo pudor de falar desse lado dele. E descobri que isso foi muito importante pra ele. Quer dizer, você só muda de idéias quando você tem alguma idéia. Você muda porque tem tantas idéias e elas vão se transformando. A surpresa maior para mim foi na Europa. Foi descobrir como ele foi importante nos anos 70, coisa que no Brasil não acontecia porque aqui ele estava proibido de aparecer na mídia. Também descobri a faceta dele de ator. Diante das câmeras ele crescia. E eu incorporei isso ao documentário. Acho que isso foi um salto: do início quando eu tinha a figura dele quase que perfeita de um homem que lutou tanto e, depois, fui descobrindo outras facetas que foram essas ligadas à mídia. Fui perdendo o pudor, fui criando coragem de falar de Dom hélder como ser humano também.

Adital - Como você redimensiona a atuação e o papel de Dom hélder antes e depois do filme?
Érika Bauer - Ele se tornou realmente um personagem não só da Igreja, não só do Brasil, mas um personagem da história. Para mim, ele é um personagem, repetindo as palavras de alguém que eu li, shakespeariano. Saiu da dimensão da Igreja, do Brasil e foi atrás de um grito quase messiânico por um mundo melhor. Eu chego a compará-lo a Martin Luther King, a Gandhi. Ele realmente tem esse tamanho.

Adital - O filme vem sendo exibido em diversos festivais e em outros espaços. Como está sendo sua repercussão?
Érika Bauer - Tem sido muito boa. Fiz uma exibição agora em Goiânia para pessoas ligadas à Igreja, aos movimentos de base e para pessoas um pouco conservadoras - essas pessoas, geralmente, ficam em silêncio, se assustam um pouco. E, realmente, coloco frases dele, de cartas desconhecidas, que assustam. De repente, o personagem Dom hélder delas é outro, aquele que foi disfarçado pela mídia, pela Igreja. E aí elas se deparam com outro Dom hélder. A repercussão entre os cineastas é muito boa e na Igreja, aqueles que têm essa voz mais profética e que trabalham mais com os movimentos de base, ficam muito felizes de ver que esse filme foi feito porque eles não podem falar o que o filme fala. O Dom Tomaz Balduíno, por exemplo, assistiu ao filme e ficou muito emocionado. Para mim vai ser um teste muito grande quando ele for exibido em Recife durante o Simpósio Internacional sobre Dom hélder. Vai ser o meu grande desafio.

FICHA TÉCNICA

Dom hélder - Em Busca da Profecia
Direção: Érika Bauer
Produção executiva: Andréa Glória
Produção: Cor Filmes
Co-produção: TV Cultura e STV
Patrocínio: BR Distribuidora
Gênero: Documentário
Duração: 75 minutos

O média-metragem foi produzido com recursos de Fundações Internacionais Católicas (como a Adveniat), Fundo de Arte e Cultura e Pólo de Cinema e Vídeo Grande Otelo, ambos vinculados à Secretaria de Cultura do Distrito Federal, Secretaria de Cultura do Ceará e TV Cultura. O projeto é apoiado pela CNBB, Cáritas Brasileira, Quanta Brasília e Obras de Frei Francisco, além da cessão de equipamentos e profissionais de produtoras independentes de Brasília. (Fonte: Adital)