Gente que faz o bem

Missionário de 90 anos dirige 145 leprosários na China

Entrevista com o padre Luis Ruiz Suárez

Esse domingo o padre Luis Ruiz Suárez, s.j., completou 90 anos, e foi a primeira vez desde 1930 que pôde celebrar com sua família. «É que nos últimos 62 anos estive por aí, por este mundo de Deus», argumenta.

Acaba de participar do Congresso Nacional de Missões celebrado este fim de semana em Burgos. Dom Luis Augusto Castro Quiroga, arcebispo de Tunja (Colômbia), apresentou-lhe aos meios de comunicação como «a estrela do congresso», ao que ele respondeu, com o senso de humor que conserva intacto, «apagada, estrela apagada».

Nestes 62 anos trabalhou com os mais pobres da China, especialmente com os leprosos, e atualmente dirige 145 leprosários, que atendem 10.000 enfermos.

--O senhor não pensa em retirar-se e descansar?

--Padre Ruiz: Eu descanso trabalhando. Em meus 90 anos, levo um regime de vida similar ao de um homem de 60. Levanto-me às 6h30 da manhã, e até dois anos atrás saia de moto. Encanta-me o futebol; através da televisão chinesa vejo as partidas de equipes espanholas. Mas quero continuar trabalhando: temos 15 projetos em espera que não podemos pôr em andamento agora pela falta de dinheiro e de voluntários. Sei que o Senhor me chamará quando quiser, mas eu sempre vivi cada dia, e nunca me preocupo com o amanhã.

--Vamos ao início. O senhor foi expulso da Espanha em 1931 pelo Governo Republicano.

--Padre Ruiz: Sim, deportaram todos os jesuítas do país. A Companhia me mandou então para a Bélgica e, em 1937, marchei para Cuba, para estudar Magistério. Eu era professor no colégio em que estudava Fidel Castro, que estava fazendo o bacharelado naquela época.

--E como era? Ele já demonstrava com suas maneiras que chegaria a ser um ditador?

--Padre Ruiz: Sim, já era muito fechado. Quando já estava na China, inteirei-me que o haviam expulsado do colégio por ter sacado um revólver no meio da aula. Depois enganou os jesuítas e seus companheiros e amigos de classe que lhe ajudaram. Nosso colégio era o melhor da América do Sul, e ele, quando alcançou o poder, fechou o colégio e expulsou todos os espanhóis da ilha. Quando subiu a Sierra Madre, numerosos jesuítas seguiram de capelães, e ele traiu todos.

--Então, em 1941, chegou à China.

--Padre Ruiz: Sim, e ali comecei a estudar o chinês mandarim, que é uma língua terrivelmente difícil. Em 1942 tive que fugir de Pequim por causa da II Guerra Mundial entre EUA e Japão. Em 1945 fui ordenado sacerdote, e estive destinado à missão de Anking, onde dava aula de inglês. Em 1951 os comunistas ocuparam nossa missão, e estive prisioneiro em casa, onde fiquei doente com tifóide, e me expulsaram da China.

--O que fez então?

--Padre Ruiz: Meus superiores me mandaram para Macau, que era colônia portuguesa. Cheguei a uma cidade cheia de refugiados mortos de fome, sem dinheiro e sem trabalho. Esqueci minha enfermidade, porque tinha de ajudar todas essas pobres famílias. Comecei a receber ajuda de Cáritas dos EUA, e fazia distribuição arroz, macarrão e queijo. Eu realmente estava esperando um destino de meus superiores, mas meu provincial me disse: «Ruiz, tu não irás embora daqui». Assim continuei ajudando e celebrava missa em chinês, inglês e português em uma paróquia. Tinha que recuperar minha saúde, e cuidei disso também.

--Assim que começou a organizar seu trabalho em Macau. Em que consistia sua ajuda?

--Padre Ruiz: Em ajudar os refugiados que fugiam da China. Havia alguns que inclusive chegavam a nado e não tinham absolutamente nenhum provimento. Cada dia vinham 20, 40, 80. Até 30.000 refugiados chineses chegaram a passar por nossa missão. Nós lhes dávamos roupa, comida e um lugar para dormir. Depois, quando voltei algumas temporadas à Espanha, encontrei-me com chineses que estiveram em minha casa.

--Mas em 1969 as autoridades chinesas lhe proibiram de continuar ajudando os refugiados.

--Padre Ruiz: Efetivamente. Quando declararam Macau com território chinês, nos proibiram de receber mais refugiados. Mas continuamos trabalhando, e criamos um asilo de anciãs, outros dois de anciãos e um centro para deficientes mentais.

--Quando começou seu trabalho com os leprosos?

