Espaço Social

Inteligência artificial: a nova dependência?

Publicado em 10/7/2017 por: Sally Burch, Alai

"Não há muito tempo para reagir, como destacou, em sua recente visita ao Equador, o ex-ministro de Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, que alertou que o atual modelo econômico do país sul-americano durará cerca de cinco anos e depois - se não houver reposição tecnológica -, ficará de fora da cadeia de criação de valor", escreve Sally Burch, jornalista britânico-equatoriana e diretora executiva da ALAI, em artigo publicado por Alai, 05-07-2017. Traduzido por Henrique Denis Lucas.

Eis o artigo.

Entre as mudanças que estão ocorrendo no mundo, uma que em breve será uma das mais importantes é a expansão da chamada "inteligência artificial" (IA) em uma série de áreas, trazendo mudanças significativas na economia, no trabalho, na convivência social e em muitas outras áreas. A IA envolve basicamente a capacidade informática de absorver uma enorme quantidade de dados para processá-los - mediante algoritmos - a fim de tomar decisões baseadas em um objetivo específico, com uma velocidade e volumes que superam em muito a capacidade humana. Por exemplo, já é usada para otimizar os investimentos particulares na bolsa de valores, ou para melhor ordenar o tráfego de veículos ao identificar, em tempo real, as rotas menos congestionadas.

O discurso promocional procura vender a IA como resposta para a maioria dos problemas; e, sem dúvida, muitos aplicativos podem ser bastante rentáveis, a nível pessoal ou social. No entanto, como qualquer tecnologia, a forma como ela se desenvolve responde a interesses específicos e atualmente as únicas entidades capazes de realizar investimentos e gerenciar a quantidade de dados requeridos para otimizar os sistemas limitam-se praticamente às grandes corporações transnacionais: principalmente estadunidenses, mas também chinesas e, em menor medida, de alguns outros países.

A hegemonia que essas empresas têm alcançado se deve, por um lado, a posição-chave que ocupam ao controlar as plataformas que conectam os diferentes atores, fato que se presta à constituição de monopólios. E isto, por sua vez, permite-lhes acumular mais dados, o principal insumo desta nova economia digital. Então, especialmente quando se trata de transferir serviços públicos ou funções críticas para sistemas de inteligência artificial geridos por essas empresas, surge uma contradição entre a meta de lucro máximo da empresa e as exigências de interesse público.

Um dos riscos mais evidentes é uma eventual falha ou hackeio de um sistema vital (como as redes elétricas) ou de alto risco (veículos como trens e metrôs). A possibilidade aumenta se a empresa responsável tenta aumentar seu lucro, reduzindo os gastos com segurança.

Mas sérias implicações e desafios surgem em muitos aspectos, como por exemplo, a respeito dos direitos humanos ou das zonas jurídicas nebulosas, assim como da soberania.

Nos países desenvolvidos (particularmente a Europa), está aberto o debate sobre as implicações da inteligência artificial e começaram a ser desenvolvidos quadros de princípios e direitos, que cobrem questões como:

- Robôs e sistemas de inteligência artificial programados para tomar certas decisões têm, às vezes, algoritmos complexos e é impossível saber exatamente como e por que eles tomaram uma decisão e não outra. Então, quem é responsável pelas consequências dessas decisões?

- Quem possui os dados que os sistemas informáticos recolhem dos sensores (por exemplo, uma cidade) ou usuários (com ou sem o seu consentimento ou conhecimento)? Quais são as implicações sobre quem se beneficia dos retornos econômicos que produzem?

- Como evitar que os sistemas inteligentes aprofundem exclusões e discriminações (intencionalmente ou não)? Na verdade já existem muitos casos em que é evidente que os preconceitos sociais se refletem nos mesmos algoritmos.

Possivelmente, um dos problemas mais graves seria o impacto sobre o emprego devido à automação ou robotização da produção de bens ou serviços. Há previsões de que o emprego em muitos setores irá desaparecer, e que novos postos de trabalho seriam insuficientes para absorver todas as pessoas deslocadas; entre os setores mais vulneráveis estão o dos motoristas profissionais ou das equipes de vendas supermercados e lojas. Portanto, há um crescente apoio nos países desenvolvidos, mesmo no setor empresarial, à ideia de que será necessário estabelecer uma renda básica universal para as pessoas desempregadas, o que seria subsidiado por meio de políticas de transferência de renda das empresas ultra rentáveis no setor de IA.

Toda vez que outros analistas consideram exagerado o perigo de perda de emprego, ao menos em curto prazo (talvez por razões políticas: um trabalhador com medo de perder seu emprego será mais dócil), já que se fosse verdade que os robôs estejam substituindo massivamente os trabalhadores, estaria sendo produzido um forte crescimento na produtividade, o que, pelo menos no caso dos EUA, não é registrado. [1] A média de crescimento foi de apenas 1,2% ao ano na última década e apenas 0,6% nos últimos cinco anos.

Mas não há dúvida de que há uma transferência de riqueza para as empresas que concentram o poder na indústria de IA (também conhecidas como GAFA - Google, Apple, Facebook, Amazon -, ou GAFA-A, incluindo a empresa chinesa Alibaba); o enriquecimento se baseia no processamento e na acumulação de dados.

