Igreja e sociedade

Antigamente, há muitos e muitos anos, uma religião abria um caminho de vida para uma sociedade a partir de uma Revelação. O Sagrado se manifestava a alguém (manifestou-se muitas vezes). Moisés encontrou o Sagrado dentro de uma sarça ardente. A partir daquele encontro, investido de uma força prodigiosa, ele tirou o seu povo, que era escravo, do Egito, e levou-o para uma longa peregrinação através do deserto.

No monte Sinai, teve uma outra revelação, mais completa, cujo sentido era, de novo, o "caminho da vida". Através dos ditames de uma Lei extremamente minuciosa, o "povo eleito" era instruído na melhor maneira de se aproximar do Divino, de "realizar" o Divino que existe dentro de cada um de nós.

Houve um momento, no cenário ocidental, em que essa Revelação recebeu um dramático suplemento: alguém que se apresentava como filho de Deus surgiu para dizer que não tinha vindo abolir a Lei de Moisés, e sim conduzí-la à perfeição. Era uma Lei mais leve ("o meu fardo é leve"), menos detalhista, centrada no Amor; mas também tinha as suas exigências, às vezes bem duras ("quem quiser vir pelo meu caminho, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga").

Em torno dessa nova Lei organizou-se a nossa civilização. Como toda escritura sagrada, ela precisou periodicamente de interpretação e de atualização. Os costumes mudam. Se fôssemos, hoje, obedecer à "lei do adultério", ia faltar pedra para as lapidações rituais.

Mas a religião, mesmo "atualizada", continuava a fornecer o libreto da ópera. Agora, assistimos a um espetáculo diferente: a sociedade é que dá os seus "mandamentos" à religião. "Tudo bem - ela diz -, você pode estar no meio de nós, com os seus templos, seus ritos, seus fiéis (de vez em quando, um rito parece necessário ...), contanto que você concorde com isto, e isto, e aquilo ..."

A ciência, então, não admite réplica, e fala com voz grossa: "Vocês não vêem como nós já vamos longe, como já estamos entrando na própria fábrica da vida? Diante de tanto poder, de tanta possibilidade nova, como é que vocês, religiosos, podem querer dizer que isso pode, aquilo não pode?" E assim caminha a humanidade.

Realmente, as religiões foram expulsas do centro do cenário. Realmente, não é mais a pauta religiosa que controla os destinos da humanidade. Mas é curioso ver, agora, a sociedade laica estabelecer a pauta e a própria personalidade de um novo Papa. "Se você não fizer isso e aquilo, arranjaremos para você uns epítetos nada lisonjeiros; você vai perder os seus fiéis", etc etc

Final do apólogo: sim, é preciso buscar com persistência um diálogo produtivo entre Igreja e sociedade; sim, a Igreja católica, sobretudo depois do Concílio Vaticano II, não é mais um gueto, ou uma torre de marfim: considera-se solidária com as preocupações e angústias do ser humano, com os menores problemas do dia a dia. Mas essa relação entre Igreja e sociedade não é uma relação unívoca; porque o Sagrado tem mistérios e exigências que não são os da sociedade secular. Sim, a sociedade evolui; mas às vezes também involui; e nesses momentos, a Igreja pode se ver definitivamente "contra a corrente", advertindo que um determinado caminho não é bom.

Para termos certeza disso, basta lembrar da história espetacular dos Profetas - responsáveis por um dos capítulos mais extensos da Bíblia hebráica. Eles eram homens como nós; às vezes eram apanhados a laço pelo Altíssimo; esperneavam, sobretudo depois de saber o que teriam de dizer a Israel - exatamente as coisas que a sociedade daquela época considerava mais antipáticas, mais inapropriadas.

Mas eles acabavam indo, entregavam os pontos; como o patético e comovente Jeremias: "Seduzistes-me, Senhor, e eu me deixei seduzir! Dominastes-me, e obtivestes o triunfo. Sou objeto de contínua irrisão, e todos zombam de mim". Ou então o eloquente Oséias, que era um simples pastor: "O leão ruge; quem não temerá? O Senhor Javé fala: quem não profetizará?"

Arroubos bíblicos, a que já não estamos muito acostumados. Mas seria enganoso acreditar que, depois de muitos séculos de civilização, o Senhor Javé tornou-se um cordeirinho manso, politicamente correto.