Entrevistas

"O design constitui uma utopia" - Entrevista com Enzo Mari

"O design não é uma técnica, e sim uma arte e como tal não pode ser ensinado". Sem meias palavras. Assim foi a entrevista concedida pelo artista e designer italiano Enzo Mari. Na conversa ele disse que design não é projeto de engenharia, é linguagem. "É realização de uma forma, é definir a gramática de um conjunto de relações formais, a sintaxe". Questionado sobre se o nascimento do design coincidia com o fim da utopia socialista, foi categórico: "O design é a estrutura da utopia socialista". Nascido em Novara, Itália, Mari atualmente vive e trabalha em Milão. Há mais de 50 anos na profissão, pertence à geração de designers responsável pela consolidação da fama italiana nessa área. Estudou no Politécnico de Milão, no Centro de Comunicação Visual em Parma e na Academia de Belas Artes de Carrara. É professor emérito na Universidade de Hamburgo, Alemanha. Atualmente dedica-se tanto à pesquisa quanto à prática do design. Realizou pesquisas na psicologia da percepção do espaço, da cor e do volume. Com projetos em indústrias como Driade, Olivetti, Alessi, Ideal Standart, Thonet e Muji, entre outras, tem seu trabalho reconhecido pelos cerca de 40 prêmios que lhe foram concedidos, inclusive o Compasso d'Oro (1967, 1979, 1987 e 2001). De suas publicações, destacamos Funzione della Ricerca Estetica. Milano: Edizioni di Comunit, 1970; Ipotesi du Rifondazione del Progetto. Milano: ADI, 1978; Perch una Mostra di Falci. Milano: Danese, 1989.


IHU On-Line - Como definiria o design?
Enzo Mari - Existem dois tipos de design, há o design assim como se apresenta, além das utopias, além do que se ensina na escola, àquele que encontramos nas butiques de design e o design real. Há também uma idéia do design que não corresponde absolutamente ao design real. Eu vivo continuamente esta contradição, isto é, considero que o design real, aquele que se encontra nas butiques, nas lojas especializadas em design hoje seja uma coisa completamente falsa e inútil. Durante toda a vida, procurei produzir o outro design, ou ao menos conseguir transmitir alguma coisa de positivo, mas não é assim tão simples.

IHU On-Line - O nascimento do design coincidiu com o declínio da utopia socialista?
Enzo Mari - Não, o design é a estrutura da utopia socialista. Quando se fala de design, o real significado desta palavra é o bom projeto. Eu, porém, se tivesse que fazer uma mostra de bons projetos, provavelmente colocaria 80% de objetos que não são realizados, que não são vendidos no setor do design, como, por exemplo, alguns produtos industriais, onde os projetos têm uma concreção e também uma alta qualidade formal, enquanto colocaria somente 15% de objetos projetados por designers. Quando trabalho para as empresas que têm como bandeira a palavra design, que receberam prêmios, que têm os seus objetos em museus, etc., constato sempre uma coisa impressionante: os instrumentos de trabalho, prateleiras, máquinas e utensílios, tudo aquilo que eles utilizam para trabalhar têm qualidade formal muito mais alta do que os objetos que toda essa gente celebra.

