Espaço Social

O que é mesmo o respeito às diferenças?

Publicado em 27/7/2018 por: Ivone Gebara

Respeitar o outro não é convencê-lo a aderir ao modelo de comportamento que eu apresento como correto.

O artigo é de Ivone Gebara, freira católica, filósofa e teóloga feminista de atuação internacional, publicado por CartaCapital, 20-07-2018.

Eis o artigo.

Um dos refrões mais ouvidos nos dias de hoje é: “tem que haver respeito às diferenças”! Em diferentes situações de agressão, clamamos pelo respeito à pessoa, às leis, aos direitos, aos deveres, à justiça. O que significa de fato esse respeito? O que buscamos quando gritamos por respeito?

Constata-se que esse refrão é interpretado segundo a necessidade imediata da pessoa agredida ou segundo o critério dos que reclamam por esse direito. Mas, se algo é reconhecido como direito, por que não é vivido como tal? Constata-se que a reciprocidade exigida pelo respeito não é levada em conta, ou seja, o direito ao respeito parece não ter igual legitimidade social.

A palavra ou o conceito respeito é atribuído no caso da presente reflexão às diferenças. Por isso quero lembrar algo sobre o sentido da palavra respeito. Sua origem está no latim respectus e indica um sentimento de apreço, consideração, deferência, algo que merece um segundo olhar, uma segunda chance, uma segunda atenção.

Não tem a ver com concordância com a posição alheia, mas permissão para que ela se manifeste livremente quando não cause dano a outrem. Respeito exige reciprocidade e aí entramos num terreno muito complexo que de certa forma está ausente nas instituições sociais mantidas pelo capitalismo vigente, o maior educador de nosso povo. E isto porque quando pensamos em respeito e reciprocidade já temos um quadro mental interpretativo em que submetemos uns aos outros.

Respeitar o diferente não é convencê-lo a aderir ao modelo de comportamento que eu apresento como correto ou que a mídia determinou como correto. Tal forma de respeito na realidade é um sutil autoritarismo, um convencimento de que o diferente tem que ser igual a mim mesmo se eu o afirmo como diferente. Sou eu que afirmo o outro/a como diferente.

Por isso colocar a palavra respeito como anterior às diferenças significa de certa forma limitá-las a uma espécie de ordem interpretativa visto que sozinha a palavra não se dá a si mesma um significado. E a pergunta que surge imediatamente é: quem estabelece o significado e a ordem do respeito, quem a determina, quem a promove? Estamos dessa forma diante das múltiplas interpretações e dos limites que a palavra respeito contém.

Respeito às diferenças sexuais! Respeito às diferentes etnias! Respeito às diferentes idades! Respeito às leis! Respeito à floresta, a terra, aos rios, aos mares... Tudo tem que ter respeito, mas como se pode viver e entender algo mais desse respeito? O que fazer para que ele seja efetivo em favorecer o bem comum?

Diante dessa difícil tarefa, tenho dificuldades com as afirmações sobre respeito ilimitado ou absoluto. Creio que esse absoluto não existe isso porque não o experimentamos. Minha existência no mundo é por si só limitada a esse momento no qual vivo, ao espaço que ocupo, à minha educação, à minha família, a tudo o que recebi. Sou o que sinto, sou as minhas simpatias e antipatias, sou os interesses que defendo e os valores que prezo. Tudo isso sou eu, meu corpo, corpo aberto a tantas coisas e ao mesmo tempo limitado a tantas outras.

Por isso não posso respeitar todas as diferenças e todas as opiniões. Não posso respeitar tudo no sentido de ter que acolher algumas formas de existir que me agridem, ameaçam, matam, destroem minhas convicções, minha maneira de estar no mundo. Tudo isso para afirmar que o respeito às diferenças não pode ser absoluto, não é experimentado como absoluto, mas é limitado aos nossos próprios limites.

O que posso fazer é apenas abrir uma conversa, propor um diálogo para que cheguemos a uma coexistência possível para além da beligerância que se instaura entre nós. O que posso fazer é continuamente me lembrar que sempre sou a imagem e semelhança do outro/a. E é “essa imagem” que tem que ser diretiva de minhas ações.

Para ser concreta, eu que não tenho casa não posso ser respeitosa diante da situação de acúmulo imobiliário de certas pessoas, não posso respeitá-las sem respeitar em mim a necessidade e o direito de ter uma casa, uma moradia para meu corpo, um abrigo do sol e da chuva.

