Entrevistas

Bergoglio e Trump: duas formas particulares de populismo. Entrevista especial com Massimo Faggioli

Publicado em 25/7/2017 por: João Vitor Santos

Para Ernesto Laclau, o populismo tem origem no desejo do povo de contrapor uma lógica de poder institucionalizada. Na política de nosso tempo, dois líderes têm chamado atenção: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, eleito apesar de muitos considerarem sua candidatura uma piada, e Mario Bergoglio, o cardeal argentino que no conclave era um verdadeiro azarão. Para o doutor em História da Religião Massimo Faggioli, os dois podem ser considerados como uma manifestação do populismo. Entretanto, mesmo sem entrar no conceito de Laclau, destaca que são diferentes dos outros populismos, “especialmente daqueles da América Latina”.

Faggioli explica, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, que o trumpismo “é um determinado tipo de populismo porque rejeita a elite política e cultural dominante. Mas é uma forma particular de populismo, porque se encaixa no contexto norte-americano, onde a rejeição das elites está ligada à ideia de reconquistar a América ‘cristã e branca’ das mudanças ocorridas nas últimas décadas”. “O populismo de Trump não tem a ver apenas com o conceito de classe, mas também com a experiência americana de raça, com a ideia religiosa da América como ‘God’s country’, com a suposição do excepcionalismo americano de uma especial missão da América no mundo”, completa.

Já o populismo do papa Francisco, segundo o professor, pode ser visto como uma lógica diferente da de Trump. “O populismo de Bergoglio é antes de tudo um populismo teológico. Há a centralidade da ideia de ‘povo’ e ‘povo de Deus’ na teologia e eclesiologia do papa Francisco”, pontua. Para Faggioli, são duas lideranças paralelas e opostas entre si. “Trump está redefinindo e reduzindo a liderança global dos EUA”, aponta. “É interessante ver como isso, de certa forma, flui no mesmo sentido do pontificado de Francisco: tornar o catolicismo mais global e menos dependente do Ocidente”, completa. E analisa: “é uma passagem histórica inevitável, mas não é uma manobra sem risco, nem para os EUA, nem para a igreja global”.

Massimo Faggioli é doutor em História da Religião, professor de teologia e estudos religiosos da Universidade de Villanova, na Filadélfia, Estados Unidos, e editor colaborador da revista Commonweal. Atuou na Universidade de St. Thomas, Minnesota, Estados Unidos até 2016. Entre suas publicações, destacamos Vaticano II: A luta pelo sentido (São Paulo: Paulinas, 2013) e True Reform: Liturgy and Ecclesiology in Sacrosanctum Concilium (Liturgical Press, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Pode-se tomar o trumpismo como uma forma de populismo? Por quê?

Massimo Faggioli – O trumpismo é um determinado tipo de populismo porque rejeita a elite política e cultural dominante. Mas é uma forma particular de populismo, porque se encaixa no contexto norte-americano, onde a rejeição das elites está ligada à ideia de reconquistar a América "cristã e branca" das mudanças ocorridas nas últimas décadas, simbolizada pela eleição de Barack Obama, em 2008.

O populismo de Trump não tem a ver apenas com o conceito de classe (das classes mais baixas que se revoltam contra a elite), mas também com a experiência americana de raça (brancos, como ex-maioria, contra afro-americanos e latinos), com a ideia religiosa da América como “God’s country” (com uma primogenitura do protestantismo branco em relação às outras denominações cristãs e outras religiões), com a suposição do excepcionalismo americano de uma especial missão da América no mundo. Neste sentido, o populismo de Trump é diferente dos outros populismos, especialmente daqueles da América Latina.

IHU On-Line – De que maneira o trumpismo se coloca em uma lógica diametralmente oposta à lógica defendida por líderes como o papa Francisco?

Massimo Faggioli – Penso que se trata de dois populismos diferentes: primeiro, porque o populismo de Bergoglio é antes de tudo um populismo teológico. Há a centralidade da ideia de "povo" e "povo de Deus" na teologia e eclesiologia do papa Francisco. Em segundo lugar, o populismo trumpiano tem em mente uma retomada da centralidade de uma parte muito específica do povo americano em detrimento do resto: é aqui que encontra seu caminho de rejeição pelo "politicamente correto". Isso porque o populismo trumpiano é herdeiro da ideia da supremacia do povo e da experiência dos EUA na história mundial. Estes são elementos bem diferentes da ideia de "povo" que Bergoglio possui.

IHU On-Line – Como o trumpismo impacta o pontificado de Bergoglio e vice-versa?

Massimo Faggioli – Trata-se de duas lideranças paralelas e opostas entre si, de duas solidões diferentes. A presidência de Trump está redefinindo e reduzindo a liderança global dos EUA e é interessante ver como isso, de certa forma, flui no mesmo sentido do pontificado de Francisco: tornar o catolicismo mais global e menos dependente do Ocidente (incluindo os Estados Unidos). É uma passagem histórica inevitável, mas não é uma manobra sem risco, nem para os EUA, nem para a igreja global.

IHU On-Line – O modo de Bergoglio posicionar-se, tanto nos assuntos de igreja, como em matérias para além dos muros do Vaticano, revela uma perspectiva populista? Por quê?

