O rosto humano do Papa

Por: Luiz Paulo Horta

Temos assistido, ultimamente, a diversos fenômenos de mídia. Um deles foi a comoção causada pela doença final e morte do Papa João Paulo II.
Um outro, bem curioso, é a rápida transformação da imagem de "inquisidor" que se associava ao então cardeal Ratzinger na imagem de um Pai - que afinal, é o que está por trás da palavra Papa. Por que isso aconteceu, e com tanta rapidez?

Em primeiro lugar, porque se descobre, agora, que a imagem de "inquisidor" era uma montagem. Ela surgiu, em parte, da própria função exercida pelo cardeal Ratzinger - a de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Defensor da fé e da doutrina, ele precisava ser eventualmente antipático - como quando estabeleceu limites a certas linhas de "ex-perimentação teológica" surgidas nos anos 60 e 70. Por causa disso, foi injustamente satanizado por setores da mídia e da própria Igreja. O conhecimento melhor de que agora dispomos permite corrigir essa distorção.

Em segundo lugar, a descoberta do Pai na figura do novo Papa vem de uma necessidade dos nossos dias. Vivemos uma época de relativa orfandade - porque não há mais segurança quanto a alguns valores básicos, e porque as figuras que eram referências morais e intelectuais andam escassas. Preencher esse vazio foi uma das coisas que João Paulo II conseguiu fazer, com a sua personalidade vibrante, com os seus deslocamentos contínuos. Ele se tornou um Papa muito próximo das pessoas; e era consolador saber que, num mundo perturbado comoo de hoje, estava ali alguém em quem se podia confiar.

Bento XVI aparentemente não está tendo muita dificuldade para, em seu passo macio, ocupar esse espaço. Ele jamais será um comunicador como o Papa Wojtyla: não é este o seu carisma, nem a sua vocação. Mas ele fala com serenidade, e com a autoridade que vem tanto de uma profundíssima reflexão como de um grande amadurecimento pessoal. Como diz o livro de Isaías a respeito do Servo, ele não precisará levantar muito a voz para se fazer ouvir. Porque muita gente, hoje, tem sede daquilo que o Evangelho descreve como sendo as "palavras de vida".