Espaço Social

Pílulas Espirituais, Solenidade de Pentecostes

Publicado em 21/5/2018 por: Pe. Pedro Magalhães Guimarães Ferreira S.J.

Para a Missa da Solenidade de Pentecostes (20/05/2018)

Neste dia de Pentecostes celebra-se o nascimento da Igreja, porque o Espirito Santo, que foi infundido aos apóstolos, é a “alma da Igreja”. Este aspecto “interior” da Igreja é quase que completamente ignorado pela grande midia e pela maioria dos nossos contemporâneos. (É graças a este fato que dizemos que a Igreja é santa. Se a Igreja é feita de pecadores – dir-se-á – como podemos dizer que ela é “santa”? Na realidade ela não é feita só de pecadores, porque a chamada “Igreja triunfante”, constituída por todos aqueles que já estão no céu, não tem pecadores, somente ex-pecadores. Mas mais fundamentalmente a Igreja é santa, porque, como foi dito, sua “alma” é o Espírito Santo. Sobre a chamada “Igreja militante”, que somos nós, que ainda estamos neste “vale de lágrimas”, temos as palavras tão verdadeiras e belas do Concílio Vaticano II: “Caracteriza-se a Igreja por ser humana e ao mesmo tempo divina; visível, mas ornada de dons invisíveis; operosa na ação e devotada à contemplação; presente no mundo, e no entanto, peregrina. E isso de modo que nela o humano se ordene ao divino e a ele se subordine, o visível ao invisível, a ação à contemplação e o presente à cidade futura, que buscamos”[1]. São Bernardo de Claraval a respeito da Igreja: “habitação terrena e santuário de Deus; casa de barro e corte real. A Igreja é santa: professamos isso no Credo Niceno-Constantinoplitano, que se reza nas Missas. Mas, de novo, instando, como pode ser santa, se todos os seres humanos – à exceção da Virgem Maria – são ou foram pecadores? A resposta a esta pergunta se dá pela consideração do fato que a Igreja é uma realidade divino-humana: ela é santa pela sua realidade divina. Ponto essencial para entender isso é que “pecador” é uma privação, uma ausência da santidade devida, assim como o mal é uma privação de bem. Outro ponto importante – já mencionado – é que a Igreja é constituída não somente por seres humanos mortais, mas também por aqueles que já são imortais, que estão no céu: é a chamada “Igreja triunfante”, assim como nós somos a “Igreja militante”. O Espírito Santo é dito a “alma” da Igreja. Efetivamente, a santificação da Igreja é atribuída ao Espírito Santo, é Ele que nos santifica.

Na questão da “compreensão” dos mistérios de Deus pela ação do Espirito Santo, há que enfatizar, primeiramente, que não há compreensão propriamente dita: do contrário não seriam mistérios. Trata-se, na realidade, seja de uma articulação intelectiva dos mistérios entre si – o que não deixa de ser uma compreensão do mistério, não em si, mas na sua articulação com os outros – seja de uma articulação do mistério com a realidade em que vivemos. Assim, por exemplo, através da fé na Encarnação do Verbo em Jesus Cristo, podemos entender algo do problema do mal e sua relação com a bondade de Deus: com a redenção de Cristo – com todas as suas consequências – o mal passa a ter um caráter muito menos dramático do que se a Redenção de Cristo não tivesse ocorrido. Outro exemplo: a vida eterna é a solução cabal e plenamente satisfatória – porque eterna – para o problema do mal.

Há que referir também neste dia os sete dons do Espírito Santo, mencionados explicitamente na Sequência. No Novo Testamento a referência a estes dons aparece em 1 Cor 12, 1-14: aí são mencionados a sabedoria, o conhecimento, o discernimento de espíritos e outros que não estão na lista tradicional da Igreja, a qual consiste dos seguintes: Sabedoria, Entendimento, Ciência, Conselho (ou Discernimento), Fortaleza, Piedade e Temor de Deus. Esta lista está quase toda no livro do Profeta Isaías, mas na sua completude vem da Idade Média, aí pelos séculos XII e XIII. Observe-se que os quatro primeiros se referem à nossa inteligência. Pode parecer que haja uma certa redundância nestes quatro dons referentes à inteligência, ao não se ver claramente, por exemplo, a distinção entre ciência e entendimento. Existe um ditado em inglês que tem a ver com os quatro primeiros dons e que esclarece um pouco a distinção: diz que informação é mais que o conjunto de dados, conhecimento é mais que informação, compreensão é mais que conhecimento e sabedoria é mais que compreensão. (“Data is not information, information is not knowledge, knowledge is not understanding and understanding is not wisdom”).

[1] Concílio Vaticano II, Constituição Sacrossantum Concilium, no. 2, apud, Catecismo da Igreja Católica, no. 771.