Espaço Social

Para que se possa sonhar, despertar é preciso

Publicado em 29/6/2017 por: Alexandre Araújo Costa

"A Terra é povoada por sonhos há 300 milhões de anos e é hoje habitada, provavelmente, com alguns trilhões de sonhadores. Talvez o Antropoceno não seja em si uma ameaça definitiva à Biosfera em seu conjunto, mas pode ser letal ou pelo menos muito destrutiva para essa Morfeosfera. O capitalismo, em sua sanha homogeneizadora, colonizadora, é como um pesadelo que mata os sonhos dos que sonham diferente, ou como um sonho egoísta que não reconhece os demais" escreve Alexandre Araújo Costa, professor, pesquisador e um dos autores do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, em artigo publicado por Vírus, 26-06-2017.

Eis o artigo.

Um estudo recente publicado na revista Nature, fez voltar o momento de surgimento de nossa espécie para 300 mil anos. Um tempo exíguo do ponto de vista geológico, dado que o planeta que habitamos, existe há 4,5 bilhões de anos. Uma melhor noção de quão diminuto é nosso tempo de existência emerge ao condensarmos o tempo indescritivelmente longo de existência do nosso pequeno ponto (hoje azul, ainda azul) em 24 horas. Neste caso, teríamos surgido faltando meros 5,8 segundos para a meia noite.

Mas durante muito tempo nossa espécie teve, sobre o ambiente natural, um impacto não tão diferente do de inúmeras outras. Isso começou a mudar um pouco, primeiro com o surgimento da agropecuária (que, não por coincidência, acontece após o princípio do Holoceno, época geológica iniciada há 11.700 anos, constituindo-se no período quente que sucedeu a mais recente glaciação) e o estabelecimento de assentamentos humanos, depois com o crescimento destes e o desmatamento de áreas de floresta nativa. Em seguida, os europeus atentaram contra seus semelhantes em outros continentes, irmãos e irmãs de quem aquelas terras seriam verdadeiramente de direito e produziram grandes danos ambientais, com o extrativismo. Escravidão, genocídio, devastação… Mas mesmo os efeitos devastadores da invasão europeia nas terras africanas e americanas não alçaram a humanidade à escala de força geológica.

Foi a partir da chamada “Revolução Industrial” que a produção de bens materiais se acelerou e abriu caminho para que os impactos da humanidade sobre o planeta assumissem outra escala. O uso intensivo de energia, necessário para impulsionar os processos industriais acelerou o aproveitamento de fontes energéticas, com ênfase nas fontes fósseis. Os dois séculos de Revolução Industrial valeriam por 4 milésimos de segundo, fração de um piscar de olhos (um vinte e cinco avos desse piscar, para ser mais exato).

Mas mesmo a sociedade industrial não havia chegado à escala de força geológica provavelmente até meados do século XX, quando as curvas de diversos parâmetros assumiram a forma exponencial, configurando o que se convencionou chamar de “grande aceleração“, isto é, o crescimento em forma de progressão geométrica do conjunto de marcadores da produção industrial e agrícola (produção de papel, consumo de fertilizantes, número de veículos motorizados, demanda energética, uso de combustíveis, número de grandes barragens, etc.), da demografia e economia (crescimento da população, principalmente urbana, PIB global, fluxo de investimentos estrangeiros) e dos impactos no ambiente (perda de habitats e espécies, concentração de gases de efeito estufa, alterações no pH oceânico e outros). São menos de sete décadas, o que, seguindo nossa analogia temporal para a existência da Terra condensada em um único dia, nos daria pouco mais de um milésimo de segundo. São menos de sete décadas e tudo mudou no Sistema Terra, chegando mesmo a se introduzir uma nova “época” geológica, o Antropoceno, com a influência humana se tornando dominante em aspectos tão variados que vão das propriedades físicas da atmosfera às populações de todos os outros seres vivos.

O problema aí é que, sob a produção industrial capitalista, cresceu exponencialmente o impacto humano sobre o Sistema Terra, mas paralelamente nem de perto cresceu a percepção – individual e coletiva – que nós, humanos temos em relação a esse impacto. O fato caricato de que 7% dos estadunidenses acreditam que o leite achocolatado provém de vacas marrons é apenas uma ponta ridícula de um gigantesco iceberg.

A alienação é bem maior, afinal quantos de nós sabe dizer de onde vêm a água que bebe e a comida que consome? Nem no caso do mais proverbial pãozinho de café da manhã… De onde veio o trigo e para qual fábrica ele foi para produzir a farinha, o quanto de fósforo de fertilizante tinha nele e de que lugar ele foi minerado, de qual poço de petróleo veio o combustível usado para transportá-lo, etc.?

A irracionalidade do sistema salta aos olhos ao percebermos que somos menos capazes ainda de enumerar os impactos causados pelos resíduos, rejeitos e emissões de gases de efeito estufa associados a cada ato de compra e consumo de mercadorias. É uma alienação que se agiganta ao constatarmos que uma parcela expressiva da população (e de tomadores de decisão a começar do Nero Laranja à frente do Estado mais poderoso do globo) não apenas ignora, mas chega a negar a existência de vários desses impactos, a começar de algo tão perigoso quanto o aquecimento global antrópico.

Força colossal e ausência de percepção dela nos tornam um gigante sonâmbulo em uma loja de cristais, em que pesem os avanços da ciência, que até poderiam abrir-nos os olhos, não fosse esta tão violentamente instrumentalizada ou no limite escancaradamente sabotada e negada. Mas não é de todo surpresa, pois a “civilização humana” ora estabelecida é, na verdade, uma civilização capitalista, branca, eurocêntrica (e também patriarcal, heteronormativa, etc.), sobre a qual Davi Kopenawa comenta: “os brancos dormem muito, mas só conseguem sonhar com eles mesmos”. É um sonho é desprovido de alteridade, ou, lembrando Viveiros de Castro, temos um sonambulismo cartesiano (“sonho, logo existo”) e impermeável a (óbvio) pensar que “o outro sonha, logo existe” e, mais ainda, à inversão completa do tipo “o outro existe, logo sonha”.

Acontece que a estreiteza do nosso “sonho” é completamente negada pelo fato científico que pelo menos répteis, aves e mamíferos têm a capacidade de sonhar. “O outro existe, logo sonha”: a Terra é povoada por sonhos há 300 milhões de anos e é hoje habitada, provavelmente, com alguns trilhões de sonhadores. Talvez o Antropoceno não seja em si uma ameaça definitiva à Biosfera em seu conjunto, mas pode ser letal ou pelo menos muito destrutiva para essa Morfeosfera.

O capitalismo, em sua sanha homogeneizadora, colonizadora, é como um pesadelo que mata os sonhos dos que sonham diferente, ou como um sonho egoísta que não reconhece os demais. Tornou a humanidade esse sonâmbulo coletivo, destroçando tudo enquanto caminha.

O Antropoceno precisa ser entendido não apenas como genocídio, etnocídio, ecocídio e biocídio, mas também como morfeocídio. Para garantir que a Terra siga sonhando, é preciso que a humanidade acorde.

Alexandre Araújo Costa, publicado em Vírus

Instituto Humanitas Unisinos