A imagem de Deus

Por: Luiz Paulo Horta

Máximo, o Confessor (580-662) foi o mais brilhante teólogo de uma época profundamente conturbada. Nascido em família distinta de Constantinopla, foi secretário do imperador, antes de recolher-se a um mosteiro em Scutari. Em decorrência de diversas perseguições, transferiu-se para Alexandria, e talvez paraCartago. Manteve discussões violentas com algumas heresias da época. Levado prisioneiro para Constantinopla, foi condenado a um exílio na Trácia. Um segundo julgamento transferiu-o para Colquis, não sem que antes lhe cortassem a língua e a mão direita (daí o título de Confessor - alguém que "confessou" a verdadeira fé). Ele morreu logo depois dessas amputações. O texto seguinte vem dos seus "Capítulos teológicos".

"Quando tiverdes valentemente triunfado das paixões do corpo, guerreado contra os espíritos impuros e expulsado os seus pensamentos do domínio da alma, rezai para que vos seja dado um coração puro, e para que o espírito de retidão seja restaurado nas vossas entranhas. "Pode-se chamar coração puro aquele que não tem mais nenhum movimento impulsivo para o que quer que seja. Nessa tábua perfeitamente lisa, que é fruto da simplicidade, Deus se manifesta e inscreve as suas próprias leis. "Coração puro é aquele que apresenta a Deus uma memória sem espécies nem formas, unicamente disposta a receber os sinais pelos quais Ele costuma se manifestar.

"O espírito do Cristo que os santos recebem, de acordo com a palavra "nós temos o espírito do Senhor" (Cor.1), não decorre da privação da nossa potência intelectual, nem como um complemento do nosso intelecto, nem sob a forma de um acréscimo substancial ao nosso intelecto. Não; ele faz brilhar a potência do nosso intelecto na sua qualidade própria, e a leva ao mesmo ato que ele. O que eu chamo de "ter o espírito de Cristo" é pensar segundo o Cristo, e pensar o Cristo em todas as coisas".

Esse texto, onde se pode encontrar ecos de diversas tradições orientais, caracteriza uma espécie de "teologia luminosa", por oposição, entre outras, à teologia luterana. Em vez de uma natureza humana corrompida até a medula ( Lutero), o que se propõe à meditação é aquela parte da natureza humana que foi feita "à imagem e semelhança de Deus"; a parte que tem acesso à metafísica, que é capaz de ver as coisas "sub species aeternitatis". Mas, para que isso aconteça, lembra o Confessor a necessidade de passar com sucesso pelo "combate espiritual", para que sejam expulsos os fatores que obscurecem ou sufocam essa "luz primordial".