Entrevistas

"O valor do trabalho transita para a ideia de criatividade". Entrevista com Michel Maffesoli

Publicado em 30/8/2018 por: Jotabê Medeiros

Professor emérito da Sorbonne, 74 anos, o sociólogo francês Michel Maffesoli, maior teórico da pós-modernidade, vem ao Brasil para o Congresso Mundial de Lazer, organizado pelo Sesc, entre 28 de agosto e 1º de setembro, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Além dele, George Yúdice e Jeremy Buzzel (EUA), Abena Busia (Gana), Alon Gelbman (Israel) e Mogens Kirkeby (Dinamarca) são alguns dos convidados internacionais.

Maffesoli faz o encerramento, no dia 31 de agosto, às 19 horas, falando do tema Lazer sem Restrições – Desafios e Tendências Contemporâneas, analisando a mudança no conceito de ócio. Fundador e diretor do Centre d‘Études sur l’Actuel et le Quotidien (Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano), Maffesoli, autor de 40 livros, boa parte já publicada no Brasil, defende que está em curso uma mudança nos valores da modernidade, substituídos no cotidiano por uma sensibilidade receptiva às diferenças e relativizações.

A entrevista é de Jotabê Medeiros, publicada por CartaCapital, 28-08-2018.

Eis a entrevista.

Como o senhor define o conceito de “lazer sem restrição” em uma sociedade marcada por competição, consumismo e individualismo?

Penso que a nossa sociedade pós-moderna não é mais construída exatamente sobre a competição, o consumo e o individualismo. Essas características são da sociedade moderna, aquela da industrialização, do valor do trabalho que se conhecia como contraponto ao lazer. Mas, no que concerne à nossa sociedade atual, que nomeio pós-moderna, o que acontece é uma ruptura com os velhos valores da modernidade.

A sociedade do lazer não é aquela excrescência, um tipo de apogeu da sociedade de consumo, da sociedade produtivista da modernidade, mas o lazer geral no qual a ambivalência produtivismo-reprodução da força de trabalho é sucedida pela parceria entre criatividade e ócio. O ócio está para o lazer assim como a criatividade está para o valor do trabalho.

A devastação do mundo natural e social é mais violenta no Terceiro Mundo, além da guerra contra a democracia, contra a representação, baseada no moralismo, na ideia abstrata de um combate à corrupção. Como o senhor avalia a situação política e social hoje na América do Sul?

Devo dizer que me desobrigo, em geral, de emitir uma avaliação política ou social sobre os países nos quais não vivo. Creio que podemos chamar a devastação do mundo, natural e social, como um fenômeno geral. Nós o encontramos um pouco por todo lado. Sim, é possível que tal devastação encontre um aspecto muito mais forte em certos países, como os da América do Sul.

Mas há, no nível do povo, uma forma de resposta a essa devastação. O “net-ativismo”, esse que, por exemplo, se desenvolve no Brasil, é uma expressão disso. A longa duração dos fenômenos de resistência, de revolta, de rebelião cara a cara com os poderes políticos e econômicos vai trazer mais e mais equilíbrio. Aquilo que, na minha estreia como autor, no meu livro La Violence Totalitaire, chamei de o poder social. É a partir desse “poder” que vão se desenvolvendo os processos de luta contra a corrupção, os autoritarismos que acredito podem ser tanto de esquerda quanto de direita.

O senhor definiu a sociologia como uma forma de conhecimento que não é mais científico, embora igualmente racional e rigoroso. Como pode essa sociologia explicar a escalada do ódio contra os gays, os negros e os imigrantes em nossa sociedade atual?

Eu lembraria que, apesar de certa oposição, da escalada de ódio contra gays, negros e migrantes, nós vemos se desenvolverem ao mesmo tempo as manifestações, mais e mais importantes, e que não podemos reprimir, cara a cara com as mesmas populações estigmatizadas.

Pego um exemplo entre milhares: uma tese feita por um dos meus alunos brasileiros, Marcello de Carmo Rodrigues, sobre um festival gay de Juiz de Fora, mostra bem que não podemos mais marginalizar a homossexualidade e que somos obrigados a integrá-la.

Estamos a 50 anos de distância do Maio de 1968. O senhor pensa que temos hoje a mesma capacidade de ressonância das ações jovens e da vontade popular de mudar o mundo?

Os valores daquilo que nós chamamos de eventos de Maio de 1968 acham-se hoje capilarizados na vida social. E as gerações jovens, sem fazer forçosamente referência a 1968, vivem concretamente muitos dos valores que foram elaborados àquela época.

