Entrevistas

Dependência Química: Um fenômeno complexo - Entrevista com Eliana Freire

Por: Maria Lucia Gomes de Matos

Após terminar mestrado nos Estados Unidos, Eliana Freire foi convidada para ministrar aulas no Departamento de Psicologia / PUC-Rio. Seu interesse sempre foi ligado a vários temas, como por exemplo, dificuldades de relacionamento mãe-filho, trabalho de equipe na Obra do Berço, trabalhos sempre ligados ao campo social. Há anos começou a se interessar no campo de dependentes químicos, alcoolismo, toxicomania, etc. Em final da década de 80 iniciou abordagens em sala de aula, de temas ligados a drogas. A disciplina, hoje, chama-se Toxicomanias. Outra abordagem é sobre Tóxicos Especiais, onde é focado tóxicos que vão surgindo no meio de jovens. São duas matérias eletivas muito procuradas pelos alunos que querem e precisam se informar sobre o assunto que está presente em nossa sociedade.

Trata-se de um trabalho de conscientização sobre uso, abuso das drogas, experimentos, enfim a patologia da dependência química.

Eliana Freire realiza palestras e seminários por todo o país, ainda atende clientes e faz grupos de estudo na PUC-Rio.

Suas respostas ao Amai-vos são firmes e seguras sobre um tema tão delicado :

Amai-vos - O que se pode entender por espiritualidade dentro de um tratamento de dependência química?

Eliana Freire - Considera-se a dependência química como uma disfunção bio-psicossocial, espiritual. A dimensão espiritual deve entrar como parte integrante do tratamento. Algumas abordagens, que esclarecem a entrada dessa dimensão, seriam as utilizadas , sem a menor dúvida, nos grupos de ajuda mútua, os grupos anônimos.

Muitas comunidades terapêuticas usam muito essa dimensão espiritual como fundamento para modificações de valores e motivação para mudanças.O modelo Minesota, que veio para o Brasil no início da década de 80, também integra a dimensão espiritual no seu tratamento, que envolve um complexo bio-psicossocial. Posso afirmar que há uma relação muito íntima da espiritualidade com o tratamento da dependência química. Há muitos exemplos de pessoas dependentes químicas que passaram por momentos anteriores à procura de uma espiritualidade. Buscas em religiões e filosofias que promovam algo no caminho da transcendência , fato muito comum antes da instalação da dependência . Na geração "paz e amor" era muito notada esta procura . Com o tempo, perdeu o sentido, pois a droga tornou-se um objeto de consumo como outro qualquer e deixou de ser aquele objeto intermediário para se obter um auto conhecimento. Virou consumo alienado.

Amai-vos: Esta busca da espiritualidade foi sempre notada nos dependentes químicos?

Eliana Freire - A busca de uma espiritualidade já existia antes de se tornarem dependentes químicos. Quando a disfunção se instala, tudo é esquecido. Começa a distorção daquela busca.

Há a perda dos valores originais ao se desenvolver a dependência e o mais importante neste momento é conseguir a droga. Quando digo droga, refiro-me ao álcool e outra qualquer substância que a pessoa usa, levando-a a viver em função dela. Os valores vão mudando, para se adequar a este novo foco. A pessoa que tinha como objetivo ser um bom profissional , começa a decair e acha vários motivos para justificar o que era antes da droga, intelectualizando seu comportamento. O fato é que os valores vão sendo distorcidos. Valores que tinham a ver com espiritualidade, solidariedade, humildade , honestidade, tornam-se intoxicados pelas drogas.

Amai-vos: Quando se fala em dependência química pensa-se logo em jovens. Conhece casos de idosos dependentes químicos?

Eliana Feire - Em geral, as drogas, dependendo da idade, vão se modificando e no caso da terceira idade entra o álcool e muitos medicamentos. Há os casos de dependentes de tranqüilizantes para dormir e, como a vaidade continua , há também os medicamentos para emagrecer. É difícil dizer se é melhor ou pior para ser tratado, pois observa-se o argumento sempre usado - "se cheguei até aqui, por que vou mudar ?" - . Argumentam com história de vida e tentam provar que têm consciência da situação. Já o jovem não tem ainda um passado, julgam não ter nada a perder, ainda não construíram uma vida . Nota-se que a motivação para uma mudança vem do sentimento de perda.

Amai-vos: As tradicionais técnicas de terapia psicológicas funcionam no tratamento de dependentes químicos?

Eliana Freire - Tudo é uma questão do momento em que encontro o cliente. Se está num momento de dependência ativa, em que a possibilidade de escolha de liberdade está totalmente travada pela compulsão, não me parece que seja indicado um tratamento com psicanálise , pois está precisando de uma ajuda anterior ao estado atual. Vai precisar de uma ajuda diretiva, intensa, cercada de algo muito maior do que é proposto pela psicanálise. Trata-se de uma emergência, não se pode usar um tratamento mais prolongado. É preciso "salvar" o cliente para se ter tempo de raciocinar. Considero que os "grupos anônimos" seriam um aliado a qualquer profissional que trabalhe com dependência química. A adequação de cada técnica depende de cada caso. A aliança com grupos de ajuda, na maioria dos casos, é muito importante para o profissional que trata o cliente .

Amai-vos: Um dependente químico sofre mais de herança genética ou sofre mais por distúrbios emocionais como falta de amor, falta de carinho ou sentimento de perdidos na vida?

Eliana Freire - Quanto mais o tempo passa, percebo que a maioria dos fenômenos existenciais são muito complexos. É muito difícil afirmar se isso é bio ou se é psico, como se fossem separados. Nota-se que nesse campo há componentes genéticos, contudo não se pode saber o peso de cada um. Varia de indivíduo para indivíduo e, provavelmente, quanto mais se tem um ambiente propício para o uso da droga, menos disposição genética precisa-se para que se desenvolva aquela disposição.

Gostaria de estudar mais casos que possam mostrar, como por exemplo, uma pessoa que vive num ambiente carente de tudo, hostil, muita droga e com pouca perspectiva de futuro, pode escapar da dependência.

Por outro lado, sabe-se de casos de pessoa que tem uma família presente, com diálogo, boa escola e mesmo assim verifica-se o desenvolvimento de uma dependência química. O ser humano é uma surpresa.

Amai-vos: O jovem considera espiritualidade sempre ligada à religião. Isso impede abordagens num tratamento?

Eliana Freire - Quando a espiritualidade é abordada no tratamento, separa-se da religião e mostra-se que a espiritualidade pode ser vivida, mesmo que a pessoa não pertença a uma determinada religião. Um exemplo que ilustra bem a situação é a seguinte: - uma pessoa que viva muito isolada, sem namoro, sem amigos ou sem se relacionar com os pais, pode ter uma espiritualidade revelada numa simples relação que tenha, por exemplo, com um bicho amigo,um gato, um cachorro,etc. Nesse tipo de relacionamento, pode-se vivenciar valores que desenvolvam a identificação com uma espiritualidade . Trata-se de uma fonte onde se pode estudar uma série de fatos , como verificar pessoas que perderam muita coisa, estão abrutalhadas , perderam a esperança, não acreditam em mais nada. Contudo, pode-se descobrir numa simples relação, seja qual for, indicadores de uma espiritualidade expressiva.