Entrevistas

Cappio, Gandhi e o jejum como luta pacifista - Entrevista com Lia Diskin

Lia Diskin é argentina, residente em São Paulo. Jornalista, com especialização em Crítica Literária pelo Instituto Superior de Periodismo José Hernandez, de Buenos Aires, realizou estudos sobre Upanixades na Vedanta Society em Uttar Pradesh, Índia. Especializou-se nos filósofos Nagarjuna e Kamala Shila no Centre for Tibetan Studies da Library of Tibetan Works and Archives em Dharamsala, Índia. Recebeu a medalha da Associação Cultural Internacional Gibran (ACIGI) por "Acrescentar ao Progresso do Ocidente a Sabedoria do Oriente" (1986). Conselheira para assuntos latino-americanos do Comitê Internacional Pró-Tibet, Washington, EUA., foi responsável pelas visitas do Dalai Lama ao Brasil e à América do Sul. Em 1998, criou o Projeto Gandhi e a Não-Violência, que foi realizado com a Polícia Militar do Estado de São Paulo, do qual participaram 82.600 efetivos e do projeto Não-Violência e Segurança Pública (que também coordenou), com a Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo, do qual participaram 36.000 efetivos, que aconteceu em maio de 1999. Além disso, Lia Diskin coordena o Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz, um programa da Unesco e orienta os programas destinados a professores da rede pública de ensino Valores que não têm preço, Gandhi e a não-violência, e A Paz em Ação, que já treinaram mais de 40.000 professores. É membro da World Wildlife Fund (Fundo Mundial para a Natureza) - projetos internacionais para a Preservação da Natureza e das Religiões. Traduziu e editorou mais de 40 livros, entre eles: Minha Vida e minhas experiências com a Verdade, de Mahatma Gandhi (São Paulo: Palas Athena, 1999); e Yoga, imortalidade e liberdade, de Mircea Eliade (São Paulo: Palas Athena, 1996). É também autora e co-autora de livros sobre filosofia e educação, entre os quais citamos: Paz, como se faz, Editado pela Unesco com o Governo do Rio de Janeiro, em 2002.

IHU On-Line - Como a senhora avalia o gesto de Dom Luiz Frei Cappio, que assumiu um jejum ou greve de fome, para conseguir frear as obras do governo da transposição do Rio São Francisco?
Lia Diskin - É o gesto legítimo de alguém que conhece o dia-a-dia das populações ribeirinhas, suas dificuldades, desafios e frustração com promessas que se renovam a cada governo e nunca se cumprem. Na convicção de Dom Frei Luiz Cappio a transposição do Rio São Francisco agravaria a penúria de milhares de pessoas, que esgotaram todos os recursos legais para impedir sua realização. Aliado a isso, sua vocação religiosa o impele a dedicar o melhor de si para servir seu próximo, no exemplo vivo do próprio Cristo.

IHU On-Line- - Por que uma reação assim choca a cultura contemporânea e faz com que o Bispo fosse chamado de suicida pela mídia, de "judiar o corpo" como foi o caso do Presidente da República ou de autoritário como foi o caso de alguns ministros?
Lia Diskin - É evidente que nos encontramos em uma sociedade que sobrevaloriza o individualismo, a exclusividade, o prazer voraz. Quando surge, no cenário nacional, alguém que está disposto a abrir mão, não de suas posses, títulos ou cargos - o que já seria uma afronta para o egoísmo - mas sua própria vida, desencadeia sentimentos polarizados. Isto é justamente o que se busca com o jejum como instrumento de transformação social: sensibilizar consciências apáticas. Nesse sentido, o jejum de Dom Cappio foi um rotundo sucesso! Seu silêncio ascético, abrigado na aridez do Nordeste brasileiro, ecoou no mundo todo com mais força e ousadia do que discursos proferidos na ONU.

IHU On-Line - Qual é o sentido do jejum no pensamento e na vida de Mahatma Gandhi?
Lia Diskin - Quando falamos em Gandhi, não podemos esquecer o contexto cultural a que pertenceu, nem o fato de haver lutado contra várias frentes ao mesmo tempo. Por exemplo, contra o imperialismo britânico na Índia e contra o sistema de castas no seu próprio país. O jejum para Gandhi tem um propósito purificador, no sentido de remover a ignorância cujas conseqüências provocam sofrimento, humilhação, desamparo. Para ser eticamente efetivo deve cumprir três pré-requisitos: 1) realizar-se por motivos que atendam necessidades do bem comum, de outros, de muitos. Não é aceitável fazer uso do jejum para benefício próprio, ou de causas auto-referentes. 2) Ater-se às exigências da verdade, comprometendo-se com a transparência das informações, evitando tanto quanto possível a manipulação e o sigilo. 3) Não ter por objetivo a destruição ou descrédito de alguém em particular, isto é, não ser movido pelo ódio, raiva, ciúme ou inveja.