Maio de 1968, parcialmente, consistia na obediência marxista, e não dá conta mais de mudar o mundo de forma geral, de realizar uma utopia geral, mas, se recupero um termo de Lévy-Strauss, trata-se de fazer uma bricolagem de seu próprio mundo e de criar assim o que propus chamar de “utopias intersticiais”. São tipos de nichos dentro das tribos pós-modernas, em particular as tribos urbanas, que as levam a viver uma vida qualitativamente interessante. É esse deslizamento do quantitativo ao qualitativo que é sintomático da pós-modernidade.

Como se pode definir sua disciplina ecosofia?

Escrevi, em 2017, um livro intitulado Ecosophie, que ainda não foi traduzido no Brasil. Utilizo esse termo para além de uma simples visão ecológica com conotação mais política, mas ligada à sensibilidade, por sua vez em atenção a outra abordagem da natureza. Em seu senso estrito, ecosofia significa sabedoria da casa comunitária.

Quero dizer que não considero mais a natureza como algo simplesmente a ser dominado, isso que resultou na devastação do mundo, mas uma natureza na qual nós participamos com interação, com reversibilidade, em conjunção. Certamente, existe uma quantidade de contraexemplos mostrando que a dominação do mundo é ainda um valor presente, mas vejo consolidar-se mais e mais nas massas populares uma atitude muito mais respeitosa do bem natural.

O senhor diz que estamos na passagem do econômico para o “iconômico”, falando de uma rebelião do imaginário. Pode explicar o que isso quer dizer?

Refiro-me ao que me parece ser uma rebelião do imaginário que é favorecida pelo desenvolvimento da cibercultura. Para mim, isso define precisamente a passagem da modernidade para a pós-modernidade. A grande dominante dos tempos modernos, a partir dos séculos XVIII e XIX, foi a predominância do valor do trabalho, o que Jean Baudrillard chamou de “o espelho da produção”. O valor do trabalho está em transição, progressivamente, para a ideia da criatividade. Igualmente, a sede do dinheiro, que é o fundamento da economia, não é mais o valor central.

Há formas de solidariedade, de generosidade sobre aquilo a que não se dava mais nenhuma importância. E isso ocorre, evidentemente, pelo compartilhamento das imagens. Lembro que, a partir de Descartes e Malebranche, a imaginação era chamada de “a doida da lógica”, aquilo que não permitia o bom funcionamento do cérebro. Parece que, na contemporaneidade, essa imaginação se torna elemento primordial da vida na sociedade.

No Brasil, temos um sentimento histórico muito próximo da noção de tribo. Isso nos daria uma responsabilidade maior sobre a compreensão do que seja alteridade?

O que, em efeito, marca especificamente a modernidade é a redução do outro ao mesmo. É uma negação, uma degeneração da alteridade. Podemos resumir uma certa tendência através da fórmula paradigmática de Auguste Comte, reductio ad unum (redução ao uno). É dessa forma que são constituídos os Estados Unidos unificados, as instituições uniformizadas, e mesmo aquilo que Jean-François Lyotard chamou de “as grandes histórias de referências”. É a partir dessa degeneração da alteridade que se impõe a dominação e a devastação da natureza.

Ao propor a noção de tribo (O Tempo das Tribos – O Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa, lançado no Brasil em 1987 pela Editora Forense), chamo atenção para o fato de que não podemos mais negar certa diversidade. O Outro, o retorno aos Outros, observa-se no desenvolvimento das tribos urbanas, sexuais, musicais, esportivas, religiosas, culturais, mas se encontra igualmente no retorno de certa alteridade no desenvolvimento de uma religiosidade multiforme e em uma concepção mais divina da natureza. Penso que o Brasil pode assumir um papel importante nesse processo, o de “laboratório da pós-modernidade”.

A observação dos ícones culturais é uma tradição francesa. Mas, hoje, quando se vive uma grave crise da indústria cultural, o ponto de vista permanece o mesmo?

Lembro a importância da intuição como uma “vista interior”, na qual se acentua a necessidade de compreensão. É a partir daí que podemos encontrar um modo de observação de maior empatia dos feitos sociais, enfatizando a importância dos afetos, das emoções, das paixões que movem, em profundidade, os relatórios sociais. Para isso, é preciso fazer referência ao mundo das imagens, das obras literárias, àquilo que a filosofia de São Boaventura, no século XIII, chamou de exemplarismo.

É de fato uma tradição francesa, de dar atenção a esses aspectos. A definição que me permito aplicar à pós-modernidade parte da sinergia entre o arcaico e o desenvolvimento tecnológico. Ressalto que a palavra “arcaico” significa, em grego, que veio primeiro, que é fundamental. Donde, para entender melhor, persisto nos signos, e considero que a sociologia do imaginário é onde podemos melhor compreender as mutações de fundo que observamos em nossas sociedades.

Jotabê Medeiros, CartaCapital

IHU