IHU On-Line - O senhor acredita que o design seja um fruto do capitalismo pós-moderno?
Enzo Mari - Durante o Renascimento, no século XV, época em que se discutia qual era a arte mais importante, a pintura, a escultura, etc., os grandes artistas daquele período diziam que a primeira das artes era o desenho. Antes da Revolução Francesa, não existia produção de bens de consumo para as pessoas. Construíam-se somente grandes manufaturados para a aristocracia e os instrumentos de trabalho. As pessoas não tinham o que vestir, herdavam os sapatos, as roupas dos avós, dos pais, viviam muito miseravelmente. Com a Revolução Francesa, e falo dela porque é a conclusão de um período da história européia de mais de mil anos, se afirmou a idéia de que a cidade não pertencia à aristocracia, mas pertencia aos cidadãos, à primeira burguesia, à burguesia nascente das cidades européias, Milão, Veneza, Amsterdã. As fortificações daquelas cidades quase nunca tinham os canhões voltados para o exterior, mas voltados para as cidades, porque eram mil anos de submissões, tentava libertar-se do jogo da aristocracia. Com a morte do rei, afirmou-se a igualdade, igualdade quer dizer não somente igualdade ideal, mas também igualdade no consumo. Todos podiam ter objetos que o rei possuía. Era somente um ideal, porque no final as pessoas continuavam pobres como antes. Então, os artesãos daquela época, que não trabalhavam mais para a aristocracia, tinham que inventar um modo para poder produzir com baixos custos, e este modo era o parcelamento do trabalho. Cada pessoa não fazia mais nada totalmente sozinha, como faz um artista, mas fazia um buraco, colava alguma coisa, deslocava um material, etc. e é isso que determina o parcelamento do trabalho. Esta é a invenção da indústria, não são as máquinas. Este tipo de indústria teria nascido mesmo sem a invenção das máquinas. O custo desta operação é absurdo, porque estes objetos podem ser produzidos somente tirando das pessoas que trabalham a capacidade de gerir integralmente o trabalho, isto é, as pessoas são consideradas como máquinas.

Expropriação do trabalho
Hoje parece incompreensível, se conhecemos a indústria, vemos que diversos gerentes, diversas articulações do trabalho industrial são ainda iguais, cada um sabe fazer uma coisa somente. Portanto, a idéia do design, fazer um bom projeto, nasce substancialmente como uma idéia que se pode produzir, onde o resultado do trabalho não seja a realização de um garfinho para comer escargot, ou de um telefone celular com o qual se podem fazer pequenos e estúpidos jogos, mas sim que as pessoas que trabalham, desde os empresários aos técnicos e a todos os operários, acreditem naquilo que fazem, isto é, sinta que o seu trabalho não é trabalho cego, trabalho como alienação, mas trabalho como transformação, como o trabalho que realiza um artista ou um cientista. Acredito que grande parte dos desastres sociais que acontecem ainda hoje em todo o mundo nasça disso, porque quase todo o mundo, independentemente do nível de riqueza, sofre desta expropriação do trabalho que é a expropriação da própria vida.

Teoria do design
Portanto, tudo o que se ensina nas escolas de teoria do design é falso. As teorias do design são sempre elaboradas por teóricos que têm como interlocutores os escritórios de publicidade das empresas, estou falando das escolas alemãs, que arruinaram o mundo. Esta é a situação. Então, quando se fala do bom projeto, não deve ser considerado como bom projeto para a indústria, mas bom projeto para a pessoa. Considero que o design, configurando-se como uma profissão, renuncia a qualquer ideal.

IHU On-Line - Acredita que a sociedade pós-moderna privilegia a forma e o conteúdo acaba ocupando papel secundário? Até que ponto o design está implicado nisso?
Enzo Mari - Quando se fala de forma e de conteúdo, estupidamente a escola alemã reduz os conteúdos a dois ou três. Os conteúdos são infinitos. Um dos maiores erros de todas as escolas nasce do pressuposto de que o design é uma técnica. Não é verdade. O design é uma arte, e a arte não pode ser ensinada, a arte, os grandes artistas, os grandes projetistas são ajudados somente por um tipo de ensinamento, que é aquele dado pelos grandes arquétipos produzidos pelos seres humanos. As grandes obras-primas do Egito, da Grécia, da Itália e também das outras culturas orientais, obviamente, abrem uma janela para o horizonte das contradições do mundo e dão um sinal de esperança.

IHU On-Line - Podemos estabelecer uma relação entre design e a criação de necessidades?
Enzo Mari - Eu posso lhe dizer o que faço eu. Eu não tenho idéias, não quero ter idéias, porque as idéias que o sistema, que o mercado global me pede, tendencialmente são idéias de pornografia. Eu faço só o que a indústria me pede, e ao fazê-lo conheço a história, sei qual é o meu trabalho, o meu trabalho é saber controlar a qualidade, a gramática, a sintaxe da forma. A tecnologia é um simples instrumento, é necessário conhecê-la bem, mas é um instrumento, não é um valor. O que as pessoas querem é o que as pessoas acreditam que querem. O problema do design é saber o que propor para as pessoas, que corresponda às suas reais necessidades, independentemente de como elas exprimem estas necessidades.