IHU On-Line-- Como, no caso de Gandhi e do hinduísmo, o jejum está intimamente ligado à luta pela paz e pela não-violência?
Lia Diskin- O jejum exige do autor um repertório de atitudes que nascem da autodisciplina, autocontrole e autopurificação. Não é uma técnica disponível para todos. Obviamente, todos podemos jejuar, mas fazer uso do jejum para alcançar mudanças coletivas está reservado a muito poucos. Esses precisam ter estatura moral, autoridade espiritual e contar com o respeito e consideração da comunidade. É a admiração dos outros que outorga poder e dignifica o sacrifício do jejuador. No caso de Gandhi, a não-violência é o compromisso maior, e deve estar presente em todos os procedimentos ou meios de ação política. Longe de ser passiva, a não-violência revoluciona a dinâmica do conflito, pois não busca derrubar um oponente, mas preservar sua integridade física e psicológica. O alvo dos métodos de resolução pacífica de conflitos é o comportamento, lei, costume ou atitude que oprime, subjuga, imobiliza ou impede o pleno exercício da condição humana. O que se condena não é o tirano, mas o ato de tirania. Desse modo, sempre fica aberta a possibilidade de conversão, a transformação do tirano, podendo tornar-se um futuro aliado e promotor de relacionamentos, permeados pelo respeito e pela confiança mútua.

IHU On-Line - Quais eram os interesses contra os quais Gandhi lutou em sua época usando o jejum como instrumento?
Lia Diskin - O jejum foi utilizado por Gandhi como método de evidenciar injustiças em quatro frentes: 1) contra o racismo na África do Sul; 2) na luta pela independência da Índia, subjugada pelo Império Britânico; 3) contra o sistema de castas de sua própria sociedade; 4) para minimizar o ódio religioso entre hindus e muçulmanos.

IHU On-Line - Qual é o sentido místico do jejum? O que ele produz naqueles que o fazem?
Lia Diskin - O jejum, o voto de silêncio, o recolhimento das atividades e a oração ou meditação são vias de limpeza interior, purificação. A avalanche de estímulos que recebemos diariamente exaure nossa capacidade criativa e de renovação interior. Transferimos geralmente o nosso poder espiritual para as coisas, pessoas e instituições. Assim criamos amuletos, ídolos, seitas e gurus, dos quais mais tarde exigimos soluções eficazes, proteção e cura. No fundo, usamos a lógica mercantil de investir "recursos" para auferir "lucros". O que se busca com o centramento, com a quietude, é ampliar a capacidade de percepção da realidade, tornando nossa presença no mundo fonte de benefícios e inspiração para todos quantos nos rodeiam. Fazer de nós um instrumento de paz, como dizia São Francisco, é a obra à que se dedica um educador de si próprio.

IHU On-Line- - Que aspectos do pensamento e a vida do líder pacifista poderiam iluminar hoje mais a sociedade brasileira?
Lia Diskin - Penso que a arquitetura conceitual e vivencial da metodologia da não-violência; tanto para promover mudanças individuais quanto transformações sociais. Os índices de violência nas grandes capitais brasileiras são preocupantes, descaradamente incivilizados. Insistir em sistemas repressivos é retrógrado e se mostra ineficiente.
Há outras vias, ainda não implementadas em grande escala, que se mostram promissoras e salutares. Exemplos concretos são: a mediação de conflitos, a justiça restaurativa; as terapias comunitárias, que começam a germinar no Brasil de maneira silenciosa. É questão de tempo e persistência ou, como gosta de dizer Edgar Morin , "há que se ocupar as brechas, as frestas, para redescobrir o humano".

IHU On-Line - Como a senhora vê o debate sobre desarmamento, a pergunta sobre proibição de armas e munições que será feita no referendo do próximo dia 23?
Lia Diskin - O debate sobre o desarmamento está sendo um grande exercício nacional de cidadania, de reflexão e capacidade de argumentação. Seja qual for o resultado do referendo em 23 de outubro, o tema tomou as ruas, as salas de aula, os bares, as conversas em família. Isso por si só já justificou a proposta da consulta popular. Entretanto, é necessário esclarecer que o objetivo do Estatuto do Desarmamento não é desarmar os criminosos. Essa é uma função da polícia. Não podemos ser ingênuos nem iludir a população. Temos que disponibilizar informações e estudos que permitam às pessoas tirar suas próprias conclusões. Esses estudos revelam que a presença de uma arma em casa é mais um fator de risco do que de proteção: uma pessoa com arma em casa tem 57% mais chances de ser assassinada do que aquela que está desarmada, com o agravante de que o assassino termina por apropriar-se da arma que supostamente tinha o objetivo de proteger.

IHU On-Line- Algum outro aspecto que queira destacar e não foi perguntado?
Lia Diskin - Sim, gostaria de manifestar publicamente minha admiração pelo gesto corajoso e singular de Dom Frei Luis Cappio. Não convocou as massas para jejuar com ele, nem ostentou sua decisão em praça pública. Assumiu conscientemente os riscos e, sem ódio nem ressentimentos, levou à frente sua visão. (Fonte: Unisnos)