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Megafusões agrícolas: quem decidirá o que comemos

Publicado em 15/6/2017 por: Silvia Ribeiro

“Tudo indica que as grandes empresas de maquinaria se mobilizarão para comprar os gigantes da genética, logo após terem terminado a primeira sequência de fusões. Esta segunda sequência tem o objetivo de impor uma agricultura altamente automatizada, com muito poucos trabalhadores, o que oferecerá aos agricultores um pacote que não poderá ser recusado: desde as sementes, insumos, máquinas, dados genéticos e climáticos, até quais seguros eles terão de comprar, além de buscarem que os créditos agrícolas sejam condicionados à aquisição deste novo pacote, assim como já é feito agora com as sementes e os agroquímicos”, escreve Silvia Ribeiro, pesquisadora do Grupo ETC, em artigo publicado por Alai, 13-06-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis o artigo.

Definitivamente, o futuro da alimentação não é o que era para ser. Pelo menos no que a agricultura industrial se referia. Monsanto, o vilão mais conhecido da agricultura transgênica, pode em breve perder seu nome e desaparecer do cenário mundial, se sua compra for autorizada pela Bayer - embora suas intenções sejam as mesmas. As fusões Syngenta-ChemChina e DuPont-Dow também seguem em negociação sob o escrutínio das autoridades anti-monopólio em muitos países. Se as fusões se concretizarem, as três empresas resultantes irão controlar 60% do mercado mundial de sementes comerciais (incluindo quase 100% de sementes geneticamente modificadas) e 71% dos agrotóxicos a nível global, níveis de concentração que superam amplamente as regras antimonopólio de qualquer país.

Estas megafusões terão muitos impactos negativos a curto prazo: aumento significativo dos preços dos insumos agrícolas, além da diminuição da inovação e das variedades à disposição do mercado, maiores limitações ao melhoramento vegetal público e aumento de pesticidas nos campos - e, portanto, nos alimentos - para poder continuar vendendo sementes transgênicas, embora hajam provocado resistência em dezenas de plantas invasoras e tenham que subir as doses e adicionar misturas aos agroquímicos ainda mais tóxicos. Para essas empresas, seu maior negócio é vender veneno. Ou seja, se não os impedirem, este será o curso de ação.

As fusões terão também fortes impactos sobre as economias rurais e de agricultores familiares, embora estes utilizem em sua maioria as suas próprias sementes e pouco ou nenhum insumo químico, porque o poder de pressão destas megaempresas frente a governos e instituições internacionais aumentará com o seu tamanho e com o monopólio dos primeiros elos da cadeia agroalimentar. Eles aumentarão a pressão para obter leis de propriedade intelectual mais restritivas; para restringir ou proibir as trocas de sementes entre agricultores - por exemplo, com normas "fitossanitárias" e a obrigação de utilizar sementes registradas -; para que os programas voltados para o campo e os créditos agrícolas sejam condicionados ao uso de seus insumos e sementes patenteadas; para que os gastos em infraestrutura e outras políticas agrícolas beneficiem a agricultura industrial e desloquem os camponeses.

Como se isso não bastasse, há outros fatores muito preocupantes. A sequência de fusões não acabará com esses movimentos, mas está apenas começando. O que está em jogo a médio prazo é quem controlará os 400 bilhões de dólares de todos os insumos agrícolas. Atualmente, o valor conjunto do mercado comercial mundial de sementes e agrotóxicos é de 97 bilhões. O resto, três vezes maior, é controlado por empresas de máquinas e de fertilizantes, que também estão se consolidando. As quatro maiores empresas de maquinário agrícola (John Deere, CNH, AGCO, Kubota) já controlam 54% do setor.

O setor de maquinário agrícola já não é mais constituído apenas por tratores simples: ele tem adquirido um alto grau de automação, integrando GPS e sensores agrícolas às suas máquinas, drones para irrigação e pulverização, tratores não tripulados, assim como um acúmulo maciço de dados de satélite sobre solos e clima. Por sua vez, a Monsanto e companhia, as seis grandes "gigantes genéticas", também se digitalizaram e controlam uma enorme base de dados genômicos de cultivos, micro-organismos e plantas de agroecossistemas, além de outras bases de dados relacionadas.

Já existem entre ambos os setores contratos de colaboração e até mesmo empresas compartilhadas para a venda de dados climáticos e seguros agrícolas. A Monsanto, por exemplo, adquiriu em 2012 a empresa Precision Planting, de instrumentos e sistemas de monitoramento para "agricultura de precisão", desde o plantio à irrigação e a administração de agroquímicos. Em 2013, ela comprou a The Climate Corporation, para registro e venda de dados climáticos. A John Deere posteriormente concordou em comprar a Precision Planting para a Monsanto, mas os escritórios antitrust dos Estados Unidos e, posteriormente do Brasil, contestaram a compra, considerando que a John Deere passaria a controlar uma porcentagem monopólica do setor. Por mais que finalmente a venda tenha sido cancelada em 2017, este é um exemplo da tendência. Existem várias outras empresas de base digital-instrumental (Precision Hawk, Raven, Sentera, Agribotix) partilhadas ou em colaboração entre as transnacionais de maquinaria agrícola com as de sementes e agrotóxicos. A este respeito, veja o documento "Software contra Hardware" do grupo ETC.

Tudo indica que as grandes empresas de maquinaria se mobilizarão para comprar os gigantes da genética, logo após terem terminado a primeira sequência de fusões. Esta segunda sequência tem o objetivo de impor uma agricultura altamente automatizada, com muito poucos trabalhadores, o que oferecerá aos agricultores um pacote que não poderá ser recusado: desde as sementes, insumos, máquinas, dados genéticos e climáticos, até quais seguros eles terão de comprar, além de buscarem que os créditos agrícolas sejam condicionados à aquisição deste novo pacote, assim como já é feito agora com as sementes e os agroquímicos.

É essencial entender e denunciar os impactos das megafusões desde já. Muitas organizações têm se mobilizado para protestar nos EUA, Europa, China e vários países da África e da América Latina, inclusive diante dos escritórios antimonopólio, o que tem pelo menos atrasado a sua aprovação. Substancialmente, trata-se de impedir que os agronegócios se apropriem de todo o campo e da alimentação, além de ser uma forma de proteger a produção rural e agroecológica, a única forma de comer de maneira saudável e com a soberania dos alimentos.

Silvia Ribeiro, pesquisadora do Grupo ETC

Instituto Humanitas Unisinos