IHU On-Line - Como o design interfere na imagem que as pessoas constroem de si mesmas como sujeitos e consumidores?
Enzo Mari - Eu antes falei sobre as três palavras que contradizem toda a nossa sociedade, a sociedade mundial hoje, particularmente a cultura ocidental, que é a única cultura real. As três palavras são: igualdade, fraternidade e liberdade. A palavra igualdade me agrada muito, porque dela descendem algumas leis; homem e mulheres podem votar, brancos e negros são iguais, etc. A palavra fraternidade eu a deixaria para os sacerdotes, não compreendo bem o que quer dizer, é uma palavra de poesia, mas muito abstrata. A palavra liberdade me agrada muito. Não há enciclopédia de cinco mil páginas que diga com precisão o que é liberdade. Então, aqui está o problema. As religiões antigas, muçulmana, hebraica, católica, etc. são consideradas como entidades morais. Isso não é verdade, são entidades políticas, isto é, propõem, ao início das sociedades, algumas regras coletivas para que o homem possa seguir, que seja um corrimão para a dignidade do homem. Quando Moisés desceu do monte Sinai com as tábuas esculpidas por Deus contendo os dez mandamentos, se deu conta de que o seu povo estava adorando o bezerro de ouro e, enfurecido, quebrou as tábuas. É o que acontece hoje.

Valores coletivos
Em um certo sentido, eu penso que a arte, a poesia, a literatura, a música e também o design sejam alguma coisa que indique um valor coletivo, que indique o bom viver. Todas as idiotices contadas sobre a liberdade e sobre o fim das ideologias são a pior das ideologias que o homem exprimiu na sua história, talvez até pior do que a ideologia nazista. Diante das muitas idiotices que se contam, chegou o momento de começar a escolher entre tudo o que é proposto pelo mundo da mercadoria. O mundo da mercadoria tem como valor importante, tem como objetivo a ignorância, e somente com a ignorância a mercadoria se reproduz, e morre rapidamente, e para morrer rapidamente tudo o que foi feito em 10 anos, seis meses antes, não deve mais agradar, precisamos produzir outras coisas. Esta é a cultura da liberdade que o mundo conhece.

IHU On-Line - Podemos relacionar o design com a rapidez e a fugacidade características de nosso tempo?
Enzo Mari - Não. Eu acho que é preciso encontrar alguma referência comum, deixando portas abertas à pesquisa e à possibilidade de as pessoas exprimirem-se, mas temos que encontrar alguma referência. Em resumo, isso todos deveriam entender, o design não é projeto de engenharia, é linguagem, é realização de uma forma, é definir a gramática de um conjunto de relações formais, a sintaxe, etc. Portanto, uma linguagem deve ter algumas regras comuns, ou seja, na Itália, as pessoas se entendem porque falam italiano, no Brasil se fala português, etc. Italiano e português são línguas diversas, mas com um bom intérprete as pessoas podem se comunicar, isto é, a linguagem é única. Uma situação, em que todos os imbecis que tenham como objetivo acordar de manhã e inventar uma língua nova, é a negação de qualquer relação social.
IHU On-Line - Muitas pessoas pensam em design como sinônimo de tecnologia. O senhor já disse que não está de acordo, mas por que isso acontece?
Enzo Mari - Porque, tendo que mascarar o vazio, inventam-se falsos problemas. Vejamos por exemplo o mecanismo do capital. Estou falando da vergonha do empresariado italiano, mas poderíamos falar também da vergonha do empresariado brasileiro, americano, em todo o mundo, onde o único objetivo é fazer dinheiro. O capital pode ser entendido positivamente, sem capital não há escolas, não há hospitais, não há pesquisa, isso é verdade, mas é também verdade que quem guia o capital o utiliza para fins obscenos, para fins pessoais. Portanto, são pouquíssimas as situações onde o capital é usado corretamente e com dignidade.