--Padre Ruiz: Em 1986 (com 73 anos) comecei a trabalhar na província de Guangdong. Ali, em uma ilha, tinham colocado todos os leprosos. Uma noite fomos em uma lancha de pesca para a ilha. Deveria ter nos visto; parecíamos contrabandistas. Eu levava cigarros para partilhar entre os leprosos. Quando chegamos à ilha, vimos algo de que não me esquecerei jamais. Aquela gente vivia em um lugar sujo e asqueroso. Um leproso se aproximou de mim e lhe estendi minha mão. Quando ele foi retribuir o cumprimento, me dei conta de que lhe faltava uma parte do braço. E assim todos os habitantes da ilha que iam se aproximando. E o que podia fazer eu com os cigarros que havia trazido? Pois eu os ia acendendo e colocando entre seus cotos.

--Começou a trabalhar nessa ilha?

--Padre Ruiz: Sim, e após dois anos foi uma mudança total. Em Macau, eu tinha 25 monjas que me ajudavam. Pedi-lhes ajuda e vieram 5: uma sevilhana e quatro indianas. No início tínhamos medo de que o governo chinês fecharia os centros, então trabalhávamos com muita discrição. Após dois anos, até as autoridades chinesas nos pediam ajuda. Agora, em Cantão, temos 40 leprosários.

--E o que levou a dedicar-se aos leprosos?

--Padre Ruiz: Quando se vê a pobreza, não é possível cruzar os braços. Tinha de ver a mudança na vida dos leprosos. Quando chegamos, não havia água nem eletricidade; as casas estavam destroçadas, e todos passavam fome. Começamos a fazer poços, cada um me custa 20.000 euros, e conseguimos umas placas solares para aquecer a água. Havia muitos leprosos que me diziam: «Padre, é a primeira vez que tomamos banho com água quente».

--Quantos centros o senhor dirige agora?

--Padre Ruiz: 145 leprosários nos quais atendemos 10.000 enfermos. Ali mesmo educamos os filhos dos leprosos e temos 2.000 alunos entre primário e universidade. Em Macau, por exemplo, temos uma escola que já é muito famosa. Faz pouco tempo, um ex-aluno que agora é um empresário de êxito em Hong Kong me mandou 20.000 dólares de doação. E os alunos que tive em Cuba, que agora vivem nos EUA, ainda me mandam dinheiro.

--Faltando dinheiro, como o consegue?

--Padre Ruiz: Eu não consigo o dinheiro: o dinheiro me chega. Nunca peço; o Senhor me envia. Especialmente temos bem-feitores de Alemanha, Inglaterra, Espanha e Estados Unidos. O Senhor às vezes envia umas gotinhas de dinheiro, e às vezes uma chuva torrencial de dólares. Eu não compreendo nem a mim mesmo: fisicamente tenho 90 anos, e ainda agüento. O dinheiro, simplesmente, chega. E temos mais de 100.000 euros ao mês em doações.

--Uma curiosidade: quantos idiomas fala?

--Padre Ruiz: Falo o que necessito. Abandonei o alemão e agora me dou conta de que o necessito, porque muitos de nossos bem feitores são de lá, então voltei a aprender. O inglês aprendi na viagem em barco de Cuba para a China, porque havia uma família inglesa muito agradável que me ensinou. E quando cheguei à China, já sabia falar inglês.

--Todo mundo conhece Madre Teresa, Vicente Ferrer. Por que não se conhece o padre Luis Ruiz?

--Padre Ruiz: Não me preocupa isso; não faço propaganda do que fazemos. Sempre trabalho com os mais pobres, e à gente que trabalha comigo peço que seja discreta. Nós fazemos o trabalho de Deus: Ele é nosso Pai, e também o Pai dos leprosos. O trabalho cristão é o da caridade, não o do fazer ruído. Recordo que, quando ia entrar na China, as autoridades comunistas me disseram que me davam o visto se não pregássemos Cristo. Mas o próprio Jesus disse que «se não acreditais em minhas palavras, acreditai ao menos em minhas obras». Há uns anos, um senhor chinês que passou uma semana comigo visitando os leprosários me disse: «Eu não creio em Deus, mas creio no trabalho que faz o padre Ruiz». E eu lhe respondi: «Pois se crês em mim, crês também em Deus».

--E olhando para trás, vale a pena o que fez? Voltaria a repetir sua vida?

--Padre Ruiz: Claro! Não há melhor coisa que tratar de fazer felizes os demais. Não só vale a pena ser missionário; mas é necessário. Sinto que tive uma vida privilegiada.

--Alguns dizem que João Paulo II deveria se retirar, que está velho. O senhor, que lhe supera em 7 anos de idade, o que acha?

--Padre Ruiz: O Papa está mais debilitado fisicamente que eu. Mas tem uma cabeça e uma consciência que não estão debilitadas. Os bispos, que se retiram aos 75 anos, estão melhor de saúde que eu! Eu não entendo por que devem se retirar. Enquanto se pode servir, sirva; quando o Senhor te disser basta, pois basta. Eu, todos os dias, antes de sair para trabalhar, passo pela capela de minha casa e digo ao Senhor: «Ouve, se queres chamar-me hoje, me chamas». E pela noite, quando volto para casa, lhe digo: «Graças, Senhor, porque quis dar-me mais um dia para servir-te». (Fonte: Zenit)