Eu que estou faminta e me descubro olhando os restaurantes de luxo sem acesso nem a ‘quentinha’ diária não posso sentir respeito por aquela turma sorridente que entra nos restaurantes. Eu transexual não posso respeitar os donos da empresa em que trabalho que, ao descobrirem como sou, me dispensaram do trabalho. Eu mulher violentada não posso ter respeito pelos meus violentadores.

Meu corpo é minha abertura e meu limite em todas as relações. Nossos corpos são aberturas e limites situados e datados. Por isso o discurso sobre o respeito às diferenças é às vezes muito banal e inconsistente.

Para esse discurso ter consistência numa sociedade plural como a nossa precisa ser apoiado e secundado por direitos sociais efetivos, por leis que garantam a convivência e promovam de fato relações de justiça. A afirmação de direitos cidadãos é exigida na convivência social e dá respaldo à falta de respeito explicitada de múltiplas formas.

Sair da mentira de certos idealismos políticos, de certas crenças religiosas que apenas acolhem pelas palavras se faz necessário. Como enfrentar-nos a nossa própria hipocrisia? Como enfrentar-nos aos nossos próprios absolutos mentirosos?

Um caminho é o do conhecimento de nós mesmos, do hábito de pensar sobre nossa vida, de aprender com nossa própria história desde a nossa infância. Tal aprendizado nos leva a acolher a unilateralidade e, portanto o limite de minha percepção, de minha perspectiva, de meu saber, de minha opinião, de meu sentimento, de minha diferença.

Ajuda a exercitar-me a ouvir a reivindicação do outro/a, a posição do outro, a dor do outro. Os outros pontos de vista vivem da mesma limitação que a minha, pois cada um de nós está imerso nas suas razões e carências verdadeiras ou supérfluas.

Minha inserção no mundo embora única é parcial e, por isso mesmo o que chamo de respeito também é limitado e pode ser considerado pelo outro como desrespeito.

Tudo parece um círculo vicioso e sem saída. Mas não é. Não é sem saída dentro dos limites provisórios de nossa história porque podemos tentar mudar de lugar, perceber de outro ponto o mundo que nos constitui e envolve.

Podemos apreender os limites de nossa humanidade comum e conviver juntos. Podemos captar e reconhecer nossas emoções e desejos de poder. Podemos nos ajudar a entender a nossa convivência sempre de novo.

E é essa a tarefa ética da Política e da Educação em suas diferentes expressões. Alargar visões, abrir às necessidades vitais de todos para todos, mostrar a interdependência entre as pessoas, a riqueza e necessidade da diversidade, a multiplicidade de aspectos da vida que permitem às ciências de tocar na franja do tecido humano. Nossas próprias emoções podem ser educadas mesmo se sofremos com esses processos de limite da ‘infinitude’ de nossos desejos de dominação. De fato algo pode mudar em nossos comportamentos.

Nessa perspectiva a diferença não é apenas de etnia, gênero, classe, política e outras tantas manifestações de nosso ser no mundo. A diferença não é apenas exterior a nós mesmos. A diferença sou eu, jamais idêntica a minha intimidade, sempre em estado de conversa, de dúvida, de raiva, de preconceito, de desejo, enfim de não coincidência comigo mesma.

Eu mesma sou uma figura histórica finita, instável, desrespeitosa, dependente, diferente que é convidada a observar-se antes de apontar o dedo acusador aos outros. A diferença sou eu, potente e impotente ao mesmo tempo, magnânima e sovina, compreensiva e cruel, amorosa e odiosa. Tais afirmações nos fazem lembrar a célebre afirmação de Sócrates “conhece-te a ti mesmo” como fonte de sabedoria, de ética e de Política.

E talvez esse “conhece-te a ti mesmo” seja um dos nós que estamos sendo chamados a desatar num mundo tecnológico que continuamente me distrai de mim mesmo/a. Um mundo que me convida a ocupar-me dos objetos, dos jogos e informações continuamente oferecidas por meu celular. Elas me distraem de mim, fecham às portas para o pensamento próprio para além dos “achismos” em que me submerge.

O pensamento é coisa difícil! No entanto sem um caminho para pensar o mundo como ‘corpo comum’ embora diferenciado, nossas chances de destruição recíproca tendem a aumentar. Mas quem acolherá a grande empresa do pensamento, do pensamento fora dos benefícios do mercado, fora das Universidades vendidas às grandes empresas ‘educacionais’? Eis a questão que é continuamente lançada a todos/as nós para tentarmos entender um pouco mais o significado múltiplo e complexo do ‘respeito às diferenças’ e ousar vivê-lo como valor em nosso cotidiano.

Ivone Gebara, freira católica, filósofa e teóloga feminista de atuação internacional

CartaCapital