O impacto sobre o Sul

Na América Latina, até agora, há pouco debate sobre estas questões. No entanto, podemos estimar que os impactos serão significativos e relativamente a curto prazo. Por um lado, as mudanças no Norte, sem dúvida, teriam consequências no Sul. Por exemplo, à medida que avança a robotização e a automação, certas linhas de produção que foram transferidas para os países do Sul para beneficiar-se da mão de obra barata voltam-se para o Norte. Na verdade isso já está acontecendo: na Índia, por exemplo, o emprego no setor de tecnologia da informação teve forte redução, especialmente call centers. Por outro lado, a contratação no Sul de sistemas de IA de fornecedores do Norte, por exemplo, para melhorar os serviços públicos, vai significar novas formas de extração de riqueza e de dados e, portanto, novas formas de dependência, maiores lacunas entre o Norte e o Sul, etc. Seria importante a realização de estudos para medir o impacto real nos nossos países e para estimar o impacto potencial.

Em um artigo de opinião publicado recentemente no New York Times [2], Kai-Fu Lee (que lidera uma empresa chinesa de capital de risco e preside seu Instituto para a Inteligência Artificial), apresenta as perspectivas em termos bastante curiosos: para um futuro próximo, embora a IA esteja longe de poder competir com a inteligência humana, ele reconhece que ela tem a capacidade de reconfigurar o sentido do trabalho e da criação de riqueza, o que desencadeará a eliminação de postos de trabalho em grande escala, levando a desigualdades econômicas sem precedentes. Portanto, considera inevitável introduzir políticas de transferência de renda das empresas de IA com alta rentabilidade para os setores sem empregos, o que será viável - diz ele - em países como os EUA ou a China, que têm o potencial para dominar o setor. Mas sendo a IA uma indústria onde a fortaleza gera maior fortaleza, a maioria dos países ficaram de fora dessa possibilidade, e por isso "enfrentam dois problemas insuperáveis. Em primeiro lugar, a maior parte do dinheiro que produz inteligência artificial irá para os Estados Unidos e China". E em segundo lugar, ter populações em crescimento se tornará uma desvantagem, devido à escassez de postos de trabalho.

Então, pergunte quais opções restarão para a maioria dos países que não poderão cobrar impostos de empresas de IA ultra lucrativas: "Eu só posso prever uma: a menos que desejem afundar seus povos na pobreza, eles serão forçados a negociar com o país que lhes proporcione a maior quantidade de softwares de inteligência artificial - China ou Estados Unidos - para que essencialmente sejam dependentes econômicos desse país e aceitem os subsídios de assistência social em troca de que as empresas de inteligência artificial da nação 'mãe' sigam lucrando com os usuários do país dependente". O autor estima que as empresas norte-americanas dominarão nos países desenvolvidos e em alguns países em desenvolvimento, e as empresas chinesas na maioria dos países em desenvolvimento, arranjo econômico que "transformaria as alianças geopolíticas".

Sem dúvida, é um prognóstico influenciado pela perspectiva geopolítica chinesa, mas o destacamos aqui porque é pouco frequente que o setor empresarial queira reconhecer esta realidade. Pode-se pensar que haveria outras saídas. No entanto, com a atual inércia na maioria dos países do Sul frente a esta realidade, ainda mal compreendida, um cenário semelhante ao que prevê Kai-Fu Lee parece bastante provável. O Sul permaneceria em seu papel de provedor de alimentos e matérias-primas e aprofundaria sua dependência do Norte.

Não há muito tempo para reagir, como destacou, em sua recente visita ao Equador, o ex-ministro de Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, que alertou que o atual modelo econômico do país sul-americano durará cerca de cinco anos e depois - se não houver reposição tecnológica -, ficará de fora da cadeia de criação de valor. "A mudança tecnológica está se movendo rapidamente contra os produtores primários: os países de baixa ou média renda que dependem do comércio físico". Ao mesmo tempo que elogiou a sofisticação da política financeira do Equador frente a dolarização, a dívida externa, para a redistribuição de renda, considerou que o desafio atual é o de encontrar uma sofisticação similar no setor de tecnologia, emulando, por exemplo, a Estônia ou a Islândia, com uma política de soberania tecnológica, para que se torne um exemplo para a região e para o processo de integração regional.

Enquanto isso, as transnacionais do setor se apressam para derrubar todas as barreiras que podem subsistir para seu domínio global sobre os mercados e os dados. Eles avançaram sua agenda com muito pouca resistência nos capítulos sobre comércio eletrônico os acordos comerciais TPP (Trans Tratado – já expirado) e TISA (Acordo sobre o Comércio de Serviços - por enquanto congelado); então a aposta agora é abrir negociações sobre "e-commerce" na Organização Mundial do Comércio (OMC) [3].

Sem dúvida, o desafio da nova economia digital exige uma vontade política clara e forte, mas também a busca por alianças. Pelo tamanho dos investimentos que são requeridos, é pouco concebível que qualquer país da América Latina, por si só, possa encontrar uma saída adequada; mas um bloco de países - como a UNASUL - teria maior capacidade de desenvolver níveis de resposta, pelo menos para afirmar a soberania regional em algumas áreas críticas. Isso lhe permitiria igualmente acumular mais poder de negociação frente às potências da IA e suas empresas, como nas instâncias globais onde se definem políticas de governança.

[1] Ver Dean Baker, “The Data Defying Job-Killing Robot Myth”.

[2] Kai-Fu Lee, “La verdadera amenaza de la inteligencia artificial”, New York Times, 27 de junio 2017.

[3] Ver Sally Burch, “La agenda del comercio electrónico en la OMC”.

Sally Burch, em artigo publicado por Alai

Instituto Humanitas Unisinos