IHU On-Line - O senhor nunca freqüentou uma escola de design?
Enzo Mari - Faço este trabalho há 50 anos. Eu não fiz nenhum tipo de escola. Fui estudar com os grandes mestres da Antigüidade, o que nenhuma escola de design faz, de fato são todos caducos, desde os professores aos alunos. Fiz uma série de pesquisas sobre a percepção, sobre as relações sociais, nos últimos anos procuro exprimir e esclarecer os fragmentos do meu pensamento. Não comecei como profissional, incorporo, contra a minha vontade, esta idéia. São já 50 anos que me encontro na sala dos botões onde se decide a mercadoria, mas não aceito isso. Realisticamente fiz quase dois mil projetos. Procuro entender como se possa produzir de modo honesto, sem chegar ao ponto de pegar uma arma e disparar contra si mesmo. Isso me faz entender muitas coisas, normalmente eu entendo onde vai chegar o mundo 15 anos antes do que todos os economistas, todos os filósofos, exatamente porque estou no momento crucial, onde estudo. Então, neste momento, nestes últimos anos estou em uma situação de quase impossibilidade de trabalhar com design. Durante uma conferência no Rio de Janeiro, afirmei que os sociólogos definem a palavra design como uma palavra "mala", porque cada um coloca nela o que quer. Havia um intérprete, e vi que toda a sala, cerca de 500 pessoas, começaram a rir, não entendi porque, e no final perguntei porque todos riram, e explicaram-me que no Brasil há a expressão "mala sem alça", para falar de um imbecil. Então, voltei para a Itália e escrevi um livro com o título: A mala sem alça .

IHU On-Line - Por que o senhor acredita que o design esteja ocupando tanto espaço?
Enzo Mari - Bem, ocupa tanto espaço porque é uma das palavras, dos modos, veja, por exemplo, se andássemos pelas ruas das cidades italianas ou alemãs e olhássemos as garotas, como se vestem, que saem quase sem saia, que saem com sapatos com salto agulha, que fazem tatuagens em todas as partes do corpo, digamos que o design é uma destas expressões. Acredita-se que as pessoas de um certo ambiente pensam que esta palavra seja a moda.

IHU On-Line - O que se pode dizer do design em relação à política, à economia, à comunicação?
Enzo Mari - Eu sempre procurei falar disso, embora quase nenhum dos meus colegas, dos autores e dos professores faz isso, escrevi ensaios, faço palestras nas escolas, em todas as formas possíveis procuro falar de projeto. Hoje, quando alguém me pede para fazer uma nova cadeira, eu sei que o mercado propõe ao menos 10 mil novas cadeiras por ano há quase 40 anos, portanto, conheço 400 mil cadeiras, 400 mil garfos para comer escargot, 400 mil lâmpadas, e isso é design, que também existe. Então, é quase impossível, ou se fazem coisas estúpidas ou se fazem coisas que são apenas repetições de coisas já feitas. Quando me pedem para fazer um projeto diferente, eu não sei o que fazer, pois não existe mais, do ponto de vista da indústria, a razão do projeto como função ou utilidade, a única coisa que pedem é que o projeto seja diferente.

IHU On-Line - Quais são as relações que podemos estabelecer entre o design e a utopia na contemporaneidade?
Enzo Mari - As pessoas não entendem bem. A utopia é o lugar que não existe, e que não pode ser realizado. Quando alguém, como no século XX, quer realizar uma utopia, há dezenas de milhões de mortes, alguém realiza uma utopia onde todos os homens são loiros, alguém realiza uma utopia onde o Estado dirige a produção, possui todos os instrumentos de produção. Portanto, as utopias sempre indicaram um percurso, são um corrimão ético, são algo que indica o fazer bem, mas a utopia, por definição, não pode ser realizada. Quando ouço falar de utopia, seguidamente a palavra utopia é usada impropriamente, se está pensando em anarquia.

IHU On-Line - O senhor acredita que o design substitui a utopia?
Enzo Mari - O design constitui uma utopia, o operar bem não tem certamente uma direção. Mas operaremos bem se tivermos a coragem de dizer que o que diz a indústria não é um valor.

(Fonte: http://www.unisinos.br/ihu)