Massimo Faggioli – Francisco evitou, desde o início, criar um círculo de "bergoglianos" em Roma, embora suas nomeações episcopais sejam de um determinado tipo, próximas ao seu modelo ideal de bispo. Mas Francisco sempre evidenciou também sua crítica e sua distância de um certo estilo de vida clerical e episcopal, declarando-se como alguém do povo, e não como alguém do mundo clerical. Neste sentido, pode parecer populista. Mas sua visão da Igreja Sinodal pressupõe uma visão das várias componentes da igreja, o que não é uma visão populista.

IHU On-Line – O que, de fato, Donald Trump revelou ao mundo quando retirou os EUA do Acordo de Paris e endureceu sua relação com os imigrantes, arrolando-se em uma lógica nacionalista? Qual é o grande problema subjacente que liga essas ações?

Massimo Faggioli – Acredito que a grande questão subjacente seja o medo de ver os Estados Unidos transformar-se em um país multicultural, multirracial e multirreligioso. A rejeição do Acordo de Paris é nada mais que uma declaração do trumpismo contra as elites culturais e cosmopolitas. O trumpismo é um dos sinais do fim do "século americano" e do medo de um certo tipo de América diante do mundo. Trump foi eleito também pelos "blue-collar workers" derrotados pela globalização; mas o movimento cultural e ideológico que elegeu Trump tem raízes antigas e não se preocupa com o destino dos derrotados pela globalização.

IHU On-Line – Qual é a sua avaliação do governo de Donald Trump até agora?

Massimo Faggioli – Um grande sucesso com a nomeação de um juiz conservador, branco e cristão para o Supremo Tribunal Federal; uma série de fracassos em todas as outras questões (reforma da saúde, reforma fiscal); uma série de terríveis desregulamentações em matéria ambiental; nenhuma ideia de política externa. Mas a realidade é que o governo federal está paralisado porque a família Trump não está interessada em governar o país, e o Partido Republicano, que sustenta Trump, não é capaz de governar o país. O verdadeiro problema é que não há partido de oposição: o Partido Democrata precisa ser reconstruído.

IHU On-Line – Como analisar o encontro de Donald Trump com o papa Francisco?

Massimo Faggioli – Seria demasiado otimista esperar uma mudança nas relações entre o papa Francisco e o presidente Trump, por causa da descoberta milagrosa de um terreno comum que antes era invisível. Da parte de alguns católicos americanos houve uma tentativa – ideológica – de mostrar um entendimento entre Francisco e Trump: mas somente dias depois houve o anúncio da retirada do Acordo de Paris... O encontro entre Trump e Francisco no Vaticano não foi um armistício, mas um abrandamento da parte do Vaticano na tentativa de manter aberto um importante canal de comunicação com a América. Mas ninguém fazia ilusões a respeito dos resultados do encontro.

IHU On-Line – Come vê o Pontificado de Francisco, depois de quatro anos na condução da Santa Sé? O que significa a saída do cardeal Müller da Congregação para a Doutrina da Fé - CDF ? Estes são os movimentos de reforma de Francisco? Como imagina que essa mudança ressoe?

Massimo Faggioli – A longo prazo, as questões mais importantes são duas. A primeira diz respeito ao futuro papel da CDF: por um lado, a CDF foi o exemplo mais visível da paralisação das congregações da Cúria sob Francisco. Em quatro anos, desde março de 2013, a CDF publicou apenas dois documentos (menores): um papel completamente diferente da CDF sob João Paulo II e Bento XVI. É um desenvolvimento comemorado por muitos na Igreja, porque veem como, finalmente, não estão mais sujeitos a uma voz institucionalmente poderosa do Magistério ao lado do Papa e dos bispos, de algum modo superior e soberana em relação aos bispos locais e às conferências episcopais.

Por outro lado, se a CDF, tendo como prefeito Ladaria, vai continuar a trabalhar, enquanto congregação, como estava trabalhando sob Francisco. Assim, a nomeação de Ladaria poderia não ser tão proveitosa como deveria. Ele representa uma voz moderada que poderia trazer uma nova maneira de lidar com as complexas questões levantadas por um catolicismo recentemente globalizado; um novo modelo de cooperação com o resto da Cúria e com as Conferências Episcopais; um novo papel da Comissão Teológica Internacional; sobretudo, uma nova maneira de a CDF trabalhar com o papado.

Mas tudo isso faz parte do futuro da Cúria Romana, em uma igreja onde o “orbis” está crescendo longe da “urbs”. Parte do “orbis” é também a SSPX , e veremos como o arcebispo Ladaria, sucessor do cardeal Müller na função de presidente da Pontifícia Comissão "Ecclesia Dei", irá abordar as negociações com o grupo cismático: interessante que o cardeal Müller representasse a defesa do Vaticano II e a necessidade para a SSPX de aceitar os ensinamentos do Concílio.

A segunda questão é burocrática-institucional. Francisco decidiu não renovar o mandato de cinco anos para o cardeal Müller. Se Francisco decidisse aplicar os cinco anos a todos os postos da Cúria, poderia ser uma verdadeira e própria revolução a aplicação do princípio geral de que padres e bispos servem na Cúria, sabendo que voltarão para suas Igrejas ou Comunidades locais ou para outro ministério.

João Vitor Santos

Instituto Humanitas Unisinos