Interpretando as Escrituras

Por: Luiz Paulo Horta

Em artigo anterior, citamos Máximo, o Confessor (580-662), teólogo ilustre de Constantinopla. É dele, também, o texto seguinte, que fala dos sentidos a serem procurados nas duas partes da Bíblia: "A Sagrada Escritura é como um ser humano. O Antigo Testamento é o corpo, o Novo Testamento é a alma, e o sentido do que ali está é o espírito. De um outro ponto de vista, podemos dizer que toda a Escritura sagrada, Antigo e Novo Testamento, tem dois aspectos: o conteúdo histórico, que corresponde ao corpo, e o sentido profundo, o objetivo a que devemos aspirar, e que corresponde à alma.

"Se pensamos nos seres humanos, vemos que eles são mortais em seu aspecto visível, mas imortais em suas qualidades invisíveis. Assim é a Escritura. Ela contém a letra, o texto visível, que é transitório. Mas também contém o espírito escondido por trás da letra, e esse não se extingue nunca, e deveria ser o objeto da nossa contemplação".

O que esse texto tão simples e tão profundo nos revela é a importância da Tradição no comentário dos textos sagrados. Toda escritura sagrada precisa de comentário, de interpretação, porque ali coexistem o que é eterno e o que é transitório.

Por exemplo, a Lei mosáica manda apedrejar as adúlteras. Como imaginar que esse texto continue em vigor ainda hoje, em condições históricas e culturais drasticamente diferentes? Isso não significa que o texto sagrado tenha perdido a sua força; mas se ele não for devidamente interpretado, caímos no literalismo, que é um outro nome para o fundamentalismo.

Essa interpretação, por sua vez, precisa apoiar-se na Tradição - que não deve ser vista como sinônimo de coisa antiquada, e sim como a própria vida espiritual que vai sendo transmitida de geração em geração. No contexto católico, a Igreja é o espaço privilegiado para esse repositório de sabedoria e de vida interior. E um dos aspectos dessa transmissão ininterrupta é a instituição do Papado. Por isso se diz, com toda propriedade: "Ubi Petrus, ibi Ecclesia". Onde está Pedro, aí está a Igreja.